«Seria bonito eu e Judd na final do Mundial» - Neil Robertson

Snooker 22-04-2020 22:05
Por António Barroso

O australiano Neil Robertson, de 38 anos, número dois do ‘ranking’ e campeão mundial em 2010, reagiu esta quarta-feira ao anúncio da World Snooker Tour, de que o Campeonato do Mundo irá realizar-se, agora de 31 de julho a 16 de agosto, em Sheffield (Inglaterra) com a ambição de voltar a defrontar o número um mundial, o Judd Trump, a quem venceu (10-9) na final da Champion of Champion, única de 11 últimas finais perdidas pelo inglês, já recordista de títulos numa só época, a presente (2019/2020), com seis provas de 'ranking' numa temporada.

 

«Seria bonito eu e Judd jogarmos a final. Veremos», afirmou neste dia o profissional do hemisfério sul, numa longa entrevista - ‘vodcast’ com Andy Goldstein intitulado ‘The Break’, a emitir sexta-feira, dia 24 do corrente mês, mas apenas para o Reino Unido (EuroSport), a que A BOLA teve acesso antecipado e exclusivo para Portugal -, numa extensa conversa em que abordou os problemas de sanidade mental da esposa, Mille, e a sua dependência de jogos eletrónicos, além de revelar as mais curiosas facetas da carreira, e desvendar episódios mais pitorescos e surreais do seu início de carreira e de como, na Austrália, esteve prestes a desistir do snooker três vezes.

 

Eis, na íntegra, a entrevista do campeoníssimo australiano, vencedor de 18 provas de ‘ranking’, em que, em tempos de quarentena devido à pandemia pelo Covid-19, se revelou o bem-disposto e sempre alegre homem que todos aprenderam a respeitar à mesa e agora, também, muito mais fora dela:

 

- Como tem sido não ter condições para se treinar ou fazer um jogo a sério?

- Eu estou bem. Geralmente, tiro sempre um tempo para mim no verão, parece que o meu verão já passou num mês em que deveríamos ter jogado o Tour Championship e o Mundial. Tem sido duro, mas até parece que já joguei a final do Mundial, o cansaço é semelhante, e o que quero é tirar umas grandes férias! Mas na realidade, as férias ideais parecem-me, agora, ficar em casa. Muitas vezes, ia à Austrália um mês mas em casa estava um dia ou dois. Por isso, a parte boa é estar mais tempo em casa e ter mais tempo para a família.

 

- Não é normal um australiano querer ser profissional de snooker. Como aconteceu?

- Eu e o meu irmão passávamos os fins-de-semana com o meu pai e ele levava-nos a ver alguns jogos de pool, Bola 9, todos os sábados de manhã. As mesas de snooker pareciam-nos um pouco maiores nessa altura, mais ainda a jogar uma vez por semana. Mas foi assim que tudo começou. Um ano após as nossas visitas regulares ao salão, um dos donos estava vendedor dos seus 50 por cento no negócio e o meu pai investiu. De repente, tínhamos mesa de pool e de snooker para jogar à borla! O snooker era muito popular na Austrália, o programa Pot Black [BBC] era popular nos anos 80 e jogadores como Jimmy White e Alex Higgins eram presença assídua no Open da Austrália. À semelhança do que sucedia antes no Reino Unido, só havia quatro ou cinco canais de TV, o que deu ao snooker grande projeção mediática. Eddie Charlton [ex-jogador australiano] era um tipo popular na altura, chegou a algumas finais, perdeu uma do Mundial para Ray Reardon ao falhar uma bola castanha fácil nesse jogo. Foi assim que comecei, com o meu pai a organizar uma prova para os juniores todos os sábados de manhã. Espalhava panfletos promocionais perto das escolas, e o prémio para o vencedor era 5 dólares [4 euros] uma Cola [refrigerante] e um Mars [chocolate] do bar, o que, para um miúdo de 11 anos, era o Mundo!

