Chile: Na escuridão o desporto foi uma luzinha

Internacional 14-10-2010 09:12
Por Miguel Cardoso Pereira
Conta-se que Franklin Lobos, 53 anos, participou num jogo de futebol horas antes de descer à mina de Copiapó no dia 5 de Agosto, dia do colapso. Jogar futebol entre amigos era para Franklin Lobos uma forma de manter vivo o jogo em si, distantes que iam os tempos em que era profissional e em que vestia até a camisola da selecção chilena, como no apuramento para os Jogos Olímpicos de 1984.

A vida mudou e tornou-se difícil. As duas filhas foram para a universidade, Franklin teve de ganhar dinheiro conduzindo um autocarro público e, depois, juntando o trabalho na mina.

Até que os mineiros, naquele 5 de Agosto, ouviram um estrondo e tudo caiu à sua volta, deixando-os presos a quase 700 metros de profundidade. 33 homens. Começava o jogo da vida deles. Nascia uma equipa. Durante 17 dias os 33 mineiros estiveram como mortos. Destruídas as saídas, só no dia 22 de Agosto deste ano, 17 dias depois do desastre, a mensagem de esperança e o pedido de socorro chegou à superfície. O Chile suspirou de alívio. O Mundo também, porque nos grandes dramas as nacionalidades não existem. Nem os locais. Uma mina no Chile é de repente uma mina na Panasqueira ou em Aljustrel.

Anteontem à noite, quase dois meses depois do início dos planos de resgate, os mineiros começaram a ser salvos. Um a um. Franklin Lobos saiu apenas às 23.20 de ontem, hora portuguesa. Tinha a filha Carolina à espera, que lhe deu uma bola de futebol. Franklin deu uns toques tímidos ainda antes de começar a distribuir abraços. Semanas antes, quando o primeiro tubinho de comunicações ligou a superfície à gruta, por onde os mineiros foram alimentados, Franklin pedira a uma das filhas se lhe podia fazer descer uma bola. Mas era demasiado larga para o tubo. Só ontem foi possível...

Durante vários dias, porém, por ser mais famoso que outros, por ser antigo desportista, foi sempre um dos primeiros nas mensagens de apoio. Ontem, à saída, disse apenas «obrigado». O resto das palavras saíram-lhe dos olhos, que se adivinhavam chorosos apesar de escondidos pelos óculos que o protegiam da luz do dia, da luz da vida.

Zamorano elogia Lobos
Ivan Zamorano, também antigo internacional chileno e nome sonante no Real Madrid e no Inter de Milão dos anos 90, jogou com Lobos no Cobresal, era Lobos um homem e Zamorano um miúdo de 17 anos.

«Desde o princípio que Franklin tinha temperamento de líder. Quando jogou comigo era um homem muito maduro, muito sensível, muito humilde e caracterizado por uma grande consciência das coisas. De certeza que lá em baixo, soterrado, foi muito importante para manter a equipa unida, porque era também isso que ele gostava de fazer quando jogávamos futebol, era essa uma das suas tarefas», elogiou Zamorano.

O desporto no inferno
Com trinta graus de temperatura constante, uma humidade insuportável e a sempre presente perturbação da ansiedade e do medo, os mineiros tinham poucas condições físicas e psicológicas para se manterem em forma. Muitos, porém, corriam diariamente no espaço disponível. A actividade física desde o início que lhes foi transmitida pelos especialistas como essencial para a sua recuperação e salvamento.

Mas, sendo homens normais, o desporto para eles, lá em baixo, continuou a ser sempre muito maior do que propriamente o desporto que se pode ou não fazer. O desporto é também aquele que se vê e aquele que se sente. E por isso foi de forma natural que o pedido dos mineiros chegou à superfície: ver numa projecção o jogo Ucrânia-Chile, em Kiev, no dia 8 de Setembro. Assim foi, através das comunicações já estabelecidas com o local a 700 metros de profundidade. O Chile perdeu esse jogo por 1-2, mas os mineiros, conta-se, festejaram na mesma, por terem escutado pela primeira vez o som das poderosas perfuradoras que escavam a rocha até à cave. Eram os primeiros sons de vitória no tal jogo de vida ou morte.

Estrelas do abismo
As manifestações de solidariedade desportiva foram constantes desde o desastre. Do Real Madrid ao Barcelona, passando pelo Manchester United, passando ainda por algumas das principais figuras do futebol, como os brasileiros Kaká e Ronaldo ou o espanhol David Villa.

E Franklin Lobos, quando volta esta reportagem a falar dele? Se calhar não há nada mais para escrever de Franklin Lobos, verdade seja dita. Foi jogador de futebol, é certo, chegou a internacional. Mas Franklin Lobos - ainda que tenha ajudado a selecção chilena a qualificar-se para os Jogos Olímpicos de 1984, em Los Angeles; mas depois nem foi chamado para a fase final... - não era certamente o único desportista soterrado na mina. Porque o desporto não é apenas de quem chega às selecções, é de quem o pratica, é de quem dele gosta, é de quem se emociona por, na iminência da morte, receber camisolas com autógrafos de ídolos ou poder ver jogadas de Pelé e Maradona, como se fossem últimos desejos, últimos prazeres. Assim aconteceu.

A BOLA procurou, porém, uma opinião mais especializada sobre o tema: Nélson Raposo, 34 anos, jogador do Mineiro Aljustrelense. E mineiro de profissão. Também Nélson Raposo disse o que toda a gente já sabia. E disse muito bem:
«Ali não estão desportistas, nem médicos, nem advogados, nem políticos, nem mineiros, nem o que quer que seja. O drama de ficar preso àquela profundidade é o drama de um homem qualquer. Eu já estive a trabalhar a 450 metros de profundidade e tenho pensado por estes dias: 'E se uma coisa daquela me acontecesse a mim?'».

Leia mais na edição impressa de A BOLA
Ler Mais
Comentários (0)

Últimas Notícias