«Sou o mandante terrorista mais imbecil do mundo. Também me iam bater a mim»

Sporting 28-02-2020 19:09
Por Marta Fernandes Simões

Esta sexta-feira, Bruno de Carvalho é ouvido no Tribunal do Monsanto. O ex-presidente do Sporting é das 44 testemunhas chamadas a depor no caso da invasão à Academia de Alcochete, em maio de 2018. 

 

Bruno de Carvalho reafirmou a inocência, assumindo que não tinha conhecimento da invasão à Academia. «Sou o mandante terrorista mais imbecil do mundo porque inclusivamente iam bater-me a mim», disse, deixando ainda um desabafo: «As minhas filhas sabem que os jogadores eram como filhos para mim.»

 

O antigo presidente do Sporting revela ainda que ia despedir Jorge Jesus (atual técnico do Flamengo) e Frederico Varandas (atual presidente do Sporting). «Um acabou condecorado, o outro presidente», desabafou.

 

As alegações finais estão marcadas para o dia 11 de março, às 9.30 horas no Tribunal do Monsanto.

 

Leia aqui todas as declarações:

 

18.35 horas: Termina a audição de Bruno de Carvalho.

 

18.20 horas: Bruno de Carvalho critica o tratamento de que foi alvo: «Fui preso durante quatro dias.. A minha filha viu-me a ser preso, nunca vou perdoar quem me fez isto. Foi a maior humilhação da minha vida. A minha filha viu cães em casa, a mexerem-lhe nas cuecas, a procurarem droga. Falam-me de suores frios, mas tive uma mulher que me fugiu com a minha filha durante oito meses.»

 

18 horas: Bruno de Carvalho revela que ia despedir Jorge Jesus e Frederico Varandas: «um acabou condecorado, o outro presidente»

 

17. 57 horas: Questionado sobre as tochas no dérbi com o Benfica: «No dia antes, morreu um adepto do Sporting e chamei os responsáveis das claques. Pedi-lhes para, em caso de vitória, se fazer uma homenagem ao Marco Ficini. Foi o que ficou combinado com o responsável de segurança. Esta reunião foi por trás da baliza, no relvado. Não se fez porque não ganhámos o jogo. Sobre as tochas, a única coisa que dei ordem foi para cobrar os 16 miil euros de multa à Juventude Leonina»

 

17.40 horas: Bruno de Carvalho continua: «Após o ataque, instaurei um processo disciplinar a Ricardo Gonçalves, que depois é colocado na gaveta e ele acaba promovido. Ele tinha-me dito que o Jorge Jesus mandou retirar a entrada por cartões, mandou tirar a medida de segurança. Fala-se aqui de um alarme. Aquele alarme não estava ligado a nada, só está lá para fazer barulho. As portas estavam todas abertas desde o início da época, sempre que havia treino por ordem do Jorge Jesus. Nada disto tinha acontecido se não tivessem sido retiradas as minhas medidas de segurança»

 

17.21 horas: Bruno de Carvalho fala sobre William Carvalho e uma reunião com a Juventude Leonina:

 

«Quem se põem a gesticular e guerras de ofensa com os adeptos... Assim como não queria que adeptos o fizessem, também não queria os jogadores. Não podia haver excessos de nenhuma parte. Pergunto a Acuña o que se tinha passado e denoto-o a ele, Battaglia e William muito despreocupados.»

 

«Tenho a tendência para proteger o que gosto.  Tenho a teoria da panela de pressão: às vezes é so tirar o pipo e vai... Teoria de gestão, certa ou errada, a mim dá-me jeito. O que lhes transmito é que têm de ter cuidado, vão-se logo meter com o líder da claque. Acuña disse: 'sangue caliente'... e eu disse-lhe que isso temos todos. Battaglia também. William tem tudo menos sangue caliente.. Não se passava nada. Disse lhes: 'Se sentirem qualquer tipo de coisa estranha ou ameaça, em casa, no Sporting, liguem para mim ou para o Geraldes'.»

 

«Não disse absolutamente nada. Ponto. Nem a Nuno Mendes..»

 

«William disse, e é verdade, na reunião em que me acusa, e que é uma das causas da rescisão, é que eu faço, eu não peço a ninguém. Vá lá, disse uma verdade. Depois de lhe dizer que era grande mentiroso, disse-lhe isso»

 

«William disse que não tinha havido coisa nenhuma com o presidente, mas esqueceu-se de contar que o pai dele uma vez na SAD, ameaçou de morte o Guilherme Pinheiro e a mim. Ameaçava por causa de uma proposta que não existia. Fico perplexo porque a pessoa que me acusa naquela reunião; que disse que o presidente estava perturbado quando tinha sido desrespeitado por Rui Patrício; que não me tratava por presidente mas você; que amuou... Bas Dost normal, Coates normal, William diz "você acha que não sabemos quem mandou partir os carros?'

