Realizadora conta como foi filmar as origens do futebol para a Netflix

Entrevista 19-04-2020 10:53
Por Miguel Cardoso Pereira

O jogo inglês’, da Netflix, foi realizado pela cineasta dinamarquesa, Birgitte Staermose. A série, criada por Julian Fellowes, também o responsável por Downton Abbey, é uma revisita histórica às origens do futebol em Inglaterra, à forma como se tornou meio reivindicativo entre a classe operária britânica.  A BOLA conversou com a realizadora. 


- A série é simultaneamente um programa desportivo e uma visita social, histórica, de época. Como realizadora, qual seria, apesar desta bem-sucedida mistura, a definição que escolheria para resumir a série?
- Em primeiro lugar eu diria sempre que é um trabalho sobre o nascimento do futebol, tal como o conhecemos. Em todo o caso, é na verdade muito mais do que isso, sim, é muito mais do que apenas futebol. A história decorre na Inglaterra dos anos de 1870, um país então em recessão profunda, com uma divisão de classes talvez mais acentuada do que nunca, pobreza e sofrimento generalizados. Foram tempos muito desafiadores para a população. É neste enquadramento, justamente, que nasce o futebol, um jogo que consegue proporcionar uma arena para que essas classes trabalhadoras, os mais pobres, possam encontrar e enfrentar as elites num plano de justiça e real igualdade, um campo de futebol. Esse é o coração de O jogo inglês. Mas a série também é um drama, uma história de pessoas, com amor, com amizade, na busca dos verdadeiros significados de ser um homem, de ser um pai.


- Pelo meu hábito como espectador, parece-me quase sempre que as cenas de atividades desportivas serão particularmente exigentes de filmar. O que quero dizer é que em tantos filmes sobre desporto, muitas vezes parece que está tudo a correr bem até que chegam efetivamente as cenas de desporto, de ação, de movimento, nas quais acaba por ser difícil fugir a uma certa artificialidade. Em O jogo inglês, permita-me o elogio, essa artificialidade foi vencida, há uma naturalidade rara que pode detetar-se. Que cuidado teve na preparação e na filmagem dessas cenas?


- Antes de mais, fico muito contente por ter notado isso. Conversámos muito em equipa sobre as melhores formas para que as cenas de jogo, de futebol, parecessem excitantes no ecrã. O futebol é realmente difícil de filmar porque se trata de um jogo espalhado num espaço grande. E além do mais sem uma dinâmica suficientemente constante que lhe permita ser devidamente filmado num plano sem cortes. Nesse sentido, tomámos a decisão de manter sempre um estabilizador de câmara ou uma câmara portátil o mais perto possível que conseguíssemos dos jogadores, sem colocar os atores em qualquer perigo, claro. Daqui resultou que a coreografia para cada jogada tenha sido cuidadosamente ensaiada com a câmara pelo meio. Queríamos que os espectadores sentissem que estavam realmente no jogo e não com a sensação de que estavam a vê-lo de longe ou apenas numa transmissão televisiva. Foi esta experiência visceral, intensa, que quisemos passar a quem vê. Ademais, note que naquela altura o jogo era disputado de forma ligeiramente diferente, com as equipas a atuarem de forma mais próxima, mais agrupada, o que implicava também mais contactos físicos e isso foi inclusivamente uma ajuda para nós, para o processo das filmagens. E uma outra meta que tínhamos para estas cenas era manter o foco nos rostos dos jogadores, porque nunca queríamos perder a força das personagens e as emoções que tinham de mostrar durante os jogos.

 

                     (Birgitte Staermose por Natascha Thiara Rydvald)
 

- Houve colaboração por parte de clubes de futebol?
- Alguns dos atores tiveram oportunidade para se prepararem no centro de treinos do Manchester United, em Carrington, sempre no âmbito do desenvolvimento das personagens e das cenas. Foi muito excitante para todos, pois isso permitiu que tudo parecesse ainda mais real, preparado de forma absolutamente dedicada, preocupada e rigorosa a todos os níveis. Foi um privilégio grande para os atores poderem treinarem futebol no espaço de um clube tão icónico.


- Depreendo que tenha sentido necessidade de aprofundar muito as origens do jogo, os significados de então e o atual, para o processo de filmagem.
- Absolutamente. Acontece que eu não conhecia sequer esta história que a série conta quando me juntei à equipa para trabalhar. Mas a verdade é que fiquei rapidamente muito interessada, sobretudo quando compreendi que o futebol tinha sido sempre um desporto essencialmente oriundo das classes operárias. Nunca me tinha ocorrido como se tinha processado a transição desse estatuto para uma dimensão profissional. E ficar a saber também que havia até grandes diferenças físicas entre os praticantes de Norte e Sul, pois os operários das fábricas a Norte eram geralmente mais baixos e mais magros, pela pobreza e pela dureza das condições de trabalho.


- Parece-lhe que nestes tempos de confinamento devido à pandemia de Covid-19 haverá mais gente atenta a O jogo inglês, talvez por saudades de tudo o que  diga respeito ao futebol?
- É bem possível que sim. Mas eu não tenho números que o comprovem.

 

 

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