 

Treinos aos sábados de manhã

 

- Mas havia bons jogadores no clube, não?

- Sim, dois ou três amadores de muito bom nível. Mas com eles só evoluiria até um certo nível. Por isso, o meu pai formou uma equipa de snooker do clube, em que englobou os melhores do nosso estado, Victoria. E arranjou um deles como treinador para mim, todos os sábados de manhã, Brett Rogers, que jogava muito bem e conseguiu vários 147 [entrada máxima] com vários tipos de tacos diferentes!  Nunca tal tinha visto! Ele ia ao molho dos tacos, escolhia um e somava centenárias [entradas de 100 ou mais pontos] atrás umas das outras, ‘frame’ após ‘frame’, jogo após jogo! Era um jogador fantástico mas… sem cabeça! Até areia passava no taco, se o peso ou de o sentir na mão. E lixa, também. Se não havia, riscava os tacos com… chaves, e arrancava para mais um 147! Lembro-me, quando tinha 13 anos, de o defrontar: ele saiu, eu falhei uma vermelha longa e ele… 147. Logo a seguir, eu abri… e ele arrancou ‘break’ de 137! Mas o maior problema de aprender a jogar na Austrália era ouvirmos relatos de juniores que já somavam uma dezena ou mais de centenárias diariamente nos treinos, o que é… de loucos, certo? Por isso, para evoluir, comecei por pensar em fazer ao menos uma centenária por semana. Dito isto, pensava que não havia modo de chegar a ser tão bom o suficiente quanto os demais. Por isso, mentalizei-me que não conseguiria bater nem os melhores da minha idade, à época, na Austrália ou onde quer que fosse.

 

- Como via os jogos de snooker na Austrália?

- Arranjávamos videos de jogos do Masters, do UK Championship, do Mundial: havia sempre alguém no Reino Unido que gravava e nos enviava. O primeiro jogo que vi foi uma final do Masters entre o Stephen Hendry e o Alan McManus, quando Alan quebrou o seu recorde, e Hendry tinha ganho as quatro ou cinco anteriores edições do Masters. O outro sócio do meu pai no clube era escocês, e ele adorava Hendry e McManus, por isso tínhamos sempre muitas gravações de jogos deles para vermos! Cresci a ver jogos… de escoceses. A piada é que as imagens só nos chegavam aí, em média, uns dois meses após os jogos terem sido, mas, tinha eu 11 ou 12 anos, a verdade é que nessa altura os víamos… ainda sem sabermos o resultado!

 

- Com que idade resolveu apostar em ser profissional de snooker?

- Quando já não aguentava mais a escola, aí pelos meus 14 ou 15 anos. Já não apreciava, porventura por o sistema de educação não ser o melhor, e os alunos começavam a reprovar sistematicamente, eram deixados para trás, os professores não se preocupavam tanto com os repetentes. Por isso estava farto da escola e ia até ao clube ajudar o meu pai dois dias por semana. Durante as férias escolares jogava todos os dias, tal como aos fins-de-semana. Até que o meu pai percebeu que eu, de todo, nada queria já com a escola, que porventura estaria a ser mais nefasto do que aprendizagem para mim: nem fardar para ir à escola gostava. Vestia-me… mas caminhava 10 minutos até ao clube do meu pai, que me saudava, dava-me as bolas e eu ficava deslumbrado ali. Claro que a minha mãe não ficou contente quando descobriu e foi contra a minha vontade de deixar a escola. Mas o meu maior desafio era tornar-me profissional: deixar a escola sabia que poderia sempre voltar, mais tarde, mas para mim já tinha decidido que nunca regressaria. A minha ideia foi um ano sabático da escola e ver quão bom era à mesa de snooker.

 

- E como fez para prosseguir, então?

