«Volta e meia vou para a varanda e ponho música para todos»

A BOLA FORA 10-04-2020 13:23
Por Tânia Ferreira Vítor

Aníbal Capela, central do Cosenza, cumpre o período de isolamento em Itália. Vê o mundo através da janela e da varanda do apartamento - é a nova rua. Dá música aos vizinhos italianos. Aprendeu a fazer pão caseiro e passa o tempo a analisar a bolsa. Não tem Facebook nem Instagram. Não joga Playstation nem vê Netflix.  Perguntei-lhe se posso dizer que é um jogador de futebol diferente da maioria. Penso que sim: «Vejo o futebol de perto e consigo vê-lo ao longe. A maioria dos futebolistas não consegue ver muito além da realidade desportiva. Nesse sentido, sinto-me um bocadinho diferente. Mas só aí.»

 

- À hora que te ligo, o que estás a fazer?

 

- Atenção que eu vou surpreender [risos]… Estava a ver as bolsas da Europa e dos Estados Unidos. Gosto de analisar as subidas e descidas dos índices de cada país no que diz respeito às matérias-primas, moedas… Gosto de perceber como tudo se desenrola.

 

- Como ganhaste esse gosto?

 

- Queria diversificar investimentos e perceber como funciona a Bitcoin e o sistema que está por detrás da criptomoeda. Fiquei fascinado com tudo aquilo que esse sistema pode trazer à nossa sociedade. Foi claramente a Bitcoin que me levou às bolsas. Depois percebi que aquilo é um mundo e que ali encontraria muitas respostas. Gostemos ou não, o mundo baseia-se no dinheiro, no sistema económico e torna-se interessante perceber as variações do preço do dólar, o porquê de um ativo valorizar ou desvalorizar num dia, etc...

 

- Estás a ver alguma série na Netflix durante a quarentena?

 

- Olha, tenho conta mas nunca entrei. Não sou fã, gosto mais do YouTube e de pesquisar conteúdos para aprender alguma coisa. Gosto de ver entrevistas a virologistas, biólogos, bioquímicos, especialistas sobre o assunto do coronavírus. Aproveitei a quarentena para fazer um pequeno curso gratuito, num canal de YouTube que costumo seguir, que explica a análise dos gráficos da bolsa em 28 vídeos.

 

- Era por essa área que terias enveredado caso o futebol não desse? 

 

- Nem sei, porque na verdade nunca tive um plano B. Entrei na Universidade do Minho com o estatuto de alta competição e na hora de escolher o curso liguei para um dos meus melhores amigos e perguntei-lhe o que estava a tirar. Disse-me que estava em Engenharia Eletrónica e decidi inscrever-me no mesmo curso. A média era de 16,5 naquele ano. Sempre quis ser futebolista e dediquei-me inteiramente ao futebol.

 

- Estás sozinho, em Itália, na quarta semana de isolamento. Qual é que foi o momento mais complicado até agora?

 

- Ora bem, estou no 24.º dia em casa [a entrevista foi gravada na quinta-feira] e eu funciono um bocado por fases. Houve um período difícil que durou dois ou três dias, por volta do dia 9 e 10. Nada aconteceu em particular, mas estava muito triste com toda esta situação. Senti-me mais em baixo. De resto, tenho estado sereno. Faço muitas chamadas para passar o tempo. Ligo regularmente para alguns amigos que estão na Alemanha e em França; para os meus colegas de equipa, alguns deles também estão sozinhos, e falo três vezes por dia com os meus pais. Estou muito tempo no computador com aquele hobby que te falei das bolsas e acabo por ter sempre o que fazer.

 

- Com que frequência vais às compras?

 

- Eu preparei-me com antecedência por uma questão de prevenção. Fui quatro vezes às compras antes de declararem a quarentena e trouxe o essencial para conseguir  estar aqui fechado durante um mês, um mês e meio. Ainda não fui uma única vez ao supermercado. De qualquer forma, sei que nesta zona, na Calábria, não há problema. As coisas estão a funcionar e as pessoas têm ido tranquilamente, cumprindo as normas de segurança.

 

- E como fazes com as frutas e legumes?

 

- As tangerinas, as maçãs, os limões e as cenouras aguentaram até agora. De resto, tenho enlatados com lentilhas e feijão. Tenho de aguentar assim.

 

- Algum dos teus colegas foi infetado pelo Covid-19?

 

- Felizmente, não. Estou no sul, a área menos afetada de Itália. Um colega de equipa perdeu um amigo de 34 anos que não tinha problemas de saúde, vivia em Roma. A autópsia confirmou o Covid-19 como causa da morte.

 

- Alguns estudos apontam que a grande interação entre as gerações e uma elevada proximidade habitacional foram um dos maiores perigos para a propagação do vírus em Itália. Já tinhas reparado nesta questão cultural?

 

- Sim! Os italianos vivem muito em família, os filhos vivem com os pais até tarde. Foi mesmo uma questão cultural que acelerou o vírus aqui…

 

- Tem a ver com o significado da família?

