Mas o Ricardinho é grande! (artigo de Manuel Sérgio, 368)

Espaço Universidade 11-10-2021 13:55
Por Manuel Sérgio

Leio sempre, como um devoto, o filósofo Miguel Real. Nunca é demais sublinhar a importância (assim o penso) na cultura portuguesa, do seu pensamento e da sua crítica literária. O livro Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa (Quidnovi, Lisboa, 2008) é, no meu entender, um ensaio modelar a ser apreciado, não só pela qualidade da informação e pela sequência lógica em que foi disposta, como também pela clareza do discurso e pela objetividade da exposição. No JL (de 22 de Setembro a 5 de Outubro de 2021) recortei dele o seguinte: “Isabel Ponce de Leão (IPL) publica um livro de ensaios sobre José Régio, Mas Régio é grande, paráfrase do título de Régio, Mas Deus é Grande”. Pela mão de Miguel Real cheguei portanto ao título da minha crónica de hoje: “Mas o Ricardinho é grande”. De facto, tão grande que não há entendido em futsal que não o considere o melhor jogador de futsal do mundo. Eu não me arrogo a pretensão de saber de futsal, mas não escondo que, também para mim, não vejo outro jogador com “classe” igual à sua.  Findo o mundial de futsal, na Lituânia, Portugal foi o justo vencedor. E Ricardinho mais uma vez se aureolou de glória, ao ser considerado o melhor jogador do torneio. Ricardinho é para o futsal português o que o Cristiano Ronaldo é para o nosso ”futebol de onze”:  dois génios, donde ressalta um treino meticuloso e sapiente e o patriotismo e o idealismo dos heróis. Uma equipa desportiva (refiro-me à alta competição) deverá funcionar como um organismo vivo. Nós, seres humanos, estamos organizados a quatro níveis: “estamos organizados em sistemas que têm dentro de si vários órgãos, estes órgãos têm tecidos e os tecidos têm células, sendo que as células estão em número de vários milhares de milhões. Somos uma organização complexa, a mais complexa e perfeita organização que se conhece. É por isso de bom tom que façamos uma espécie de benchmarck com essa organização e tentar perceber o que podemos aprender com ela” (Jorge Marques, Vida e Gestão, Tema Central, Lisboa, 2014, pp. 26/27).

               

E de Jorge Marques destaco ainda o seguinte: “Uma das primeiras características dos dez sistemas que compõem o nosso corpo é que cada um deles, tendo missões diferentes, tendo órgãos diferentes e células diferentes, têm ao mesmo tempo uma autonomia de funcionamento na sua missão específica e uma enorme interdependência. Se um fornece o alimento a todos, ele mesmo precisa de oxigénio, de sangue e outras substâncias de outros, é assim com todos eles”. Por outro lado, há que referir: “a ausência de lutas pelo poder, pela não proclamação ou exibição de que um sistema é mais determinado que o outro, que um órgão é mais importante que o outro (…). Aqui liderar é servir”. (op. cit.). Peço desculpa por tão extensa citação. Mas julguei que o devia fazer, principalmente escrevendo sobre uma equipa, em que o treinador, o comandante Jorge Braz… “acredita mais em nós do que nós em nós mesmos”, nas palavras de Bebé, o magnífico guarda-redes da seleção nacional desta modalidade. Portanto, Jorge Braz faz da seleção portuguesa de futsal um organismo vivo onde ele, porque lidera, é o primeiro a servir. Mas um ponto há que eu quero salientar: para mim, toda a alta competição, no desporto, é religiosa. São muitos já os jogadores que o sentem e, em pleno campo onde competem o provam, erguendo os braços ao céu, em oração. Mesmo que alguns outros não acreditem na minha religiosidade (estão no seu direito) e me apresentem como espécimen fóssil de tempos imemoriais – que toda a alta competição, no desporto, é religiosa, são grande parte dos jogadores que o “dizem” quando rezam a fazer desporto. De facto, estimulado pelo desporto, ressalta um extraordinário caudal de consciência religiosa, como se o atleta pudesse percecionar, melhor do que outras pessoas, o insondável, o indizível mistério de Deus…

               