- Tinha 16 anos quando fui aos Campeonatos da Oceânia, em Melbourne: os quatro semifinalistas ganhavam o direito a tornarem-se profissionais e jogarem o ‘main tour’. Havia quatro vagas para eu agarrar uma. Cheguei às meias-finais, e tornei-me profissional aos 16 anos: uma excitação! Problema é que não ganhara um único torneio na Austrália até então, ser profissional veio quase do nada! Por isso, viajei para Inglaterra, coisa que nunca havia feito, e caí em mim. A minha avó morava no Reino Unido, foi buscar-me ao aeroporto, levou-me até Plymouth, onde se jogavam as qualificações, e eu e mais três compatriotas vivemos aí, naqueles apartamentos típicos de estudantes, foi estranho! Todos os profissionais de outros países, do Egito à África do Sul, Tailândia, fossem de onde fossem. Muito diferente do que sucede agora, onde surgem jogadores a morar já no Reino Unido ou da China a viverem em Inglaterra já há muito tempo, à exceção de um ou dois. Tempos memoráveis, foi uma experiência realmente interessante! Mas não me saí muito bem: só ganhei um jogo, levei umas ‘tareias’ assiduamente. Claramente, não estava à altura da concorrência da época, mas utilizei isso como motivação para os anos vindouros.

 

O início conturbado da carreira

 

- Mas chegou a desistir do snooker…

- Desisti do circuito três vezes. Quando ainda tinha 16 anos, mas depois venci os Campeonatos da Oceânia aos 18, já muito mais evoluído, e saí-me bem melhor como profissional: venci dez jogos e só perdi 4-5 para o Stephen Maguire, assim como nas qualificações para o Mundial, 8-10 ante o Ian McCulloch. Era já um um jogador completamente diferente dos anos iniciais.

 

- Qual foi o momento decisivo de apostar no snooker?

- Dos meus 16 aos 21 anos, em que, como disse, desisti do ‘main tour’ três vezes. Aos 21, basicamente tinha arrumado o snooker a um canto da minha cabeça. Sejamos realistas, quanto tempo aguentaria em viagens constantes da Austrália para Inglaterra? Por isso, dirigi-me ao Centro de Emprego em Melbourne, para me inscrever e receber subsídio de desemprego. Não tinha escolha. Estava na fila do ‘guichet’ e muitos discutiam porque não iriam ter direito ao seu cheque. Na Austrália, tens de provar que te candidataste pelo menos a 12 empregos para teres direito a esse apoio da Segurança Social. E muitos dos que estavam na fila não tinham batido às portas. Armou-se uma confusão, e dei comigo, no meio da fila, a pensar ‘é isto que me espera todos os meses, o resto da vida, para comer?’. Dei meia volta e saí dali, conversei com os meus pais, o Mundial de sub-21 era no mês seguinte na Nova Zelândia, a uma curta distância de avião desde Melbourne. Treinei no duro para a prova, que foi em 2003. E que Mundial sub-21 foi, talvez com o melhor lote de jogadores desse evento até à data: estava eu, o Ding [Junhui], Mark Allen, os irmãos Poomjaeng [tailandeses] e muitos outros que agora todos vós conheceis. Venci Ding nas meias-finais e depois Liu Song na final e… fui campeão!

 

Crescer com ‘sovas’ regulares de Joe Perry

 

- Reconquistou o direito a tornar-se profissional.

- Sim, eu e outros quatro jogadores de paragens distantes de todo o globo, entre os quais Ding. Pensei que era a minha última chance para o ‘main tour’, que tinha de a aproveitar, desse por onde desse! Steve Mifsud vencera o Mundial Amador um ano antes [2002] e também chegara ao ‘main tour’. Um amigo meu, Joel Younger, também já era profissionais, e decidimos, os três, alugar uma casa no Reino Unido. E o Joe Perry levou a sua mesa para o nosso clube, em Cambridge. Sucedeu tudo ao mesmo tempo, de uma vez: foi uma sorte inacreditável. Além disso, dois jogadores que já seguia na Austrália, e que cresci a admirar, a morar comigo, e Joe [Perry] no clube onde treinávamos?! Estávamos sempre juntos. Pela primeira vez em muitos anos, não adoeci em Inglaterra, ao contrário do que era norma quando chegava da Oceânia. Odiei e aborrecia-me de forma incrível a viver em Leicester, mas ao mudar-me para Cambridge, tudo foi diferente: parecia outro país! Mesmo com o Joe [Perry] a dar-nos umas sovas todos os dias: ele já era ‘top 16’…