 

- Completamente! O valor da família aqui é muito maior do que em Portugal. E prova disso é que não se vê muitos italianos a emigrar, porque são extremamente ligados às raízes. Com o tempo fui conhecendo melhor o país e agora entendo melhor o porquê. Eles têm praias lindas, montanhas fantásticas, a comida é excelente e se tens cá a tua família fica difícil arranjar motivos para emigrar. O salário mínimo ronda os mil euros. Se as pessoas souberem gerir o dinheiro, conseguem fazer uma vida melhor do que em Portugal, portanto consigo perceber porque é que os italianos não querem emigrar. Além disso, é um povo muito patriota, tem um grande orgulho no país.

 

- Esse orgulho foi beliscado com esta pandemia que já matou mais de 14 mil pessoas?

 

- Claro que sim. Eu gosto do povo italiano e a minha opinião é suspeita. Eu não sou capaz de dizer que os italianos demoraram muito a agir. Itália foi o primeiro país europeu a ser afetado pelo vírus. Podem dizer que a China já estava. OK, é verdade, mas a China é a sete mil quilómetros daqui. Acho que Espanha, França e Reino Unido têm muito mais responsabilidades, pois assistiram ao caos italiano, mesmo ao lado deles e não se protegeram. Espanha já tem mais casos do que Itália. Qualquer país que fosse o primeiro na Europa teria passado pelo mesmo. É claro que depois podem falar das condições hospitalares e isso é outra conversa: Itália tinha cinco mil ventiladores quando apareceu o vírus; a Alemanha tem 50 mil e 20 mil pessoas curadas. Há uma grande diferença. Infelizmente, penso que o Reino Unido seguirá o mesmo caminho de Espanha, já para não falar nos Estados Unidos, que não estão a ser exemplo para ninguém. Por outro lado, Portugal tem feito um bom trabalho. É certo que somos menos, mas penso que devemos estar otimistas.

 

- Há vários vídeos a circular na internet onde mostram italianos a cantar e a conviver nas varandas. Onde moras também é assim?

 

- Mais ao menos. Posso dizer que sou a pessoa que faz mais barulho no prédio. Volta e meia vou para a varanda e ponho música para todos. Sou o DJ de serviço [risos]. Oiço um bocado de tudo e gosto de animar as pessoas. Esses vídeos surgem nos centros das grandes cidades que têm prédios altos e que as pessoas moram muito próximas umas das outras. E aí vê-se muito calor humano. Já vi também a acontecer em Portugal. Às vezes estou em videochamada com as minhas irmãs e elas dizem-me: ‘Vamos ali à varanda que está alguém a cantar’. E é engraçado. Moro em Rende, uma cidade pequena colada a Cosença, onde os prédios são mais baixos e afastados.

 

- Já tiveste vontade de vir embora para estar junto da tua família?

 

- A pergunta é mais ‘quais foram os dias em que não pensei em ir embora [risos]?’. Não é fácil estar a passar por isto sozinho, claro que não. Mas ir embora seria irracional, porque o clube não me deu permissão para sair do país. Além disso, só viajaria com a garantia de que não estou contaminado. Tenho praticamente a certeza, mas não me interessa voltar para casa e abraçar a minha família sem saber que estou bem depois de passar em aeroportos e assim. Voltarei quando tudo isto acabar.

 

- E qual é a primeira coisa que vais fazer?

 

- A primeira coisa será comer uma boa carne [risos]. Também quero estar com algumas pessoas que já não vejo há algum tempo…

 

- Safas-te a cozinhar?

 

- Sei fazer o básico dos básicos, dá para sobreviver. Não sou cozinheiro, é por isso que como muitas vezes fora de casa no meu dia a dia normal.

 

- A tua mãe deve estar preocupada…

 

- No outro dia liguei-lhe e disse-lhe: ‘Ó mamã, quero fazer pão’. Segui as instruções dela e fiz pão com cereais e saiu bem. A quarentena dá para fazermos coisas que não temos tempo ou necessidade de fazer no nosso dia a dia. Andávamos muito acelerados; é a parte positiva que podemos tirar disto.

 

- Como é o teu núcleo familiar?

 

- Tenho duas irmãs mais velhas: uma com mais cinco e outra com mais dez anos. Os meus pais eram emigrantes em França, foi lá que nasci. A minha mãe é doméstica e o meu pai construtor. Sempre tivemos uma vida muito humilde, à procura do momento para regressar a Portugal, a Vila Verde, e esse momento surgiu quando eu tinha oito anos.

 

- Estás há três anos em Itália, há dois no Cosença. Qual é o balanço que fazes desta temporada? 

 

- Estamos numa posição difícil da classificação [em penúltimo], mas ainda temos dez jogos. O problema é que não sabemos se a liga vai retomar ou não. No meio disto tudo, o governo proibiu os treinos pelo menos até ao dia 30 de abril, portanto estamos a fazer uma coisa que eu nunca imaginei fazer na vida que é treinos físicos por videoconferência com toda a equipa. Na mesma chamada estão os jogadores, a equipa técnica, o médico e o secretário-técnico que grava a chamada para controlar. O treino é diário e dura cerca de 50 minutos. À quarta-feira de manhã temos uma sessão com a nutricionista para tirarmos dúvidas e à tarde há um treino tático. O treinador coloca situações de jogo e os jogadores podem intervir e opinar sobre as jogadas. Dentro das condições atuais, penso que estamos a fazer um trabalho muito interessante.

