Marega ou uma ética para o desporto (artigo de Manuel Sérgio, 327)

Espaço Universidade 23-02-2020 16:43
Por Manuel Sérgio

Colho a notícia no jornal A Bola (2020/2/19) acerca do caso Marega: “As imagens do   sistema de videovigilância do Estádio D. Afonso Henriques, disponibilizadas pelo Vitória de Guimarães, têm sido essenciais para se perceber quais  os adeptos que entoaram cânticos e dirigiram insultos racistas a Marega, futebolista do F.C.Porto, na partida disputada na tarde do último domingo. As diligências da Polícia de Segurança Pública (PSP), juntamente com o Ministério Público de Guimarães, já permitiram identificar várias pessoas – uma dezena ao que A Bola pôde apurar – suspeitas desse comportamento nas bancadas. Mas todas as informações recolhidas, que seguem igualmente para a Autoridade para a Prevenção  e o Combate à Violência no Desporto, apontam para a existência de um maior número de responsáveis dos referidos atos, registados, principalmente, no setor nascente do anfiteatro vimaranense”. No entanto, Domingos Bragança, presidente da Câmara Municipal de Guimarães, com o deleite de quem defende sérias convicções, desmente os que acusam de racista o seu município: “Guimarães é uma cidade inclusiva e  os vimaranenses  são inclusivos, somos uma cidade multicultural e multirracial. Os episódios que aconteceram não expressam o que é Guimaráes, nem expressam o que são os vimaranenses, nem os vitorianos”.  Concordo “grosso modo” com o Sr.Dr. Domingos Bragança: não há vitorianos, nem vimaranenses, racistas. Mas “grosso modo” há sempre um ou outro racista, tão ignaro como altivo, a destoar da generalidade, como aliás, neste caso, a televisão o confirma. Ivan Illich (1926-2002) publicou, em 1971, um livro célebre: Sociedade sem Escola, onde se refere que a lógica do crescimento pelo crescimento faz da alta competição social, económica, desportiva a ”lei suprema” do tempo em que vivemos. E, se a alta competição é a “lei suprema”, a própria escola, com frequência, a teme e a propaga.

 

Ora, a alta competição, rastreando os valores que singularizam grande parte dos dirigentes desportivos portugueses, parece ser  guerra e ódio e violência. E portanto o “caso Marega” não passa de um dos aspetos da intolerância em que descambou um certo futebol. Tem razão, portanto, o primeiro-ministro António Costa, quando afirma: “Há algo absolutamente essencial. Se andamos a acender paixão, arriscamo-nos atear fogos que são muito difíceis de controlar. Os dirigentes desportivos devem ter muito cuidado, na forma como se dirigem aos seus adeptos e apoiantes. É uma enorme irresponsabilidade como o discurso de ódio é muitas vezes alimentado”. A dignidade do ser humano é mais um  conceito ético do que um conceito jurídico. E porquè? Já o Kant no-lo ensinou: “No reino dos fins, tudo tem um preço ou uma dignidade. O que tem um preço pode muito bem ser substituído por outra coisa ou qualquer coisa de equivalente; pelo contrário, o que é superior a todo o preço, o que por conseguinte não admite nenhum equivalente é o que tem uma dignidade (…). Mas o que constitui a condição única que pode fazer com que qualquer coisa seja um fim em si, isso não tem somente  um valor relativo, isto é, um preço, mas um valor intrínseco, isto é, uma dignidade. Ora, a moralidade é a condição única que pode fazer com que um ser dotado de razão seja um fim em si. Com efeito, só ela é por ela é possível ser um membro legislador no reino dos fins. A moralidade, assim como a humanidade enquanto capaz de moralidade, é portanto a única coisa que tem dignidade” (Fondements de la métaphysique des moeurs, PUF, Paris, pp. 160-161). Pela sua referência insistente ao ser humano, como fim-em-si, Kant encontrou a característica essencial do conceito de “dignidade humana”. Por isso, o Sr. Marega não merece respeito principalmente porque é do Oriental,  ou do Mafra, ou do Sporting, ou do Porto, ou do Benfica – ele merece respeito principalmente, porque é um fim-em-si e, para mim, também um filho de Deus.

