Motricidade Humana Aplicada ao Futebol (artigo de Manuel Sérgio, 329)

Espaço Universidade 08-03-2020 13:18
Por Manuel Sérgio

Por mais que se ande, por mais que se peregrine, como dizia o velho De Maistre: “ninguém caminha senão à roda do seu quarto”. Não se estranhe, por isso, o meu conforto inalterável, quando me refiro à minha teorização da “motricidade humana”, ou quando algum Amigo a ela criticamente, ou até bondosamente, se refere. Os meus olhos dilatam, engrandecem as pessoas e os factos, quando relembro aquele almoço em que os Doutores José Tolentino Mendonça (hoje Cardeal da Igreja Católica e a trabalhar em Roma, junto do Papa) e Alfredo Teixeira me anunciaram a criação da “Cátedra Manuel Sérgio”, na Universidade Católica Editora. Ou quando o jovem treinador de futebol, Bruno Dias (hoje, com 32 anos de idade) me procurou, há um ano tão-só, para dizer-me: “Já li três livros da sua autoria e fiquei tão convencido que pretendo escrever um livro sobre a motricidade humana, aplicada ao futebol”. E continuou, numa franqueza aberta e forte: “Ao aconselhar a prática do futebol, à luz da metodologia típica das ciências humanas; ao fazer portanto do desporto uma das valências de uma nova ciência humana; ao afirmar, com frequência, que o desporto é o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporâneo – para quem, como eu, conhece a prática do futebol, estas suas três afirmações resumem a teoria e a prática desportivas”. Jorge Valdano, um desportista que faz poesia, quando se ocupa do futebol, escreveu, há pouco, no jornal A Bola (2020/2/29): “A nossa missão é encontrar a chave do jogo, falar da gama de talentos que o decidem muito mais do que de dispositivos táticos, ou reparar nos movimentos telúricos, que precedem os estados de alma. Buscar a epicidade que atrai a emoção. Humanizar o futebol e, em resumo, aceitar as suas contradições”. Num relâmpago de luminosidade, Jorge Valdano escreveu que é preciso humanizar o futebol. E, no meu modesto entender, disse bem. É, na tentativa de humanizar o futebol, que pode compreender-se o que de mais verdadeiro o futebol tem, o que de mais autêntico o futebol é…

 

Acaba de chegar às livrarias o livro de Bruno Dias, Motricidade Humana Aplicada ao Futebol, editado pela Prime Books. Um livro, editado pela Prime Books, chega às nossas mãos com uma certeza: é visto e revisto por um editor de larga erudição e de incontestável inteireza moral, o Dr. Jaime Cancela de Abreu. Depois, o Bruno Dias, além de treinador de futebol e de comentador da Sport TV, é um insaciável estudioso do “fenómeno desportivo” e que sabe o que deve estudar (no futebol, em grande parte dos casos, nem se estuda nem, o que é pior, se sabe o que se deve estudar). Vaticino-lhe, se enveredar pela profissão de treinador de futebol, um futuro de mérito relevante. Porque o Bruno faz o favor de ser um leitor rigoroso e assíduo das minhas obras, principia o livro, invocando o meu nome: “Para o professor Manuel Sérgio, não existem remates, existem homens que rematam. Por isso afirmo que, quando falamos de futebol, falamos essencialmente de pessoas. Na actualidade, o futebol reproduz e espelha as tendências da sociedade altamente competitiva em que vivemos (…). Existe uma pressão enorme para ganhar e as equipas técnicas, que procuram desenvolver projectos inovadores e a longo prazo, sentem-se fortemente condicionadas (…). É minha convicção que no futebol o Homem/Atleta deve ser o ponto de partida e o ponto de chegada” (p. 25). Mas, estudar o homem-jogador-de-futebol, ou seja, quando se estuda o futebol num ambiente propiciador de meditação e de reflexão, longe portanto da “cultura zapping” em que vivemos imersos, logo nos cerca uma desconfiança de muitos (e são a maioria) dos que, no praticante do futebol, não descortinam o homo ludens, o homo festivus – mas o homo economicus, um homem que se define, sobre o mais, pelo mecanicismo dos gestos, pela espetacularidade  das suas qualidades atléticas e  que se admira (também)pelos rendimentos, pelo salário que aufere, pelas mulheres que o acompanham, pela vida faustosa que exibe. Enfim, pelo ter e não pelo ser.