 

- Sagrar-se campeão do Mundo em 2010 deve ter sido uma sensação recompensadora de todos este sacrifício, para mais com a família toda, que veio da Austrália, no Crucible. Ficou 'nas nuvens'?

- Era um dos favoritos à partida, tinha ganho o World Grand Prix, um dos únicos seis torneios de ‘ranking’ dessa temporada [2009/2010]. Havia muita política à volta do desporto, falava-se que o Barry Hearn ia tomar conta do snooker, havia imensa pressão sobre os jogadores, pois todos pensávamos que poderia ser o último grande Mundial, face aos rumores de que o prémio monetário iria ser drasticamente reduzido. Comecei e senti-me bem, venci Fergal O’Brien por 10-6 na primeira ronda, e na segunda veio um dos jogos marcantes da prova. Perdia por 0-6 contra o Martin Gould, que nem estava a jogar por aí e além, sem nada a perder: o público estava todo do lado dele, que praticamente estava a dar-lhes um concerto rock de ‘heavy metal’: eles queriam ver um australiano ‘massacrado’, foi a sensação que tive. Estava 5-11 para ele, e a piada é que tinha ficado alojado em Sheffield numa casa com amigos, entre os quais Matthew Selt, com quem ainda hoje me dou bem, e o senhorio do apartamento perguntou-me se queria a extensão do aluguer para ficar mais uma semana. Disse-lhe que não se preocupasse, que deveria ser eliminado cedo, por isso dei-lhe carta branca para alugar a casa a outros. E algo interessante aconteceu: estávamos a ver John Higgins [campeão mundial em 2009, defendia o título] a jogar ante Steve Davis, e já sabia que o vencedor encontraria na ronda seguinte Martin Gould ou… eu. E Davis jogou bem, como poucos esperariam. Pensei que ele interiorizou que seria a sua última grande chance de mostrar o grande campeão que é [hexacampeão mundial nos anos 80, Steve Davis] e de chegar ao cenário do Crucible com uma só mesa e não duas, nos quartos de final.

 

A mais espantosa das reviravoltas ditas ‘impossíveis’

 

- Ganhou uma nova motivação?

- Isso deu-me esperança: se Steve Davis conseguia bater John Higgins, mesmo a perder 5-11, a perspetiva de defrontar o grande Davis a seguir animou-me. Até porque ele não era mais o jogador dos anos 80 e 90, por isso Martin deveria estar a pensar que tinha uma possibilidade enorme de chegar pelo menos às meias-finais. E tentei encontrar confiança dessa circunstância. Martin deveria estar a pensar que tinha chance enorme, com Davis a seguir, de chegar pelo menos às meias-finais. E tentei tirar partido e confiança de ele poder estar já a vislumbrar esse cenário. Vi Steve Davis vencer e pensei que se conseguisse colocar Martins sob alguma pressão nos primeiros ‘frames’ da sessão noturna, ele poderia enervar-se.

 

- Conseguiu espantosa reviravolta. Como?

- Fui para mesa, com 5-11, como se estivesse eu a vencer por 11-5, a arriscar tudo, agressivo, com linguagem corporal confiante e autoritária, a ir a tudo, a tentar embolsar todas as bolas. Venci os primeiros dois parciais [7-11] e reparei que o jogo já não saia fluído a Martin como na sessão anterior do encontro. Virei o jogo do avesso e venci na ‘negra’ [13-12]. A partir daí, interiorizei que se tinha sobrevivido, era capaz de ir até ao fim no Mundial. E ganhei! Penso que venci Steve Davis por 13-4 ou 13-5, e depois o número dois ou três do ‘ranking’ na altura, Ali Carter, nas meias-finais, e na final o Graeme Dott, que jogava, então, a sua terceira final em cinco anos [campeão em 2006].

