«Éramos muito mais que droga e violência»

Colômbia 26-03-2020 16:43
Por Pedro Cadima

Entrevista publicada em a A BOLA a Francisco Maturana, histórico treinador da Colômbia nos anos 90 e vencedor da Copa América de 2001. Foi um idealista que juntou à sua volta o talento mais rebelde de um país em brasas, visto como o mais violento do mundo naquela época. Saltou para o comando da Colômbia na mesma altura em que ganhou a Libertadores pelo Atlético Nacional. Criou um laboratório, fundamentou princípios e ergueu um sonho.

 

Citar a Colômbia na década de 90, em termos de futebol, será algo bonito, transcendente, de muito sentimento, ilusão, mas também de frustração e tragédia? Concorda com esta dicotomia?

Fazendo o meu trabalho de observador, não creio que falar de futebol e particularmente nessa década, possa ser associado a algo como tragédia. O futebol foi, sim, um paliativo num sensível momento social do país, foi um ponto de reconhecimento a nível internacional, já que através do futebol se conheceu outro país, que não aquele das notícias,  de gente amável, sonhadora, educada, talentosa para o bem e para o futebol, alegre na hora de interpretá-lo, solidária, respeitosa e ordenada. 

 

Que impacto teve essa Colômbia, que jogou os Mundiais de 90, 94 e 98, no povo e na nação?

O impacto foi imenso, o futebol toca em tudo e desde aí conseguimos contar ao mundo que éramos muito mais que droga e violência.

 

Pode relatar-me como se formou esta constelação de estrelas, de talento diversificado, muito fortes no terreno de jogo, mas também figuras diferenciadas na imagem e personalidade?

Não foi qualquer aparição mágica, Colômbia historicamente sempre teve grandes jogadores de futebol), foi o produto de um trabalho feito a partir de 1987. Um trabalho que partiu da inspiração que nos dava a Holanda com uma seleção construída à base de um clube como o Ajax, que lhes permitia treinar todos os dias, muito para lá de um modelo de jogo. O Atlético Nacional foi o laboratório e a base da seleção.

 

Que memória guarda dos Mundiais de 1990 e 1994? Ficou a ideia de que essa Colômbia seria num caso e noutro capaz de mais, mas acabou eliminada em jogos malditos contra Camarões (1990) e Estados Unidos (1994). Sente que ficou em falta um resultado mais assombroso para premiar um futebol repleto de arte e imaginação?

 

Esses mundiais projetaram-nos como país. Foi dada outra imagem, depois pode-se falar seja do que seja, mas a verdade é que o futebol é um cenário mágico, onde os países que ganham em grande escala são, por norma, os mesmos. Uns já tinham a sua história, a Colômbia apenas começava a construí-la. A Espanha, carregada de história demorou 100 anos para ganhar um Mundial. Independentemente do desejo de muita gente, penso que chegámos onde podíamos. Desculpas e justificações são muitas.

 

A Colômbia transformou-se por culpa desses Mundiais numa seleção de culto, porque transmitia algo distinto: pureza, magia, rebeldia e jogadores sem medo. Havia essa consciência?

Sempre estivemos prisioneiros do nosso plano de jogo. E a partir daí, com ordem e desordem dentro do campo de jogo, mas bem manejados, conseguimos desfrutar com respeito e solidariedade do que fazíamos.

 

Figura importante era Andrés Escobar, imagino a perda para os companheiros, para o treinador e também para o país. Essa dor, esse trauma, alguma vez foi superado? Quem era Andrés visto por Pacho Maturana?

Andrés era um grande ser humano, com quem tive a alegria de acompanhar a sua etapa de crescimento como futebolista e como ser humano. Foi vítima do momento histórico e social do país, foi vítima da intolerância e insegurança que existia e cujo a morte (seguramente houve mais nessa noite, essa semana ou mês) serviu para tentar abafar o momento social da Colômbia.

 

Falando de outras figuras, foi fácil treinar uma seleção con um ‘Loco’ como Higuita e um génio como Valderrama?