Independentemente dos raspanetes, as minhas filhas sabem que os jogadores eram como filhos. Ser acusado daquilo foi impensável na minha vida. Nunca pensei.»

 

«Cheguei à Academia. Não há imagens, não sei como não há. Abro a porta e por acaso tenho a sorte de a primeira pessoa que vejo é o William, que me disse: 'acha que nós não sabemos que foi você?'. Sou recebido assim. Podia haver imagens, não há. É a palavra de um contra o outro. Há uma coisa que eu nunca fiz e ele fez: dizer que não conhecia arguidos e andar depois a fazer telefonemas. Está na natureza dele mentir... se mentiu não sei» 

 

«André Geraldes perguntou se podia passar na reunião da Juve Leo para dizer olá. Já me tinha sido pedido para fazer isso noutros Grupos Oficiais de Adeptos. Eles estão nos estatutos. Não sao figuras despicientes. Nao mandam nada, mas não são despicientes. André Geraldes insistiu... foi um pesadelo essa reunião. Quem descreveu bem foi Vasco Santos e Nuno Mendes. Dezenas de pessoas aos gritos, só não fui chamado santo.»

 

«É verdade que me quiseram agredir. Não teve ponta por onde se pegasse. Umas pessoas a fumar charros, gritos e gritos, 'os seus posts' ... não ouvi ninguém a falar em ir à Academia. Toda a gente percebeu que eu era absolutamente contra ir à Academia. Não ouvi nada disso. Disseram-me na cara 'tarjas contra si'. Aquilo mais um bocado descambava e eu dizia 'vão...algo orgânico'. Se tenho dito a frase certa, não sei se o presidente da Juve Leo tinha conseguido parar. Não fiz queixa porque quero paz e sossego. A primeira pessoa que me quis bater é só a pessoa mais pequenina do grupo, o Elton Camara (também conhecido como Aleluia). Sou reconhecido como presidente sem medo mas queria sair dali ... Por isso é que digo que sou o criminoso mais imbecil.»

 

«Se em algum momento ouvi ou subentendi de falar ou bater em jogadores? Não. A fumar charros e isso, se calhar também falavam sobre fusão nuclear...foi uma reunião. De resto, nada que objetivamente não fosse baterem-me a mim. Isso foi objetivo e claro. Resulta das mensagens aqui tantas vezes mencionadas. Sou o mandante terrorista mais imbecil do mundo porque inclusivamente iam bater-me a mim. A vontade de me baterem está expressa em todo o lado.»

 

«Relacão com Nuno Mendes é de respeito, acabei por gostar de Nuno Mendes porque é tão genuíno que nos faz rir. Independentemente de todos os disparates, sempre me respeitou enquanto presidente, ele é genuíno e faz-me rir.»

 

16.51 horas:  Fala Bruno de Cavalho: «Não compreendo, quase dois anos passados, como estou aqui na qualidade de arguido.

Juíza interrompe e o ex-presidente leonino responde:'Também são quase dois anos sem falar, mais um pouco...'»

 

Continua: «Pedia paciência comigo, o que em dois anos não teve. O que se passou em Alcochete foi um crime hediondo, vergonhoso. Absolutamente lamentável e indiscritível o que as pessoas passaram. Mas decidiram me passar de testemunha/vitima para o arguido 44. E há instinto de sobrevivência que nunca em resposta minha seja visto como minimização do que aconteceu ou do mal que foi feito jogadores, staff, Sporting, a mim e à minha família. A diferença é que me incluo a mim e à minha família, é a diferença. Entenda o meu instinto de sobrevivência não como forma de minimizar o que aconteceu, mas porque me colocaram do lado errado da barricada»

 

Questionado sobre a altura em que soube: «Quando estava reunido em Alvalade já tinha acontecido, José Ribeiro foi interromper reunião e só aí soube. O que me transmitiu é que ele e Nuno Saraiva estavam a ver televisão e se tinham apercebido que tinha havido invasão à academia»

 

Se tinha conhecimento: «Absolutamente nada de nada»

 

Como soube dos incidentes na Madeira:«Soube através da televisão, imagens do aeroporto. Verifiquei in loco porque foi transmitido em direto. Vi em minha casa.»