 

- Quando olha para trás, para os Campeonatos do Mundo, UK Championships e Masters que jogou, qual se orgulha mais de ter vencido?

- Seguramente, e antes de tudo… ter ganho as três provas da Tripla Coroa: não são muitos os jogadores que o conseguiram! Com Judd Trump a vencer o Mundial 2019,  seremos agora 10 ou 11, mas quando o consegui, fui apenas o sétimo! Desde aí, penso que Mark Selby, Shaun Murphy e Judd se me juntaram no grupo.

 

- É o único jogador do Mundo que conseguiu um 147 numa final de um evento ‘Triple Crown’, quando venceu Liang Wenbo no duelo decisivo do UK Championship. Foi especial para si, não?

- Sim, é uma sensação única, espantosa! Nem sabia disso na altura: soube por vós ser o primeiro, na conferência de imprensa a seguir. Pensava que Ronnie, de alguma forma, já o teria feito, mas sim, sou o único… e ainda. É o melhor sentimento do Mundo, conseguires um 147 numa final assim, com a multidão ao rubro, foi… espantoso! E o corolário de duas semanas de competição muito boas da minha parte. Tinha vencido a Champion of Champions duas semanas antes, e depois o ‘UK’… Olha, até o John Terry [futebolista e capitão do Chelsea, na altura] me convidou para mostrar a taça ao intervalo ao interval do jogo em Stamford Bridge, e para conhecer a ‘malta’ nos balneários, foi uma experiência… sensacional!

 

- É, também, o único a conseguir mais de 100 centenárias numa só época, 103 entradas de 100 ou mais pontos na época 2013/2014. Outro motivo de orgulho? Como foi?

- Sim, foi uma proeza inacreditável, em especial à época, não com os numerosos torneios que a época já contempla hoje em dia. Se não estou em erro, o anterior recorde era de 61 numa época e eu pulverizei-o completamente, com 103, mais 42 centenárias, o que é, de facto, muito, loucura! Recordo-me que, no início da época, comecei a somar centenárias e fui por ali fora. Mas penso que se a presente época tivesse continuado normalmente, Judd Trump terá, definitivamente, batido o meu recorde. E pode consegui-lo quando a época for retomada, no final de julho, com o Mundial. E será merecido: tem feito uma época estupenda!

 

A sanidade mental da esposa

 

- Das coisas boas às coisas más, sobre as quais foi sempre muito aberto a confessar, ao longo da sua carreira e da sua vida?

- Quando és uma figura pública, que é o meu caso como desportista profissional, e o teu comportamento é escrutinado, podes utilizar a tua imagem como algo positivo para auxiliar os outros, se revelares também as tuas fraquezas, coisa que muitos ainda se envergonham ou têm reserva. O que Tyson Fury fez, com um documentário onde revelou as debilidades da sua sanidade mental, ansiedade e depressão, é outro bom exemplo. A minha mulher, Mille, parecia ela a falar, mais coisa, menos coisa! Ela não abusava constantemente das drogas, mas com a ansiedade as pessoas bebem mais álcool e tentam acalmar-se. E foi isso que Mille fez, o que tornou tudo para mim mais difícil, a debater-me para tentar ser um dos melhores do Mundo. Por alguns anos, tentava-o sem abordarmos estes delicados temas. Acumulei alguns desaires inesperados à mesa e as pessoas não sabiam a razão. Se não era eu o paciente, estava a tentar ajudar, o que, óbvia e naturalmente, me afetou, tal como ao meu rendimento. Senti-me impotente. Demorei dois ou três anos para perceber como lidar com o fenómeno: afinal, o que é ansiedade? Primeiro, mentalizando-me que Mille sofria de ansiedade, documentando-me e a aprender sobre ela e como a tratar. Passámos por tempos muito difíceis, mais ainda por eu passar longas temporadas longe de casa, a jogar os torneios…

 

- E o nível do seu jogo decresceu, sentiu-o?

