O basquetebol reinventa-se? - Parte 1 (artigo de António Pereira)

Espaço Universidade 26-03-2020 12:13
Por António Pereira

O aparecimento de um surto epidémico que rapidamente se transformou numa pandemia, afeta o quotidiano de todos, colocando igualmente a comunidade do basquetebol português num estado de indefinição. Não temos dúvidas de que o mundo que aí vem será diferente, e o desporto, nomeadamente o basquetebol português, terá de se adaptar e de se organizar de outra forma. É fundamental que a Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB), em parceria com Associações e Clubes, encontre formas de gerir a modalidade demonstrando ser uma organização ágil e proativa.

 

Nesta fase, é natural que muitos se preocupem em encontrar soluções para as provas que estavam a decorrer e que foram suspensas. Antes, já tinha sido cancelada a Festa do Basquetebol Juvenil, prova que assume uma enorme importância no calendário da FPB, desde há muito tempo.

 

Os dados que temos do basquetebol português dizem-nos o seguinte:

 

Portugal está, atualmente, no 61.º lugar do ranking mundial da FIBA em homens e está mais perto da cauda da Europa (nº 34 do ranking) do que do seu topo. Isto, depois de ter participado nos Europeus de Espanha e da Lituânia com a sua seleção sénior – o topo da pirâmide, onde desagua e, finalmente, é avaliado (a métrica tão falada nestes tempos…) todo o trabalho de base. No que diz respeito ao ranking das seleções jovens masculinas, não fazemos parte nem do ranking mundial nem do europeu (estaremos colocados depois do nº 27 neste último).

 

No ranking feminino o panorama é melhor, 47.º do ranking mundial e 27.º lugar do europeu, enquanto nas jovens mulheres o ranking mundial coloca-nos no 27.º lugar no ranking mundial e no 15.º do ranking europeu.

No que diz respeito ao Campeonato da Liga Placard, recentemente publiquei alguns estudos que incidiam em diversas áreas da competição.

 

Na análise feita ao “Estudo sobre o tempo de jogo dos jogadores Portugueses e Estrangeiros das equipas da Liga Placard ao fim da 1ª volta” os dados diziam-

 

-nos que os jogadores estrangeiros jogavam 64% dos minutos disponíveis num jogo e os jogadores portugueses 36%. Face à leitura dos dados, foi realizado um novo estudo com o foco nos “Jogadores Selecionáveis Seniores e SUB 20 - Quanto Tempo jogam e sua Valorização”, por forma a perceber que tempo estes jogadores dispunham, sendo que esse estudo nos dá a seguinte informação: a maioria dos jogadores que compunha a equipa que venceu o Grupo B do Campeonato Europeu de sub20, joga maioritariamente na Proliga e só um jogador tem 15 minutos ou mais minutos de utilização na Liga Placard. Quanto aos atletas seniores, existem somente sete jogadores “portugueses” que jogam 20 minutos ou mais minutos por jogo, o que é um número escasso de atletas. Na Europa temos um jogador português a jogar na LEB Oro, Espanha (equivalente ao 2º nível de competição), e um jogador naturalizado em Itália. Já nos Estados Unidos temos alguns jovens no Campeonato Universitário e na competição das escolas secundárias. Das quatorze equipa que disputam o Campeonato da Liga Placard, só uma é que dá mais de 50% dos minutos disponíveis aos jogadores portugueses, sendo que no outro extremo existe uma equipa onde os jogadores portugueses jogam somente 19% do tempo total de jogo.

 

Este é o ponto de partida desta reflexão.

 

Sempre que alguém lançou o debate sobre algum aspeto da modalidade, apresentando algo de diferente ouvia-se, mais vezes do que o desejado, alguém dizer que não era a altura certa, que havia muita coisa em andamento, outras tantas planeadas, etc… Não se podia travar uma bola de neve em movimento!

Mas, agora, pode-se! Este é o momento certo! Atrevam-se!

Este é o meu desejo para este período de isolamento social a que estamos votados: uma reflexão profunda.

Enquanto observador e estudioso da modalidade em diferentes escalões e em várias perspetivas, debato-me com a fragilidade do basquetebol português da atualidade, não confundindo alguns (bons) exemplos com a média. Tapar o sol com a peneira é um erro crasso.

 

Não me agrada não poder ver jogadores portugueses a baterem-se com os jogadores estrangeiros de igual para igual.

Também não gosto de ver equipas a darem “cabazadas” no campeonato principal do quadro competitivo da FPB, bem como não gosto de ver uma equipa sem nenhuma vitória na tabela classificativa da Liga Placard.

Obviamente que um dos pilares como resposta para a crise do basquetebol português está na formação – sem uma forte aposta neste setor não se chegará a lado algum!

 

Em que ponto da formação, questiona-se. Técnica? Tática? Físico? Psicológico? Motivacional? Pedagógico? Compromisso? Ensino do jogo? Exigência? Quadros competitivos? Os índices em causa são demasiado vastos para se encontrar um antídoto fácil.

 

Os problemas são de diversa índole. Cabe à FPB ter a capacidade de se afirmar como uma organização ágil, demonstrando ter flexibilidade e ser proativa no que diz respeito ao futuro incerto que nos espreita. Os desafios que vai ter pela frente no decorrer da próxima época exige esse tipo de atitude, por forma a ser capaz de lidar com os múltiplos problemas que vai encontrar pela frente. Como diz o provérbio popular “colhe-se o que se semeia”, é tempo de os filhos do basquetebol lançarem boas sementes para que o basquetebol cresça, volte a ter boas colheitas e se torne relevante.

 

António Pereira é licenciado em Comunicação Organizacional com as especialidades de Comunicação de Marketing e Comunicação de Relações Públicas, Mestre em Marketing e Comunicação.

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