A expressão “Educação Física” surge no século XVIII, com preocupações, antes do mais, médicas, “utilizando indistintamente los términos educación física, educación médica y educación corporal, reflejará un concepto más compreensivo que el de gimnástica heredado de los griegos y reservado ahora a una forma muy concreta de actuación sobre el cuerpo del niño. En el siglo XIX el término Educación Física es de nuevo y progresivamente desplazado por el de gimnástica, que en dicho siglo recibe la misma significación que el de educación física (…). Es en último cambio de siglo y por obra de Demeny y Hébert, cuando el término educación física vuelve a ganar difusion y finalmente pasa al lenguage corriente con el sentido com el que hoy utilizamos. Desde entonces su contenido se há ido diversificando para incluir teorias e práticas que inicialmente han podido parecer dispersas y hasta contrapuestas (educación física, deporte, educación psicomotriz, expresión corporal, etc.” (Benilde Vásquez, La Educación Física en la Educación Básica, Gymnos, S.A., Madrid, 1989, p. 56). No entanto, julgo ter encontrado um percurso muito seguro de uma permanente busca de dignidade, para esta área do conhecimento, com o paradigma “motricidade humana”, dando à motricidade humana a definição seguinte: “o movimento intencional e solidário da transcendência”. Aqui, a “transcendência” tem uma relação intensa e constante com a complexidade humana, sem deixar esterilizar a espiritualidade, num intercâmbio profícuo com a “cristogénese” de Teilhard de Chardin. Em Portugal, no final de cada ciclo olímpico, são várias as críticas acintosas, quer ao número reduzido das medalhas, quer à fraca aposta do país, no desporto, pois que aumentam os “campeões de sofá”, no nosso país, o 11º., “com maior prevalência de inatividade física no mundo” (revista do Expresso, 2021/8/6). E, para mim, são três os conceitos que melhor definem o desporto: Corpo, movimento e transcendência. Transcendência? Logo me ocorre a jaculatória de Miguel de Unamuno: “Hambre de eternidad, sé mi pan de cada dia!”. E a transcendência (ou superação) até pode acontecer sem um número montanhoso de medalhas. Desde o século XVIII, a descoberta da faculdade crítica da razão transformou-se em embriaguês criticista. Ora, há mais realidade, para além do que se vê, ou é hábito realçar…

               

Se, para mim, o desporto é o fenómeno cultural de maior magia, no mundo contemporâneo e portanto os campeões de alto nível devem ter reconhecimento social e político igual ao dos cientistas e técnicos e literatos e artistas e políticos de maior relevo - no meu pensar, o Ricardinho, como outros desportistas que a Comunicação Social não dispensa,  é um dos grandes portugueses do nosso tempo.  Evoco, neste momento, o sorriso de afetuosa objetividade de muitos dos meus leitores, para salientar que, provavelmente,  o Ricardinho não ressaboreou nunca a poesia do Pessoa ou da Sophia, nada aprendeu na prosa de António Damásio, ou do Boaventura de Sousa Santos e não parece capaz de uma séria crítica aos valores emergentes, na pós-modernidade em que nos movimentamos. Ao invés das demais criaturas, neste mundo, o ser humano não é um ser natural tão-só, não faz um com a natureza. O ser humano intervém na natureza como um ser criador de cultura. Por isso, a nossa existência desenvolve-se durante uma “viagem” (recordo o Homo Viator, de Gabriel Marcel), bem visível, quando transcendo e me transcendo. A transcendência, se não estou em erro, significa que a vida do ser humano é sempre, em todas as idades e em todas as circunstâncias, “uma tarefa por cumprir”. E, no nosso capitalismo individualista e mundializado, transcendo-me também quando faço do “cuidado” um valor estruturante da nossa sociedade: cuidado pelos outros e por nós mesmos e por todas as criaturas, como os seres naturais que nos rodeiam e nos permitem a existência. Precisamos de um novo paradigma de convivência, com todos os outros seres. O Ricardinho merece respeito (e cuidado) em primeiro lugar, porque é uma pessoa: para uns, filho de Deus, com um nó de relações que, do finito, o levam ao infinito; para outros, o ponto mais alto e complexo do desenvolvimento da matéria, sem transcender a esfera material. Mas do Ricardinho há muito mais a dizer, como acontece com os demais génios, nos demais ramos do saber. Merece por isso mais respeito do que os seus colegas de equipa e o comandante Jorge Braz? Para mim, merece igual respeito a todos os que o acompanharam, na vitória inolvidável deste mundial de futsal. Mas exige mais tempo a ser estudado e admirado!              

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto.

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