- Claro. A determinada altura, treinava-me apenas 45 minutos por dia, era tudo o que conseguia, pois o resto do tempo em casa era a ajudá-la. Foi duro para a família. Começámos a encarar a sério coisas como a ida a um centro de reabilitação. Sempre pensei que era coisa para maluquinhos ou para os toxicodependentes em último grau, estrelas da música viciadas e assim. Mas quando te apercebes do que se passa, que os próprios voluntários que te auxiliam são antigos viciados, ou no álcool ou nas drogas, sabes que eles já passaram por lá e sabem como é. Mille experimentou a reabilitação durante algumas semanas, aprendeu uma série de coisas para a ajudar a lidar com a ansiedade e depressão. O primeiro passo foi largar o álcool. O combustível para qualquer dependência ou doença mental em geral é o álcool e/ou as drogas. Provavelmente, o álcool é pior, pois qualquer um vai à loja e compra. Passas um mês para sair da dependência do álcool, aprendes a lidar com a ansiedade e a depressão, que parecem esvanecer-se se conseguires ficar longe das bebidas alcoólicas. E então sim, torna-se mais fácil controlar a ansiedade. É importante ir às reuniões anónimas, falares do teu problema e ouvires outros testemunhos. Hoje, ela é uma pessoa completamente diferente. Não poderia estar mais orgulhoso dela por tudo o que conseguiu e depois ela deu-me luz verde para revelar isto publicamente. E os ecos que tive de tanta e tanta gente nas redes sociais foram… espantosos!

 

- Poder falar sobre isso em público fê-lo, desde logo e nesse instante, sentir-se melhor?

- Sim, mas tinha cautelas, pois era um problema dela, e ela não estava tanto na esfera do interesse do grande público como eu. E não havia muita gente nessa altura a vir a terreiro falar sobre o tema da saúde mental. Quando comecei, foi impressionante a quantidade de pessoas que, de repente, se abriram também e revelaram debater-se com problemas idênticos. Até na Austrália! Tenho assistido, nos últimos anos, que muito mais está a ser feito quanto à saúde mental, uma mudança de mentalidades, e isso é… incrível! Quando comecei a falar da questão, sentia o Mundo inteiro sobre os meus ombros, mas assim que a questão virou tema de debate, esse peso desapareceu.

 

- Também confessou, de forma franca, sofrer da adição a jogos eletrónicos. Já a superou?

- As duas questões, de alguma forma, estão interligadas. Tinha de estar muito tempo em casa, por isso era a minha forma de procurar escapar a lidar com os outros problemas. Não é fácil veres alguém a debater-se tanto como vi a Mille, os jogos eletrónicos eram um escape da realidade. E alguns dos jogos mudam-te, de tão agressivos. Chegou a uma altura em que já jogava tanto, como o jogo de futebol da FIFA, pois sou competitivo. Deixava o Alex [filho mais novo] na escola e vinha a correr para casa… para jogar mais FIFA, em vez de ir treinar-me para o clube. Se tinha um ou dois dias livres, chegava a jogar 12 horas seguidas. Posso disputar jogos competitivos durante vários dias sem pausas, pois embrenhava-me a fundo neles. Poderia jogar outros, mas são aqueles que são realmente perigosos que me fascinavam.

 

Os enganos e as boas memórias

 

- Mas tem tido outros problemas, de orientação nomeadamente, e ausências. Como explicar?

