Sísifo no Monte Olimpo (artigo de Gustavo Pires, 111)

Espaço Universidade 02-03-2020 11:54
Por Gustavo Pires

Quando alguém se convence que os deuses do Olimpo o investiram de poderes que, de modo próprio, ao estilo “magister dixit”, lhe permite cumprir o que julga ser um desígnio nacional é porque se está no domínio do absurdo. De facto, não há nada mais absurdo do que um gestor administrativo ou político que, na sua esquizofrenia e à custa do dinheiro dos contribuintes, ainda consegue levar atrás de si alguns dirigentes que, por um prato de lentilhas, não se importam de ser arrebanhados.

 

Seria bom que, por esse mundo fora, os dirigentes que, para além da própria dignidade, ainda preservam alguma racionalidade social, atendessem às palavras de Camus quando nos diz que o absurdo exige revolta. E porquê? Porque estamos na presença da síndrome de Sísifo. Sísifo na mitologia grega era considerado o mais astuto de todos os mortais. Ele era verdadeiramente habilidoso na arte da malícia, da trapaça e do ódio aos outros pelo que, para os tempos futuros, ficou como aquele que, pelas suas malfeitorias, mais ofendeu os deuses. Em consequência, desencadeou a ira de Zeus. E o rei dos deuses, a fim de ajustar contas com Sísifo, ordenou a Tânatos o deus da morte para resolver a questão. Todavia, Sísifo na sua astúcia, conseguiu ludibriar Tânatos, aprisioná-lo e, assim, adiar por mais uma Olimpíada o seu destino.

 

Com Tânatos aprisionado e convencido do seu poder absoluto ao ponto de questionar os critérios das benfeitorias atribuídas por Zeus, Sísifo não perdeu tempo para engendrar novas e mais sofisticadas malícias. E resolveu confrontar Hades o deus da guerra. Mas como Hades, no que diz respeito à administração da morte, necessitava das competências de Tânatos, Sísifo saiu-se mal e acabou derrotado pela inexorável lei da vida que é a morte. E os deuses condenaram-no à terra dos mortos onde passou a empurrar uma enorme pedra até ao pique do monte Olimpo a fim de a largar montanha abaixo para, de seguida, iniciar tudo de novo.

 

Há dirigentes desportivos que já nasceram póstumos. Eles vivem na terra dos mortos sob o absurdo da síndrome de Sísifo, embalados por um esquizofrénico desígnio nacional que lhes é imposto. E repetem, ano após ano, os mesmos processos convencidos de que os resultados vão ser diferentes daqueles que sempre foram. E, na consumação do absurdo estão a destruir o desporto quando, cada quatro anos, de Ciclo Olímpico em Ciclo Olímpico, rolam penosamente a pedra monte Olimpo acima para, depois, ingloriamente, deixarem a dita rolar monte abaixo sem quaisquer consequências para além de a terem de a fazer rolar novamente monte acima.

 

Infelizmente, o desporto, no absurdo das políticas públicas, está transformado na mais alienante das paixões do mundo pós-moderno. Mas não é o desporto que é absurdo nem o próprio comportamento humano. O absurdo está naqueles que sendo detentores do poder e responsáveis pelas políticas públicas, ao privilegiarem o mundo do insano em detrimento de uma razoabilidade ético-deontológica, afastam o desporto do processo de desenvolvimento humano e do progresso das sociedades. Vítor Serpa expressou bem o absurdo das políticas públicas por esse mundo fora quando numa comunicação pública afirmou: “é a educação, estúpido”. (A Bola, 2015-11-06) O problema é que os estúpidos que controlam o desporto não foram capazes ou não o quiseram ouvir.

 

Esta situação, que hoje é vivida pelos mais diversos governos e organizações desportivas, trata-se de uma dissonância ética em que o discurso político, tanto das entidades públicas quanto privadas, consubstanciado em vários documentos (estatutos, projectos, programas, relatórios etc.) nada tem a ver com a realidade das políticas de todos os dias. Quer dizer, trata-se de uma disfunção ética profunda entre o discurso e a acção.

 

E, assim, na ausência de consequências verdadeiramente direcionadas para a base dos sistemas desportivos, o desporto moderno está a transformar-se num espaço de consumo do espetáculo do mais primário agonismo e a, compulsivamente, converter a sociedade num antro de leviano hedonismo. Um hedonismo sustentado na maior indolência moral como temos tido a oportunidade de verificar através do comportamento das hordas ululantes que frequentam e vegetam, real e virtualmente, à volta dos espetáculos desportivos. E, hoje, em muitas circunstâncias, os espetáculos desportivos, em primeiro lugar, estão transformados em locais de exploração económica da pessoa humana uma vez que são eles que sustentam as apostas desportivas que funcionam como impostos sobre os pobres e, em segundo lugar, como instrumentos promotores de um confrangedor vazio ideológico das pessoas, instituições e sociedades.

 

O que acontece é que, em matéria de desporto, tem vindo a ser instituída a morte do pensamento a fim de manter o desporto completamente arrebanhado ao serviço das oligarquias reinantes. Não existe nada de mais eficaz para ultrapassar um qualquer grave problema nacional do que um belo caso desportivo e se for da bola tanto melhor.

 

Em consequência, os dirigentes desportivos da generalidade das federações desportivas, tal como Sísifo, estão condenados à terra dos mortos onde, de Ciclo Olímpico em Ciclo Olímpico, no mais confrangedor silêncio crítico, vivem no absurdo de serem obrigados a transportar a enorme pedra monte Olimpo acima para, depois, a deixarem rolar monte abaixo.

 

Felizmente, como refere Camus, o absurdo pode ser ultrapassado com a revolta. Ora, é essa revolta epistemológica que todos aqueles que ainda acreditam na construção de um desporto melhor esperam dos dirigentes das federações desportivas que ainda acreditam ser possível construir um desporto melhor.

 

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

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