O que é criticar? (artigo de Manuel Sérgio, 330)

Espaço Universidade 15-03-2020 13:08
Por Manuel Sérgio

Inauguro este meu pequeno artigo, com um texto dos Ensaios, de António Sérgio: “Não trago o intento de ser piloto, não avento o lábaro de nenhuma seita; não recruto chusma para nenhum batel. Que quero, pois? Inspirar-te o desejo de soltares amarras, de fugir do porto, de te aventurares (…). Treina contra mim teus braços ágeis, fere-me com lealdade e a sorrir (…). Que nada te imobilize, nem te detenha. Nada. Nem as tuas mesmas conclusões Lembra-te que a característica da Razão humana é o pleno à-vontade e o sorriso cândido”. E, mais do que nunca, na nossa Sociedade do Conhecimento, bem é que saibamos fruir o espaço da crítica, nas livres aventuras do espírito. O ranking dos países mais (ou menos) desenvolvidos elabora-se com base em três indicadores: educação, longevidade das pessoas e poder de compra. A educação ergue-se, como o primeiro dos indicadores. Uma educação que, se bem entendi o Paulo Freire (ambos integrámos o júri de dois doutoramentos, na PUC/SP) se aproxima da “consciência crítica”. De facto, a crítica é a grande característica definidora da Sociedade do Conhecimento. Concebia-se o mundo moderno em termos de propriedade e trabalho. Na sociedade hodierna, marcada pelo processo da informatização, a fonte da produtividade reside numa revolução tecnológica da informação ou, melhor, nas tecnologias do processamento da informação e da comunicação. Donde se infere que não há produtividade sem educação, nem educação sem uma informação, tecnológica e intelectualmente atualizada. É que, como o refere Pedro Demo, no seu livro, editado pela Vozes (Rio de Janeiro) Educação & Conhecimento, “a sociedade intensiva do conhecimento também pode ser a mesma sociedade intensiva da ignorância” (p. 122). Urge, por isso, a necessidade de organizar os dirigentes, os treinadores e os árbitros desportivos como “trabalhadores do conhecimento”, tornando-os capazes de organizar o Desporto, com ciência, consciência e eficácia. De facto, sem eficácia, pode perguntar-se: “Mas… para que serve a organização?”.

 

Ora, “eficácia” perderam os clubes de futebol portugueses. E o facto, na Sociedade do Conhecimento, torna-se evidente(íssimo) nas críticas constantes aos árbitros, quase todas (não todas, evidentemente) provenientes de uma gritante desatualização dos agressivos “criticantes”. É que criticar não é só apontar os erros das pessoas ou dos factos, é também apontar a bondade e os êxitos que acompanham os erros. O que é criticar? Vejamos, a este propósito, o que nos ensina o Padre Manuel Antunes: “Nós somos do século de inventar as palavras que já foram inventadas, escreveu o Almada Negreiros de A Invenção do Dia Claro. Criticar deve ser uma delas. Ela tornou-se, hoje, com frequência, sinónimo de julgar desfavoravelmente, de invectivar, de condenar. Em bloco: sem discrime e sem ponderação. Um pequeno hiato, uma falha, uma atitude menos esperada por parte daqueles que se arvoram em juízes de vivos e de mortos bastam, não raro, para aniquilar pessoas, instituições, obras. Não raro, também, por simples primeiras impressões, por antipatias que irrompem, bruscas e gratuitas, , ou então mercê de longas e lentas projecções motivadas sabe-se lá por obscuras correntes da psique humana, individual e/ou colectiva. A afectividade, uma afectividade desbordante dos canais que a deviam conter, salta por cima de todas as barreiras da objectividade, agredindo e demolindo na sua passagem quanto parece oferecer obstáculo ao seu imperialismo. E chama-se a isto o direito de criticar, radicalizando, ou o de julgar, condenando. Ora, a palavra criticar significa , segundo a sua raiz indo-europeia (em grego, krinõ, em latim, cerno) joeirar, ver, observar, ponderar, escolher, discernir, o valor exato de uma pessoa, de uma coisa, de uma situação existencial ou histórica. É este o sentido originário, que importa restituir (Padre Manuel Antunes, SJ, Compreender o Mundo e Atualizar a Igreja, Gradiva, Lisboa, 2018, pp. 61/62 ). Portanto, criticar, porque é joeirar, ponderar, discernir, não se resume aos momentos menos felizes das atuações de um árbitro, porque deve também  sinalizar-se os momentos impecáveis da sua atuação; e, porque “a Verdade é o Todo”, num jogo de futebol também erram os treinadores e os jogadores e não os árbitros tão-só. Uma crítica exige os prós e os contras dos nossos interesses. Para que seja possível a razão, em vez do mito  e o conhecimento, no lugar da ignorância.