- De uma forma estranha. Defendia o título num torneio na Letónia [Riga Masters], éramos aí uns dez já todos sentados, à espera que o avião levantasse, quando o piloto disse que ia demorar, havia um problema: um dos pneus do trem de aterragem de um jato privado, deixando bocados de borracha por toda a pista. Tiveram de limpá-la. Uma tempestade assolava o nordeste de Inglaterra, e fomos desviados para o aeroporto de Luton. Avião algum levantava de Londres… e a minha defesa do título nem começou: acabou aí. E depois o episódio das qualificações que falhei no Barnsley Metrodome [Sheffield]. Digitei Barnsley no meu sistema de navegação, sem saber que havia mais do que um no Reino Unido. Curioso é que até me pareceu acolhedora, como Cambridge, a terra onde fui parar enganado, a 200 quilómetros… quando estava a 30 quilómetros da que queria. Guiava e guiava e começou a parecer estranho, comecei a ver placas a dizer Wolverhampton, estranhei, não podia estar bem… Depois descobri no Google o Barnsley Metrodome: estava a 150 quilómetros, e o meu jogo começava em 45 minutos, nunca teria chance de chegar a tempo.

 

- Todavia, tem realizado uma época.... assinalável e venceu uma das finais mais memoráveis, a Judd Trump, na Champion of Champions. Satisfeito?

- Decididamente foi o melhor jogo em que entrei, e penso que Judd também o diria se tivesse vencido, mas sei que seguramente o recordará como tendo sido um grande jogo, sim! Foi taco a taco, olhos nos olhos, sempre, até ao fim. Com 8-8 e um nível elevado, ele chegou a 9-8 e conseguiu um ‘break’ de mais de 50 pontos, deixou-me com cinco vermelhas na mesa e já a precisar de uma snooker e uma falta dele para forçar a ‘negra’. Embolsei as cinco encarnadas com cinco pretas, consegui o snooker e arrancar-lhe a falta, para vencer numa ‘respotted black’ [pontuação empatada, bola preta volta ao seu ponto e vence o ‘frame’ quem a embolsa e conseguir o 9-9. Na ‘negra’, ele arriscou vermelha longa e eu arranquei entrada de 137 pontos para acabar! Final perfeito para um jogo que recordarei sempre, dentro de muitos anos e para o resto da carreira, com imenso orgulho! De resto, nos últimos 18 meses, venci seis torneios. Em condições normais, chegaria para dominar o snooker, mas Judd venceu 10 de 11 finais! Por isso, eu joguei 10 finais e ele vai em 11, mas aproveitou muito mais: só não venceu essa, comigo. Mas estou feliz com que tenho conseguido, apostava ainda no Tour Championship e no Mundial esta época. Sempre pensei que este ano seria preciso algo muito especial para me vencerem no Crucible, pela forma como joguei na segunda metade da época. Claro que há muitos a sonhar, mas acreditava que este seria mesmo um grande ano para mim. Judd e eu fomos duas metades opostas que completaram uma grande história, seria bonito os dois na final! Bem, agora, temos de esperar para. Espero que todos consigam jogar o Mundial. Mas fazê-lo em julho, de fresco, sem estarmos em forma, será interessante ver o que irá acontecer…

 

- E a longo prazo, que objetivos estabeleceu?

- Quando constatas que o Masters ou Champion of Champions não são provas de ‘ranking’, mas são mais prestigiadas do que 90 por cento dos eventos de ‘ranking’ do circuito, soa estranho. Quando venci o Mundial, em 2010, foi apenas o meu sexto título de ‘ranking’, e a minha meta era chegar aí a uns dez. Cheguei à dezena, um amigo meu desafiou-me a tentar chegar a 20, como o Mark Williams, um jogador único, já conseguiu. É claro que é especial ser o 10.º aniversário do meu título Mundial, até por não mais ter chegado de novo a uma final, perdi com Higgins e Ronnie um par de vezes cada um no caminho até lá, com muitos especialistas a pensar que alguns dos quartos de final em que fui eliminado assumiram foros de, eles sim, verdadeira final. Tenho tempo, veremos.

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