O desporto: um logro absoluto? (artigo de Vítor Rosa, 97)

Espaço Universidade 24-04-2020 23:43
Por Vítor Rosa

Analisar o desporto (e o “campo desportivo”*) é analisar a sociedade. Em boa verdade, não se pode ser desportivo e não-desportivo inocentemente. A sua omnipresença apoia-se em discursos (alguns até bastante autoritários), que embelezam a realidade e nos enganam voluntariamente… ou não. É um incomparável mobilizador de multidões. Mais: é uma “filosofia de vida”, como se encontra escrito na Carta Olímpica. Sem valores (o respeito, o fair-play, a dedicação, o autocontrolo, a disciplina, a alegria no esforço, etc.), o desporto não seria mais olímpico. Ele seria apenas um divertimento. No caso dos valores Olímpicos, eles incluem uma verdadeira universalidade, a solidariedade, a integração, a compreensão internacional, entre outros. As ideias dominantes são inculcadas pelas mais diversas instituições: a família, a escola, os medias. Amplamente plebiscitado, o desporto governa diretamente as representações correntes e as atitudes das populações e tornou-se para muitos um molde de comportamentos. A sua ideologia é eficaz, na medida em que é interiorizada pelas massas.

 

Consciente ou inconscientemente, o desporto está em todas as cabeças. Não passamos um dia sem estar informados dos últimos resultados (ou a falta deles agora pela pandemia covid-19). O desporto pode ser definido da seguinte forma: situação motrícia, competição, regulamentado e institucionalizado. A partir do momento que o indivíduo passa as portas de um clube desportivo, ele aceita, independentemente do seu nível, a lógica e as normas de uma instituição centralizada e hierarquizada. Eis até porque é inexato, pese embora as diferentes denominações, falar de vários desportos: desporto de elite, desporto de massas, desporto escolar, desporto militar, desporto civil, desporto amador, desporto profissional. No desporto dito de competição, procuramos em vão as caraterísticas lúdicas. O desporto é uma “empresa” muito séria, absorvente para ser apenas um jogo. Como diria Georges Magnane, a liberdade do atleta é uma “liberdade bem guardada”. Somos assim levados a colocar algumas questões: um atleta age por sua livre vontade ou por obediência?

 

Decidiu sozinho se submeter a um treino forçado ou está sujeito a um ambiente cada vez mais invasor? Os atletas de alta competição estão rodeados de fisioterapeutas, de médicos, de psicólogos; são examinados, testados, controlados, condicionados, infantilizados. Não nos contentamos a dirigir o seu trabalho, como os alimentamos, os vestimos, são alojados, pensamos por eles. Submetidos a pressões familiares, do público, do Estado, dos treinadores, dos dirigentes e agentes, o atleta deve ganhar para que, de uma forma ou de outra, a sua “entourage” retire dividendos. Ao observar os dirigentes influentes de certos clubes, rapidamente percebemos que reivindicam uma boa parte do sucesso. São as vitórias por procuração. O atleta, se reduzido a uma máquina de ganhar, com todos os riscos inerentes, torna-se um instrumento de avaliação permanente. Mas, como diria Albert Jacquard, uma sociedade que só propõe à juventude a competição, como a única moral de vida, é uma sociedade doente.

 

* Campo desportivo: noção definido por Pierre Bourdieu para dizer que é um espaço social, possuindo normas próprias e relativamente autónomo do campo social global. Todo o campo – desportivo, económico, literário, burocrático, jurídico, científico, etc. – é também um campo de forças com as suas relações de dominantes-dominados e as suas desigualdades.

 

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares de Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

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