«Não fui ao Euro-2008 devido a problemas de ansiedade»

Espanha 12-12-2019 19:08
Por Redação

Já era apelidado de ‘novo Messi’ quando se tornou no jogador mais jovem (17 anos) de sempre a estrear-se na equipa principal do Barcelona, batendo o recorde o craque argentino. Para trás, tinha deixado o incrível registo de 900 (!) golos marcados nas camadas jovens do emblema catalão e todos lhe agouravam grande futuro. Mas o futuro tinha outros planos para Bojan Krkic.

 

«Tudo aconteceu muito rápido. No que diz respeito ao futebol correu tudo bem, em termos pessoais não. Tinha de viver com isso e ouvir as pessoas dizer que a minha carreira não estava a ser o que esperavam. Quando apareci era ‘o novo Messi’. Mas que carreira estavam à espera? Há muita coisa que as pessoas não sabem», refere em entrevista ao jornal The Guardian.

 

«Aos 17 anos, a minha vida mudou por completo. Fui para o Mundial sub-17 em julho e ninguém me conhecia, quando regressei nem podia andar na rua. Poucos dias depois fiz a minha estreia frente ao Osasuna, alguns dias depois joguei a Liga dos Campeões e mais tarde marquei frente ao Villarreal. Depois fui chamado à seleção. Tudo corria bem, mas a cabeça vai enchendo até o corpo dizer ‘pára’», prossegue.

 

A seleção acabou por ser o gatilho para um problema que se arrastou por muitos anos: «Não fui ao Euro-2008 devido a problemas de ansiedade e disseram que eu estava de férias. Fui chamado para o jogo contra a França, a minha estreia, e disseram que estava com gastroenterite quando na realidade sofri um ataque de ansiedade. Mas ninguém fala disso, o futebol não quer saber.»

 

«A ansiedade afeta as pessoas de forma diferente. Alguns sentem o coração a bater mil vezes por minuto, no meu caso tinha tonturas, sentia enjoos constantes, 24 horas por dia», explica, recordando essa primeira internacionalização, em fevereiro de 2008: «A pressão não desaparecia, era poderosa. Tudo estava bem quando entrei no balneário antes do jogo com França, depois comecei a sentir fortes tonturas, pânico, e deitaram-me na sala de fisioterapia. Foi a primeira vez, mas voltei a ter episódios graves como esse.»

 

Iniciou tratamentos que se prolongaram até ao verão. «Quando chegou a altura, decidi que não podia ir ao Euro, que tinha de me isolar. Todos na federação sabiam o que se passava: Luis Aragonés [selecionador] e Fernando Hierro [diretor desportivo]. Um dia antes de anunciarem a convocatória, ligaram-me a dizer que ia ser chamado. Respondi: ‘Dói dizer isto, mas não posso’. Cheguei ao centro de treinos do Barcelona e Puyol disse-me que estaria sempre ao meu lado. Respondi: ‘Não posso, estou a tomar medicação. Estou no limite.»

 

Mas os limites foram ultrapassados no dia seguinte quando viu a manchete num jornal desportivo: ‘Espanha chama Bojan, mas Bojan diz não’. «Esse título matou-me. Lembro-me de ser insultado em Murcia, as pessoas julgavam que era eu que não queria jogar. Foi duro, ainda que nessa altura não me importava com o que diziam as pessoas. O que magoa é que, alegadamente, esse título veio da federação. Como se falaram comigo no dia antes, sabiam o estado em que me encontrava, e depois sai aquele título? Senti-me muito sozinho. Ainda hoje me perguntam porque não fui ao Euro.»

 

«Estava assustado, doente, exacerbado. Não sabia o que estava a acontecer. Lembro-me de, numa entrevista na Barça TV, dizer que precisava de férias. Mas a bomba já tinha rebentado. Depois foi tentar extinguir o incêndio. Senti que tinha de escapar de qualquer forma. Passados dez anos, olho para trás e a reação não me surpreende. As pessoas sentem dificuldade em admitir que as coisas não estão bem e, no futebol, o que interessa é quando estás OK. E é esquecer o assunto.»

 

Em 2011, Bojan despediu-se do Barcelona e mudou-se para a Roma. Seguiram-se empréstimos a AC Milan e Ajax, depois nova transferência para o Stoke City e passagens por Mainz e Alavés, cedido mais uma vez. Este ano mudou-se para o Montreal Impact para jogar na MLS e fazer o que mais gosta. «Amo o futebol, é a minha vida», garante, sem esquecer: «A cicatriz ainda está lá. Não abre, mas por vezes ainda a sentes, como uma lembrança.»

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