«Só se ouvem sinos das igrejas e sirenes das ambulâncias»

Mais Desporto 21-03-2020 13:54
Por Edite Dias

Quando há oito meses, celebraram a organização dos Jogos Olímpicos de 2026 com o famoso ‘Dab’, Sofia Goggia e Michela Moioli estavam longe de imaginar o pesadelo que se seguiria. As duas atletas que foram os rostos da campanha italiana para os JO de inverno vivem a poucos quilómetros, em Bergamo. Trancadas em casa e cercadas pela morte.  


Uma avó da snowboarder Michela Moioli morreu depois de ter sido infetada pelo vírus e agora o seu avô está internado nos cuidados intensivos. O pesadelo que vive contou-o na primeira pessoa com uma fotografia que colocou nas redes sociais.

 

«Estes são meus avós, Antonio e Andriana. A minha avó costuma aparecer em minhas histórias, por isso, conhecem-na. Mas não meu avô. Antonio, nascido em 1935. É o típico de Bergamo. Passou a vida a trabalhar, criou quatro filhos, sem nunca perder nada da família. Nos últimos anos, tornou-se mais tímido e solitário. Nos jantares em família, ouve silenciosamente a conversa, parece estar com a cabeça em outro lugar, mas então quando menos se espera, diz uma frase que cala todos. O meu avô está hospitalizado, em Bergamo, positivo para coronavírus. Constipou-se, ficou em casa até que caiu e partiu o fémur. Não sei se meus avós se despediram naquele momento e não sabemos como isso vai acabar. Sei que meu avô tem 84 anos, está hospitalizado e sozinho. Ninguém pode vê-lo, nem mesmo a avó ou os filhos (todos em quarentena). Não vejo meu avô há três semanas. Espero que seu coração e pulmões sejam mais fortes que esse vírus. Penso em todos os avós que estão nessa situação. Maridos e esposas separados, sem poder abraçar-se ou cumprimentar-se uma última vez.  Os avós sempre estiveram lá. Eles viveram guerras, fome e coisas que nem sabemos. São como grandes árvores velhas: nós tomamo-las como garantidas, mas depois quando as cortam, sentimos sua falta. Eles deixam um vazio. É isso que esse vírus está a fazer: deixa-nos de joelhos, deixando um vazio em todos os lugares e dentro de nós.»


O testemunho da snowboarder juntou-se a tantos outros anónimos que vivem no coração do drama italiano. «É uma guerra», disse Moioli. «A cidade está completamente deserta. Os únicos sons que ouvimos são os sinos das igrejas a tocar pelas mortes e as ambulâncias. Fora do cemitério, há caixões empilhados porque não há ninguém para enterrá-los. Todas as famílias têm pelo menos uma pessoa com o coronavírus», acrescentou a atleta de 24 anos.

Bergamo é o epicentro da província mais atingida na Lombardia, a região mais afetada de Itália. Os mortos não param de aumentar, não há tempo para despedidas nem funerais tradicionais.


O desporto está como a cidade, moribundo, precisamente num momento em que tudo parecia correr de feição com o Atalanta, a classificar-se para os quartos de final da Liga dos Campeões, um feito inédito para um clube de província. Mas até isso deixou de ter importância.

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