O antes e o depois… (artigo de Armando Neves dos Inocentes, 23)

Espaço Universidade 29-03-2020 15:56
Por Armando Neves dos Inocentes

Tivemos a felicidade de ver Garrincha transformar um pequeno guardanapo num latifúndio, segundo as palavras de Armando Nogueira (completam-se hoje 10 anos sobre o falecimento deste)…

 

Fomos felizes por termos tido a oportunidade de termos visto uma nota dez ser atribuída a Nadia Comaneci, por termos tido a possibilidade de assistirmos aos desempenhos de Ayrton Senna e de Michael Schumaker e por termos visto Michael Jordan suspenso no ar (I believe I can fly).

 

Yelena Isinbayeva, Usain Bolt e Michale Phelps, fizeram-nos delirar… tal como a final do Campeonato Europeu de Futebol de 2016.

 

Josep Guardiola e os ‘mind games’ de José Mourinho mostraram-nos que nem só da ‘taktiké’ dos gregos vive o futebol…

 

E poderíamos também considerarmo-nos felizes por termos sido contemporâneos de Livramento, Agostinho, Eusébio, Damas, Carlos Lopes, Rosa Mota, Fernando Chalana, Manuela Machado, Aurora Cunha, Jorge Fonseca, Telma Monteiro e tantos outros…

 

Foi preciso um ser minúsculo, na fronteira entre o ser vivo e o ser não-vivo, para transformar o nosso ‘status’ de espectador… e se nada será como dantes, talvez tudo passe a ser como dantes tomando novas qualidades como diria Camões.

 

Foi preciso um ser minúsculo para o futebol dar conta que não poderia existir sem os espectadores, para as televisões descobrirem que não poderiam passar sem os comentadores desportivos e as suas guerras, para a imprensa desportiva dar conta que começava a ter falta de sensacionalismo. Foi preciso esse ser minúsculo para receitas de publicidade, direitos de imagem e de direitos televisivos no futebol decaírem… Como escreveu ontem Jorge Valdano – outro génio com quem convivemos –, num artigo com o título «o vírus contou a verdade ao futebol», “o coronavírus arrebatou a atenção, a preocupação e os heróis. Os aplausos foram dos estádios para as varandas.”

 

Foi preciso o aparecimento do mesmo, o seu alastramento e a declaração de pandemia para o COI se aperceber que não domina tudo, que não se move impunemente entre grandes cifras, que não dita as regras…

 

Muito se afirma que nada será como dantes após esta fase, após esta época que atravessamos, que o desporto a isso não escapará e aponta-se para uma grande evolução para formas “desportivas” em que predominarão as ancas no sofá e o comando na mão. Morreu o rei, viva a rainha, quer seja a Playstation quer seja a Xbox. Disso foi exemplo o facto de o Braga ter “transferido” o seu jogo com o Santa Clara para a Playstation e ter convidado o público a assistir através da internet – de um lado Diogo Salomão, do outro Ricardo Horta. A Liga Portuguesa de Futebol pegou nesta ideia e reproduziu a jornada anterior através de duelos individuais de FIFA20, à semelhança do que já havia sido anunciado em Espanha e Itália.

 

Os e-Sports vieram para ficar. Definitivamente! Mesmo sem a componente “movimento” que é parte integrante do desporto. O lançamento de um livro, entretanto adiado, pelo Comité Olímpico de Portugal, intitulado “e-Sports: O desporto em mudança?” irá levantar uma ponta do véu. A outra ponta do véu já está levantada: em Espanha, os prémios monetários e as audiências online (o Bétis – Sevilha, organizado por estes clubes há duas semanas teve 62 mil espectadores nas plataformas digitais) mostraram-se surpreendentes.

                                              

A  Allianz, a Red Bull, os M&Ms e a Kia deitaram mãos à obra e não deixaram os créditos por mãos alheias. A publicidade e as mensagens subliminares continuarão a marcar presença nesta nova forma “desportiva” e continuaremos a ser manipulados como consumidores.

 

Mas os mesmos não estarão isentos, para além destes, de outros perigos. O doping, a fraude e a corrupção poderão marcar presença, tal como a própria exploração infantil e até o suicídio, a violência, a morbilidade ou a morte súbita. Recordamo-nos que em 2005, um casal na Coreia do Sul deixou morrer acidentalmente o seu filho à fome porque, curiosamente, estavam completamente absortos num jogo em que tinham de cuidar de uma criança virtual. Em 2007, na China, um homem morreu depois de jogar 50 horas seguidas ‘World of Warcraft’. Em 2012, em Taiwan, um homem de 23 anos foi encontrado morto num ‘cybercoffe’ após ter jogado durante 10 horas seguidas imediatamente depois de ter terminado um longo turno no seu trabalho.

 

As novas qualidades de que nos falava o poeta continuarão enfermas e  submetidas ao capital. Novas virtudes (?), velhos vícios!

 

Armando Neves dos Inocentes é Mestre em Gestão da Formação Desportiva, licenciado em Ensino de Educação Física, cinto negro 5º dan de karate-do e treinador de Grau IV.

 

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