 

A dignidade do Sr. Marega encontra a sua fundamentação primeira, independentemente de toda a fundamentação jurídica, política, ou desportiva: ele é um fim-em-si! A dignidade da sua existência não se resume a um puro dado biológico, porque é, antes do mais, uma exigência ética. Biologicamente, o ser humano não dispõe de qualquer superioridade ontológica: tem-na, na variedade e riqueza da sua complexidade, que é “bios” e “logos”, matéria e espírito, sentimento e razão, cultura e política, poesia e amor. E, assim,  todos os seus atos são “condição de possibilidade” de razão, de consciência e de liberdade. Sirvo-me agora de uma citação de Michel Renaud, na revista Brotéria (Fevereiro de 1999): “Entre os processos biológicos no homem e o exercício do pensamento livre, a relação pode ser vista de baixo para cima ou de cima para baixo. De baixo para cima, o corpo apresenta-se como condição de possibilidade, de tal modo que é normal que correspondências apareçam (por exemplo, entre a activação de tal zona cerebral e a capacidade linguística). Mas, de cima para baixo, o corpo é assumido e reinterpretado como a mediação incorporada na emergência do pensamento humano. Não é contudo porque o corpo é condição de possibilidade, sempre presente nos atos especificamente humanos, que ele é fundamento da dignidade humana. Ele será o destinatário e o beneficiário da dignidade humana, enquanto incluído no respeito que o ser humano merece e exige, em virtude da sua dignidade” (p. 154). A Declaração Universal dos Direitos do Homem, proclamada em 10 de Dezembro de 1948, brilha, tensa e intensamente, como um marco inapagável na história da humanidade. A sua fundamentação é basicamente ética e moral. A dignidade do futebolista Marega está antes do Direito e da Filosofia -  está nele!

 

E, porque o Marega é um fim-em-si, nada lhe deve ser apresentado como uma imposição, mas como uma proposição. Na arrevesada feira do clubismo futebolístico português, a justiça e as leis andam, demasiadas vezes, vilipendiadas, omissas, furtivas, e por isso, com demasiado à vontade, se injuriam e classificam pessoas, se põe silêncio no lugar de aplauso, inveja e ressentimento no lugar de estima e admiração.  Quando Mauriac ganhou o Prémio Nobel, de acordo com a opinião dos críticos, não era ele que o merecia. O próprio Mauriac o disse, mas dizendo o que ninguém esperava: “Há um autor, grande entre os grandes, que não merece o Prémio Nobel. Esse autor é o Paul Claudel. Ele está tanto acima de todos nós que só o considero digno de Prémios eternos”.  Para o cristianismo, o Marega é, como todos nós, filho de Deus! Houve um tempo, na minha vida, em que me situei, em encruzilhada original (pois que trabalhava em meio operário, no Arsenal do Alfeite, e licenciava-me em Filosofia, na Faculdade de Letras de Lisboa) à escuta das pessoas que me rodeavam e das viragens da civilização. Queria eu então intuir novas linhas de rumo, já que sofria um abalo metafísico (escrevo “metafísico”, sem receio) resultante do fragor do encontro doloroso do cristianismo dos meus queridos pais com o marxismo dos meus camaradas de ofício e a fenomenologia da Faculdade de Letras. Mas sem nunca perder a fé numa harmonia oculta no universo, naquela racionalidade que brota da própria matéria e onde eu, sempre atento a Teilhard de Chardin, descobria (e descubro) Deus e antevia (e antevejo) a cristogénese. E repito com Ernst Junger, no seu Diário I: “Mais sagrada ainda que a vida do homem deve ser, para nós, a sua dignidade”. Marega, filho de Deus e meu irmão!

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto                                   

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