 

- E gostas de viver no sul de Itália?

 

- Adoro. Tem praias maravilhosas com água quente. Eu sou do norte de Portugal, estou habituado ao mar da Póvoa de Varzim, de Vila do Conde e de Esposende e aquilo é crioterapia [risos]. No verão, um amigo português veio cá passar uma semana e fomos à praia com um colega italiano. Entrámos logo na água, porque para nós estava espetacular, mas o italiano dizia ‘pá, hoje isto não está bom’. Imagina-o nas praias do norte… [risos]. Já estive em lugares muito bonitos, sobretudo em praias que não consegues ir de carro, só se caminhares algum tempo. Nesta zona da Calábria há praias pouco exploradas… Estou a meia hora do mar e a meia hora da montanha. No inverno, essas montanhas estão cobertas de neve e têm pistas de ski. Não sei se é verdade, mas dizem que o ar desta zona é o mais puro da Europa. Ainda tem pouco turismo…

 

- De quase todos os clubes, têm surgido notícias de cortes nos salários dos jogadores. Já foste informado sobre isso?

 

- Tem-se falado muito disso em Itália, mas o meu clube ainda não se pronunciou. Ainda esta semana estive numa chamada conjunta com vários jogadores da Serie B e com o Sindicato dos Jogadores que nos deu alguns conselhos sobre o que era legal ou não.

 

- Compreendes os cortes ou notas algum aproveitamento?

 

- É uma questão complicada. Os jogadores não recebem o mesmo dinheiro, uns têm família com mulheres e filhos, outros têm famílias carenciadas que dependem deles… Penso que é um assunto que deve ser discutido e negociado individualmente. E há um ponto assente: ninguém pode obrigar os jogadores, tem de haver um acordo. Honestamente, acho que não faz sentido. Se me disserem que o corte dos salários será para ajudar enfermeiros, para comprar máscaras, luvas ou outro material médico, muito bem, contem comigo que eu sou a favor. Mas se o dinheiro que vão tirar aos jogadores é para ajudar os clubes, não concordo. Porque esses cortes darão no máximo três milhões de euros que, repartidos por 20 clubes na Serie B, não é um montante significativo. Para uma instituição desportiva, o que calha a cada um nada é de substancial. E acho também que cabe às entidades superiores e ao governo ajudarem os clubes; os jogadores são funcionários e há muita gente que se esquece disso.

 

- Como ficará o futebol depois desta crise sanitária?

 

- O futuro do futebol é muito imprevisível, sobretudo nos próximos seis meses, e vai depender totalmente da evolução desta crise. Vi na televisão que estão a testar a vacina em animais, acredito que esteja disponível mais cedo do que estamos à espera, mas mesmo assim será para o final do ano? Daqui a um ano? É muito tempo e o futebol está completamente dependente disso. Repara: como é que se faz futebol sem ajuntamentos? Não dá! Futebol sem adeptos não faz sentido. Uma equipa vai junta para o balneário, por isso, será muito complicado voltar tão cedo. É a minha opinião, vale o que vale.

 

- O teu contrato acaba a 30 de junho. É a pior altura para se ficar livre? Tens receio do que irá acontecer na próxima janela de transferências?

 

- A maioria dos jogadores com contrato vai permanecer nesses clubes e tem a segurança de ficar com os valores acordados, se bem que podem sofrer cortes como falámos. Algumas transferências vão ser sabotadas por causa da crise. Os clubes não vão querer gastar e muitos vão optar por jogadores livres para os irem buscar a custo zero. É óbvio que esta situação tem vantagens e desvantagens. A partir do dia 1 de julho não tenho clube e posso ser opção para esses tais clubes que procurem jogadores livres.

 

- Vamos ao futebol português… Há condições para se decidir um campeão em Portugal caso a liga não seja retomada?

 

- Na Bélgica, já declararam o Club Brugge campeão. Não sei o que vão fazer em Portugal, mas se a liga não se retomar parece-me justo que o FC Porto seja campeão, porque está em primeiro. Da mesma forma que seria o Benfica se estivesse na frente, aliás esteve muito tempo e foi ultrapassado. E também acho que ninguém deve descer. Devem subir os dois primeiros da II Liga e fazer um campeonato a 20 equipas na próxima época. E na II Liga exatamente o mesmo. Tendo em conta a situação atual, parece-me o mais justo.

 

- Se tivesses oportunidade de voltar a jogar um encontro, qual escolhias?

 

- O Shakhtar Donetsk-SC Braga a 8 de dezembro de 2010. Foi o último jogo da fase de grupos da Liga dos Campeões. Fomos à Ucrânia e tínhamos de ganhar 4-1 para passar o grupo. Ninguém ganhava naquele estádio há dois anos, perdemos 0-2. Tinha 19 anos e foi a minha estreia na Liga dos Campeões.

Ler Mais
Comentários (0)

Últimas Notícias

Mundos