 

«Estamos a falar de um fenómeno que não percebi porque não foi desvendado. Jogadores como William Carvalho, quando saiam a noite e se metiam em problemas, imagine a quem ligavam? Aos elementos das claques. Não quero teoria da cabala, mas há que enquadrar coisas. Há ali um arguido atrás que cumprimentava William com dois beijos».

 

«Houve uma coisa que me preocupou logo. Perceber que na Madeira havia cordão policial e que as pessoas o passaram. O agir da polícia da Madeira é tão incompetente. É que não é um atestado de minoridade à PSP da Madeira e que sejam imbecis como eu, se for condenado sou o criminoso mais imbecil, não há mais imbecil. Tinha de ser um imbecil puro. Tinha de haver autorização. É lógico que tinha de haver. Spotter disse que Jorge Jesus. O grande mal foi em dezembro de 2017 nas minhas costas ter permitido que a Juve Leo entrasse, passou mensagem de que podiam entrar. Eles sabiam, me tinha sido pedido pelos canais corretos para ir, disse que não. Eu estava nesse dia na Academia e vi que tinham ido. Questiono Jorge Jesus se era dirigente ou treinador. O drama é a primeira vez... aconteceu uma vez a minha revelia e depois aconteceu dia 15. Que destruiu aquelas pessoas ,Sporting. Estamos a passar minoridade à PSP, a mim imbecil. Não que fosse por mim consentido ou permitido.»

 

«Não era comum, nós não gostávamos um do outro, mas a vida é feita de politiquices Sempre tivemos relação de tolerância, fala-se como algo positivo, eu não acho. Nunca me tinha telefonado. Quando me liga, estava eu a tentar descansar com um bébe ao lado. Não fui à Madeira porque tinha uma filha a morrer, depois de uma gravidez em que podia ter morrido, em que esteve internada. Quando ele me ligou não podia estar a falar com ela ali ao lado. Foi primeira vez. Mas se me cai oportunidade na mão de ter a pessoa que tinha estado no aeroporto, queria escutar e perceber»

 

«Não consegui se pelo adiantar na hora ou a pessoa estar embriagada. Não puxei nenhum assunto. O que percebi e me deixou descansado e preocupado era que havia um problema entre o Fernando Barata e o Nuno Mendes. Era recorrente. Tirei ilação que era problema na Juve Leo do q qualquer outro que tivesse a ver com a Madeira. Era tudo tão descabido que quando falámos segunda vez, já disse que não podia falar.

Era uma e tal da manhã, o chip foi totalmente distinto. Era só 'o mustafa mustafa, juve leo, juve leo'. Não saímos disto. A liderança na Juve Leo. Era fundamental que Fernando Mendes se mantivesse na liderança,  porque se estaria a preparar entrada na Juve Leo de elementos de extrema direita. Aviso os jogadores na reunião de dia 14, mas dentro do meu coração pensei que ia começar um problema de liderança da Juve Leo»

 

16.24 horas: Começa a falar Bruno de Carvalho

 

16.18 horas: Fernando Mendes fala do estatuto: «Tinha o respeito, a mística, fui 20 anos líder da Juve Leo, não 20 dias. Presidente eterno não, isso se calhar quando morrer... Diria que sou  presidente honorário da Juve Leo. Tenho o respeito dos meus e externamente (dá exemplo do Madureira, dos Superdragões)».


 Advogado do SCP, Miguel Coutinho, questiona se falou com Bruno de Carvalho sobre a ida à Academia: «Não me lembro, no segundo telefonema estava ko»; Se foi algo encomendado: «Fui de livre e espontânea vontade»; Se teria ido na mesma, caso não tivesse existido altercação com Acuña: «Ia à mesma para falar com Jorge Jesus e apoiar equipa antes da taça. Acuña afetou me porque tinha feito funeral da minha mãe há um mês...»; Se sabia que Jorge Jesus ia lá estar: «Juíza recorda que Fernando Mendes já respondeu a isso, que se não  estivesse ia quarta-feira, ia quinta-feira, ia sexta-feira....; Porque não foi a Alvalade: Juíza também responde: «Isso até eu sei, porque eles treinam na academia...»; Diz que viu tocha, que achou estranho: «Liguei para a minha mulher a dizer que estava a haver confusão e que ia chegar mais tarde. É o único telefonema que faço.»

 

15.37 horas: Fernando Mendes continua a falar e é questionado sobre se o pedido de autorização para entrar na Academia era extensível ao Tiago. Diz que ele é quem ia à academia, que Tiago daria boleia. Mas acrescenta: «Eu ia falar com o JJ, o Tiago ia acompanhar-me. Comigo não é 'os cães ficam à porta'. O Getúlio diz me à entrada: 'há algum problema?'. Disse lhe só 'Não,  vim falar com o JJ'.

