Guarda-Redes estranhos e estrangeiros

O Mundo dos Guarda-Redes 09-01-2020 17:58
Por Roberto Rivelino

Quando Joaquin Phoenix subiu ao palco para receber o Globo de Ouro para Melhor Ator esperava-se o papel normal de quem teve todo o perfil para interpretar Joker (ou perturbar David Letterman): uma estranheza recôndita de quem tenta mas não consegue esconder os seus defeitos, alguém que conote toda a sua linguagem com a timidez de quem sabe que está a ser avaliado como um estranho / estrangeiro (escolha a palavra). Por cá, em ocasião de transações e especulações, tem sido veiculada a valorização daquilo que é estrangeiro nas balizas da Primeira Liga: Hervé Koffi é descrito como alguém ‘a segurar’ enquanto Giorgi Makaridze ou Mateus Pasinato já foram associados aos dois clubes que preenchem a Segunda Circular. É depois de enquadrar o contexto que encarrilo a utilização destas duas palavras que partilham as primeiras seis letras (e vai perceber o porquê de lhe dar à escolha a palavra).

Aquilo que se vê e que se percebe é que neste mercado de trocas, o estrangeiro faz notícia e provoca ondas que o impulsionam para lugares que já poderiam estar destinados para os ‘estranhos’ – alguns, que vou mencionar nas próximas palpitações. Prevendo que nenhum destes três nomes acima citados terá no corpo a camisola número 1 de qualquer clube que dispute objetivos superiores aos dos clubes onde estão (seja por falta de margem de progressão ou por ausência de capacidade), concluo que para essas funções estarão mais bem preparados e capacitados estranhos como Cláudio Ramos, Ricardo Ferreira ou Marco Rocha. Estranhos, mas guarda-redes que conhecem o campeonato, os adversários e os cantos do país e que semana após semana escrevem durante 90 minutos aquilo que não é escrito sobre eles nos restantes cadernos diários, ora por não serem novidade, ora por estarem estabelecidos e serem intocáveis nos clubes que representam – o do Tondela chegou mesmo à seleção campeã da Europa… jogando no Tondela.

A partir destes nomes podem ser acrescentados os de André Ferreira, João Miguel Silva, Ricardo Nunes, Mika Domingues, Pedro Trigueira, Hugo Marques ou Tiago Sá, estranhos cada vez mais estrangeiros ao fenómeno capitalista que assola as balizas da nossa Liga e que nos impede de perceber o real valor do guarda-redes português – sem ponta de jingoísmo -, por uma falta de oportunidade e tolerância para valorizar a estranheza de quem conhece e calca território conhecido. Seria mais proveitoso trabalhar sobre o potencial de quem quer cá estar do que investir em areia movediça que se motiva pelo jogo para logo voar para onde, em condições normais), nunca poderá aterrar e ficar. Tondela, Portimonense e Santa Clara não estarão arrependidos na proteção das suas balizas – nem tão pouco da ‘estranha’ sobriedade que dali parte algumas das melhores cenas dos seus filmes, jornada após jornada.

 

 

Defesa da jornada

 

Douglas Jesus – Vitória SC 0-1 SL Benfica – 86’ – Um-para-um

Avaliação da defesa: 7 (sete)

Critério: A defesa da jornada é escolhida por um critério de junção da execução técnica, interpretação tática e complexidade da tomada de decisão.

 

01 – Momento do passe para Pizzi; Douglas Jesus recua na profundidade após perceber a incursão de Tomás Tavares (prevendo que este receberia a bola e seguiria para a baliza)

 

02 – Momento do remate de Pizzi; Douglas Jesus avançou após recuar num primeiro movimento e após Tomás Tavares entregar a bola a Pizzi, que surgiu sem cobertura; Aqui vê-se o guarda-redes a antecipar-se à decisão do adversário

 

03 – Momento da intervenção de Douglas Jesus; Após encurtar distâncias para Pizzi – que rematou de primeira -, o guarda-redes antecipou-se ao remate e fez a sua abordagem ao um-para-um, ampliando o corpo face à proximidade da ação adversária

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