Para mim não há loucos no futebol, há apenas génios que, por vezes, se disfarçam de loucos. Eram duas pessoas fantásticas, que faziam parte de um grupo humano maravilhoso. Não tenho qualquer reprovação a dar aos jogadores. Deram-me o melhor e nós também lhes procurámos dar o nosso melhor. Hoje quando nos encontramos, olhamos uns nos outros e damos um abraço com a alegria que nos continua a unir.

 

Pode relatar alguma história da personalidade de Higuita, pois também o orientou no Atlético Nacional. Sempre ouvi dizer que o estilo dele era o estilo de Colômbia por si preconizado? As suas loucuras, por assim dizer, estavam autorizadas?

Quando falamos da inspiração para nós exercida pela Holanda, isso nos definia não como 10 jogadores e um guarda-redes, mas, sim como 11 jogadores cujas as linhas estavam a 10 metros de distância. Isso pedia um guarda-redes com estilo de líbero, que, regendo-nos, pela orientação da Holanda, era Jongbloed. A diferença residia em Higuita, que tinha muito boa relação com a bola, então quando lhe dava liberdade para fazer algo que pedisse o jogo, ele fazia-o com estética, não era sair por sair, era sair quando o jogo o pedia.

 

Quando se passou o que se passou em 1994, vocês sentiam o país perigoso com demasiada tensão no ar?

Era igual ao medo e angústia que assolava qualquer cidadão. Era o país, não era o futebol.

 

Como foi esse episódio de ter sido pressionado e ameaçado para não fazer alinhar Barrabás no jogo com os Estados Unidos, o jogo fatídico de 1994?

Não foi nada contra mim nem contra a minha família, foi contra o Barrabás. Isso deixou-me bem claro o Hernan Dario Gomez, que era seu irmão e meu adjunto. Eu entendia que era algo normal por tudo o que se vivia nessa época em Colômbia, mas, no final, senti que me haviam ganho essa partida. Assim o entendi.

 

É impossível fintar uma questão tantas vezes posta em livros e documentários. Pergunto se havia una real proximidade vossa com Pablo Escobar, face à sua paixão pelo futebol e pelo Atlético Nacional?

Pablo Escobar era amigo de todos, também foi meu colega de liceu, tudo isto dentro do que é a magia do futebol. O seu amor real era pelo Independiente Medellin e isso o inabilitava de estar próximo do Nacional como clube (falando de códigos de futebol ), mas não dos seus jogadores, já que estes respondem por códigos de amizade.

 

A Copa América ganha em 2001 recompensou uma geração por feitos que não foram alcançados?

A recomendação era viver o nosso momento, pensava que devíamos desfrutar do dia a dia, não estávamos prisioneiros da história, queríamos construir a nossa própria história, mas sem nenhum tipo de prejuízos e nesse exercício logramos ser campeões da América ao nível de seleções. Foi notável. Alguns de nós tínhamos sido campeões ao nível de clubes e o importante e a nossa prioridade era a forma como o queríamos alcançar.

 

Pergunto-lhe pelas bases da sua forma de comunicar com os jogadores, o seu gosto pelos livros e por autores como Galeano, que influência foram tendo na gestão dos seus grupos, tanto no Atlético Nacional como na Colômbia? Encantou-me algo que li em que terá dito ‘dei aos jogadores mais poesia para melhorarem a relação com as pessoas’.

Um jogador é um ser humano que joga futebol. Quando melhora o ser humano melhora o que faz. Foi um convite e uma espécie de sedução para que abandonassem certas leituras que não produziam muito no nosso crescimento pessoal e buscassem outras que os ajudassem mais a crescer, a abrir portas e a despertar a sensibilidade pela estética e pelas coisas bem feitas. Ai aparece Eduardo Galeano que nos mostra isso em «As veias abertas da América Latina» ou no «O Livro dos Abraços», ou em «Memórias do Fogo», ou Mario Benedetti com «La Cultura, esse blanco móvil», «Vento do Exílio» o «A Morte e outras surpresas». Eram diretrizes que os sensibilizavam e os faziam pensar.

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