O desporto profissional americano (artigo de Vítor Rosa, 123)

Espaço Universidade 12-09-2020 15:09
Por Vítor Rosa

O desporto e a sua imagem estão omnipresentes na sociedade americana. Três quartos da população praticam, veem e discutem “desporto” quotidianamente; e sabemos que as ideias, os valores e as crenças acabam por ter o poder de originar transformações.

Segundo dados mais gerais, um em cada dois americanos possuem uma peça de vestuário com um emblema de um clube. Numa perspetiva de ação social, os seres humanos necessitam de símbolos partilhados e de entendimentos comuns nas suas interações uns com os outros. O campeão, assim, personifica os valores liberais, a procura da performance, o culto elitista e do herói e a ascensão social. O confronto, a competição, a intensidade dos exercícios, a medição das performances, a procura do rendimento máximo, o treino racional e regular, a noção do progresso, etc. são alguns dos principais traços do desporto que, segundo Coubertin, difere totalmente da ginástica e dos jogos. Na verdade, ele fornece uma representação simbólica da sociedade civil face ao Estado federal, cuja intervenção, na ausência de um ministério dos desportos, se limita a lutar contra as apostas ilegais e a dopagem.

Contrariamente à configuração europeia, o desporto amador nos Estados Unidos da América é da responsabilidade das escolas e universidades, privadas e públicas, e não dos clubes e das federações, cujo papel consiste essencialmente em ocupar-se das seleções nacionais e do seu enquadramento. O organismo que tutela os campeonatos universitários, a National Collegiate Athletic Association (NCAA), gere as competições das ligas profissionais, tanto do ponto de vista da qualidade da competição, como da mediatização, nomeadamente do basquetebol e do futebol americano.

No domínio dos desportos coletivos existem quatro grandes ligas (a Major Baseball League, a National Basketball Association, a National Hockey League e a National Football League) e funcionam sobre os mesmos princípios. Os clubes são, no fundo, empresas franchisadas, tendo adquirido o direito de entrada que varia segundo a modalidade desportiva, os negócios da liga e a demografia, onde o clube se insere. Este modelo de gestão acaba por reforçar o financiamento dos mais variados projetos, sobretudo quando os proprietários dos clubes e dos estádios são os mesmos. Se é eficaz do ponto de vista económico, o modelo americano não poderá ser transporto, devido às questões culturais e jurídicas, integralmente na Europa.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

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