 

Há um excelente texto de Roland Barthes, incluído no seu livro Mitologias, assinalando o seguinte: “A revista Elle oferece-nos, quase todas as semanas, uma bela fotografia a cores de um prato preparado: perdizes douradas, incrustadas de cerejas, frangos com geleia rosada, travessas de caranguejos rodeados de conchas vermelhas, tostas ornadas de desenhos de frutos cristalizados, bolos de nata multicolores, etc. (…). A ornamentação procede por duas vias contraditórias: por um lado, afasta-se da natureza, graças a um barroquismo delirante (espetar cerejas num limão, aloirar um frango, servir pamplumossas quentes; e, por outro, tenta reconstruí-la, através de um artifício extravagante (dispor cogumelos merengues e folhas de azevinho sobre um cepo de Natal, colocar cabeças de caranguejos à volta do bachamel sofisticado que lhes tapa o corpo). A cozinha da Elle é uma cozinha de ideias. A sua invenção, confinada a uma realidade feérica, deve incidir de forma exclusiva sobre os confeites, porque a vocação da revista proíbe-a de abordar os problemas reais da alimentação”. Também as mulheres, os carros, os aviões, as piscinas, as vivendas de nova e resplandecente arquitetura, na abundante riqueza das suas cores dão a sensação aos “torcedores” (perdoem-me o brasileirismo) que o essencial no futebol é o luxo, o ornamento, o epidérmico. Bruno Dias, ao invés (e muito bem) diz-nos que o essencial, no futebol altamente competitivo, é a transcendência: “Considero a transcendência (ou superação) o fundamento que melhor define o rendimento e a competição. Quero ser melhor todos os dias, porque todos dias nós somos uma tarefa por realizar. Todos os dias queremos alcançar novos limites porque, pela transcendência, revelamos que não somos só reflexo do que nos ensinaram, mas projeto de um mundo possível”. Poder fruir de um exagerado sucesso material, enquanto há tanta fome e miséria por esse mundo além, empurra-nos a uma visão defeituosa da sociedade. Assim como a submissão a uma cultura mediática gera, em cada um de nós, o hábito de não pensar criticamente, A transcendência é também um problema ético ou, se assim quiserem, ético-político.

 

Fez o prefácio deste primeiro livro do Bruno Dias, o treinador de futebol, José Peyroteo Couceiro. É, de facto, um conceituado e respeitado treinador de futebol e com lugar relevante na estrutura diretiva da Federação Portuguesa de Futebol. No prefácio, José Peyroteo Couceiro esclarece: “Nas conversas que fomos mantendo, percebi que a importância que o Bruno Dias dava ao processo de treino era idêntica à atenção que dedicava aos relacionamentos entre todos os elementos da equipa. Na verdade, nós lidamos com pessoas, diferentes, mais ou menos sensíveis, provenientes de diferentes áreas e níveis sociais, que fazem no seu conjunto uma equipa. Esta é muito mais que a soma das partes e essa é a mais importante. Gerir, com respeito por todos, as áreas e elementos do grupo, as suas divergências e exigências. Uma tarefa que requer capacidade e conhecimento”. Quando assinala o papel da liderança, no processo de transformação da equipa; quando afirma que  “a boa comunicação promove uma liderança mais eficaz”; quando escreve que “mobilizar e descobrir a alma do clube é uma das principais funções do treinador”; quando sublinha que “é fundamental que tenha uma enorme capacidade de se relacionar com todos e com cada um”; Quando nos diz o que é um modelo de jogo e como construí-lo; quando não esquece os valores de uma equipa e que “um treinador deve ter sempre presente que o clube é feito por pessoas e para as pessoas e que estas têm uma cultura e um contexto que devem ser respeitados” – o Bruno Dias faz ciência e ciência hermenêutico-humana, ou seja, ele sabe onde está, quando estuda e pratica o futebol, o que nem sempre sucede com alguns “especialistas do futebol”.

 

Quero salientar ainda que o Bruno Dias, licenciado e mestre pela Faculdade de Motricidade Humana, numa das nossas habituais conversas, me questionou: “Professor, eu gostava de saber o que é, para si, a motricidade humana. Podemos dialogar um pouco, a este respeito?”. Há momentos, na vida, que passam por nós, como os relâmpagos, numa correria tão luminosa quanto vertiginosa e que, só mais tarde, merecem uma leitura demorada, miúda, com algum rigor. Com o Bruno Dias, ao invés, esta sua pergunta levou-me a uma resposta pronta: “A motricidade humana, para mim, é o movimento intencional e solidário da transcendência (ou superação). Significa, antes do mais, que o Desporto, o Jogo Desportivo, a Dança, a Ergonomia, a Reabilitação não são tão-só Atividades Físicas mas, de facto, Atividades Humanas. A expressão Atividade Física é uma tradição, nada tem de linguagem científica, pois que, em qualquer destas atividades, é a complexidade humana que encontramos e não, unicamente, a dimensão física. E, porque “é a complexidade humana”, a motricidade humana tem as condições necessárias e suficientes para transformar-se numa nova ciência hermenêutico-humana”. Aqui, lembro-me bem, o Bruno Dias atalhou, para acrescentar: “Também, para mim, é evidente que, quando exerço a profissão de treinador de futebol, estou a trabalhar no âmbito das ciências humanas. Não esqueço a frase que o meu Amigo repete, inúmeras vezes: Não há jogos, há pessoas que jogam, se eu não compreender as pessoas jamais entenderei o jogo que as pessoas jogam”. Bruno Dias, o autor do livro Motricidade Humana Aplicada ao Futebol, editado pela prestigiosa Prime Books. Bruno Dias, um autor a reler, um treinador de futebol que sabe que, pela transcendência, o ser humano toma consciência que não é objeto da história, mas sujeito construtor da sua própria história!    

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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