 

Escrevi, acima, que criticar é joeirar, ou seja, separar o joio do trigo. Por isso, o objetivo primeiro deste artigo limita-se a fornecer aos meus habituais leitores (que  deles necessitem) os elementos e instrumentos conceptuais básicos do que é, verdadeiramente, uma crítica. Por outras palavras, criticar não deixa de ser um trabalho interdisciplinar onde, num jogo de futebol, se distingue a complexidade humana dos criticados e dos criticantes. Com efeito, nas referidas críticas, não se encontram simples trocas de “dados” mas elas convertem-se, amiudadas vezes, no lugar, na ocasião em que o criticante mostra que sofre, embora a sua honestidade pessoal (o mal prova-se e o bem presume-se) de uma grave patologia: uma “clubite” exacerbada! Francamente, também já fui apaixonado de um clube. Sei a que nos leva esta doença impetuosa e avassaladora. E dela tenho procurado informações, em dirigentes, árbitros, treinadores e jogadores. E nenhum me escondeu a maré de irracionalidade que se desprende de um clube de futebol altamente competitivo – que aliás também a senti, nas suas mais inesperadas e variadas formas, quando trabalhei, sob as ordens do “mister” Jorge Jesus, e nos 24 anos de dirigente, no C.F.”Os Belenenses”. Quando lecionei, como professor visitante, no Brasil, fui espectador de inúmeros jogos de futebol, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, em Brasília e principalmente em São Paulo e em Campinas (cidade onde morava). Um dia, em conversa com o Dr. João Paulo Medina (o criador da Universidade do Futebol e pessoa que sabe estudar o “desporto-rei”) em São Paulo, no Canindé, o estádio da Associação Portuguesa de Desportos, ele confidenciou-me (bem me lembro), durante um jogo Portuguesa-Palmeiras: “É impossível não haver violência verbal e física no futebol, quando, nele, todas as formas de racionalidade são atacadas”. E continuou: “Principalmente o diálogo entre os dirigentes. Se os dirigentes dos clubes cultivassem a amizade com os dirigentes dos clubes seus adversários, o futebol seria outro”.

 

Na nossa “sociedade aprendente” (cfr. H. Assmann, Reencontrar a Educação – rumo à sociedade aprendente, Vozes, Petrópolis, 1998) bem é que os dirigentes dos clubes de futebol não deixem de criticar (sem crítica, não há progresso), mas que o façam tendo em conta que só há crítica quando se analisa o “todo” e não, unica e apaixonadamente, os erros dos árbitros. Se o Desporto, para mim, é uma especialidade de uma ciência humana, tudo o que é humano nele está, quer real, quer potencialmente. Cabe-nos (designadamente aos estudiosos, onde eu humildemente me incluo) não abdicar da lógica incómoda da crítica racional. E por que digo eu “incómoda”? Por esta razão: crítica que nada nega, não questiona. E, quando se questiona, tudo o que, por escondidos interesses, se encontra parado, inquinado, aburguesado, banalizado, colonizado se ergue em aspérrimas palavras de repúdio. A Verdade só lhes interessa, quando capta uma determinada face da realidade – não o Todo, onde a Verdade está. Para eles, nada se encontra errado, nem nos homens, nem nas leis.  Mudar, romper com o Passado – para quê? Desconhecem eles que todo o conhecimento é dialético e portanto são muitos os obstáculos epistemológicos a dificultar o acesso ao conhecimento? E ainda um ponto que importa reter e que releio no Diário-I de Ernst Junger: “Mais sagrado ainda do que a vida de uma pessoa deve ser, para nós, o respeito pela sua dignidade”. Portanto, não ponho em causa a crítica, mas (esta é a temática a relevar) que nunca se esqueça o conceito de totalidade, quando se critica. Um facto, um acontecimento, uma pessoa tornam-se tanto mais concretos quanto mais os consideramos como elementos de uma totalidade. A característica principal de um reducionismo reside precisamente, na permanência obstinada no isolamento, na separação dos diferentes elementos que, dialeticamente, constituem uma totalidade Concluindo: criticar – sempre, desde que se saiba o que é criticar.

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

 

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