As Olímpicas Virgens (artigo de Gustavo Pires, 131)

Espaço Universidade 29-07-2021 19:17
Por Gustavo Pires

Luís Filipe Vieira (LFV), o presidente do Sport Lisboa e Benfica (Benfica) foi detido no dia 7 de julho. De acordo com o comunicado emitido pelo DCIAP, em causa estão a suspeita de crimes de abuso de confiança, burla qualificada, falsificação, fraude fiscal e branqueamento.  

 

E, perante a estupefação do País os deuses do nacional olimpismo não perderam tempo em lançar a sua ira sobre LFV que, tal qual treinador de futebol, de um dia para o outro, numa espécie de bacanal romano em honra de Baco deus do vinho, passou de bestial a besta e arredado de todos os cargos que exercia no Clube e na SAD.
 

Em mais de cinquenta anos ligado profissionalmente ao mundo do desporto português nunca vi despachar um homem com tanta eficiência, tanta eficácia e tanta falta de ética. Foi obra que, certamente, ficará na história do desporto nacional.
 

O que aconteceu foi de tal maneira vergonhoso que, ao cabo de pouco mais de duas semanas, já é possível identificar as principais motivações que animaram aqueles que, sem qualquer vergonha na cara, se encarregaram de se antecipar aos Tribunais e crucificar LFV na praça pública.

Uns optaram pelo mal da amnésia hipócrita, outros pelo mal da vingança selvagem.
 

Os atingidos pela amnésia hipócrita, estão entre aqueles que, independentemente da nacionalidade, da cor da pele, da conta bancária, da exposição mediática, da religião, do sexo e tendências ou do partido político em que no momento militavam, frequentavam reverencialmente o camarote presidencial do Estádio da Luz. Estes hipócritas e mal-agradecidos, de um momento para o outro, deixaram de conhecer o presidente do Benfica. E até houve quem teve o descaramento de dizer que conhecia muito bem o ambiente vip que se vivia no camarote presidencial do Estádio da Luz mas só lá tinha ido uma vez. E, também foi degradante, ver nas televisões alguns comentadores ao serviço do regime, tal qual Judas, negarem conhecer o presidente do Benfica   não uma, nem duas, nem três, mas as vezes que foram necessárias. E triste foi, ainda, constatar que, quando uns  pândegos da bola, quiseram fazer uma manifestação em apoio a LFV, compareceram às portas do Estádio da Luz, não aqueles que os portugueses se habituaram, através da comunicação social, a ver no camarote presidencial do Estádio da Luz a “lamberem” o presidente do clube mas,  uma dúzia de gatos pingados que ainda não percebeu que, devido a muitos anos de políticas públicas absolutamente miseráveis, no estado em que o futebol se encontra, só serve para lhes explorar a doença clubística de que padecem.
 

E, os atingidos pela vingança selvagem apressaram-se a ir às catacumbas mais profundas e mórbidas das suas memórias para, como já lhes é habitual, trazer para o desporto os mais baixos sentimentos da condição humana. Para eles, chegara o tempo de ajustar contas. E, numa reles covardia, apontaram as baterias do veneno que lhes ia na alma para aquele que secretamente odiavam. E, sobre alguém que não se podia defender e, menos ainda, contra-atacar, despejaram rajadas de ódio, de raiva e de desprezo, como se o homem, antes de ser julgado e condenado, fosse o responsável pela degradação ético-moral em que o desporto nacional se encontra.
 

Entretanto, tanto uns como outros, na maior das hipocrisias e disfarçados de novas virgens, num país assoberbado pela corrupção da ética desportiva, resolveram começar a produzir altos discursos e prosas moralistas porque, dizem eles, independentemente daquilo que a justiça possa vir a apurar, as suspeitas que envolvem LFV não são positivas para o desporto. E afirmam-no, sem qualquer vergonha, como se eles não fossem também suspeitos de muitas das misérias de um desporto que, nos tempos que correm, tresanda a vigarices.
 

Há muito que, nos mais diversos países do mundo, o Movimento Olímpico moderno tem sido um terreno privilegiado, para a prática de crimes de toda a ordem como há muito foi denunciado pelo dirigente do Comité Olímpico Internacional (COI) de seu nome Marck Hodler (1918-2006) quando, em finais dos anos noventa, afirmou que “de cinco a sete por cento dos membros do COI eram compráveis”. E acusou as votações para a atribuição dos Jogos Olímpicos de Atlanta (1996), Sydney (2000), Nagano (1998) e Salt Lake City (2002) terem sido compradas, e como Barak Obama teve a oportunidade de constatar em 2009, as candidaturas continuaram a processar-se debaixo de um véu de corrupção.
 

As grandes organizações do mundo do desporto respeitam cada vez menos uma cultura democrática de transparência que deve prevalecer em qualquer instituição que, por delegação pública, administra dinheiros públicos. Organizações como a FIFA e o COI são Estados dentro do próprio Estado. Contra tudo e todos, o Campeonato do Mundo de Futebol (2022) da FIFA será realizado no Catar debaixo de enormes suspeitas de corrupção. Tal como os Jogos Olímpicos de Tóquio (2020) cujos organizadores distribuíram milhões de dólares em presentes a fim de Tóquio receber o apoio dos membros do COI (Record, 2020-04-01). Ora, a bem ver, em termos comparativos, as acusações que recaem sobre Luís Filipe Vieira, não sendo de admitir, não passam de traquinices de menino de coro pelo que, causa um profundo asco, ver por aí umas certas novas virgens a pregarem moralidade.
 

Por isso, há que colocar um ponto final sobre os olímpicos discursos covardes, hipócritas, oportunistas e moralmente corruptos e, calmamente, esperar que a justiça funcione com a celeridade necessária para que a própria justiça possa ser consumada com justiça.


Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
 

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