 

«Eu não tenho grupo, eu fui por mim...Não me pediram identificação porque não estava lá ninguém, estava escancarado... Ligar ao Bruno de Carvalho por causa disso?  Não,  só lhe tinha ligado depois da situação com o Acuña para lhe falar do que aconteceram. Quando JJ me pediu ajuda já não houve conversa sobre o Acuña. A situação virou se para aquilo, as ditas agressões... disse ao jj nao sei o que se passou, explica me. Se soubesse hoje o que se ia passar, nem à Madeira eu tinha ido. Acho lamentável, não poderia acontecer o que aconteceu, a entrada no balneário e agressões. Como já disse, que seja uma de três: a primeira, última e a única», continuou.

 

15.20 horas: Fernando Mendes fala sobre o primeiro telefonema a Bruno de Carvalho: «Queria que ele soubesse pela minha boca, não pelas redes sociais, o que tinha falado no aeroporto da madeira com JJ sobre Acuña. (Sobre ser À 1h) É normal, podia ser 2h, 3h, estava ligeiramente alcoolizado, quis justificar ao presidente do meu clube o porquê. O segundo telefonema já estava no hotel, para mim já era uma conversa de bêbedos, mais do mesmo, nem sei se bruno de carvalho teve problemas em ouvir-me, nao sei se o ofendi, se sim peço agora desculpa. Estive 20 anos na Juve Leo, Apanhei 9 presidentes, de Sousa Cintra a Bettencourt.»

 

Questionado sobre se ouviu conversas de aperto aos jogadores: «Não houve outras conversas, não tenho redes sociais, nunca tive nem vou ter. O que faço de bem ao mal respondo por mim, não vou acicatado por outros. Tenho amor eterno à minha mulher, aos meus filhos e ao Sporting. O foco era falar com o mister. Poderia ter falado qualquer coisa mas espremido não dá nada.»

 

15.18 horas: Fernando Mendes continua a falar. « Pensei 'houve autorização, entraram'. Pensei que estavam no campo, não vejo ninguém, contorno edifício do balneário, e é quando vejo Manuel Fernandes e depois vem o JJ a dizer em direção a mim 'ó Fernando, ó Fernando, ajuda-me. E eu 'ajuda-me, mas o quê?' Aponta para a cara, olho e vejo lesões, que teria havido contacto físico. Eu disse lhe: 'não sei de nada, nada tenho a ver com isso, lembra-se da Madeira? Vim aqui falar consigo '.'.Isto nao é nada'. Não me vou esquecer até morrer, a cara dele no ombro, disse-lhe 'calma mister'. Ele estava extremamente nervoso. Chega William Carvalho, Raúl José, e explicou 'entraram partiram tudo, agrediram', e eu perguntei 'reconheceram alguém?'. E disse 'vim para falar com o mister'»

 

«JJ estava em estado de choque. Se Percebi que estava relacionado? De certeza que nao teriam sido os jogadores a agredir o JJ... se calhar... É 3 em 1: a primeira,  e a última vez.», atirou.

 

«Chegaram o William Carvalho e o Tiago Fernandes. Depois ficámos a falar, é como as cerejas, umas atrás das outras.. veio o bruno Jacinto, perguntou o que se passou e disse lhe 'Houve para aí confusão, stress'», continuou

 

«Perdi a minha boleia para Lisboa. Perguntei ao Jacinto se dava boleia ao Torres para ir buscar o carro até à terra batida, e depois o Torres dá-me boleia a mim, Aleluia e Joaquim Costa e ao tal indivíduo até à carrinha. Venho para Lisboa com o Joaquim Costa, só eu e ele. 

Questionado pela juíza sobre confusões "Eu não vou em confusões com as outras pessoas», referiu.

 

 

14.48 horas: Declarações de Fernando Mendes: «Quando chegámos junto há academia já havia bastantes carros, para cima de dez. Comecei a caminhar em direção à academia, eu e quem estava comigo na carrinha. Apercebo-me que há pessoas a correr à minha frente. Bem à frente. Pensei 'vão a correr para quê? Chegam lá à frente tem de parar para se identificar'. Até eu, que me conheciam há 20 anos, tinha de me identificar,  quanto mais eles... depois perdi o paradeiro do Tiago. Quem não deve não o teme (ir de cara destapada). Elton Camará não foi comigo mas concentramo-nos ali à entrad»

 

14.04 horas: Fernando Mendes, antigo líder da Juventude Leonina, também chegou para depor.

 

14.01 horas: Bruno de Carvalho chegou ao Tribunal do Monsanto.

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