Alguns ligeiros pensamentos sobre o futebol (artigo de Manuel Sérgio, 319)

Espaço Universidade 27-12-2019 00:10
Por Manuel Sérgio

1. Quem ganha e perde jogos poucas vezes é o corpo, é quase sempre a alma. E há tão poucos treinadores que se ocupam da alma dos seus jogadores!                                                                                                                                                  

 

2. O primeiro Benfica-Porto realizou-se noventa e poucos minutos antes de nascer o mundo. Findo o jogo e com tanta balbúrdia e ressentimentos acumulados, ocorreu o big-bang.

 

3. No futebol, há mais instinto do que inteligência. Porque se utilizam mais os pés do que as mãos. No futebol, o que se perde de inteligência compensa-se com o instinto. Será por acaso que o o Eusébio era o “pantera negra”, o Kempes era a “gazela”, o Butragueño o “abutre”, o Ardiles a “formiguinha”, etc., etc.? O futebol é a mais espetacular celebração do instinto.

 

4. O futebol-espetáculo reproduz e multiplica, demasiadas vezes, a sociedade altamente competitiva em que vivemos. Se gostassem de ler, certas pessoas. ligadas ao futebol fariam d'O Príncipe de Maquiavel o seu livro de cabeceira. Mas não, um pouco de reflexão não é com eles. A sua cultura desportiva parece não passar da “doença infantil da banalidade”.

 

5. Se não existissem árbitros, seriam poucos os críticos do futebol, no nosso País. Tombaria sobre o futebol português um tédio irremediável, insuportável. Pois se há programas televisivos (não são todos, evidentemente) que levam duas horas a falar dos “erros dos árbitros”. Ou o futebol é só isto, ou aqueles senhores representam o zero nacional – consagrado!                                                                                                                                                                                                                              

6. Extraindo do maço, com solenidade, um cigarro, o escritor e jornalista brasileiro, Nelson Rodrigues costumava dizer. “Cada brasileiro, vivo ou morto, já foi Flamengo por um instante, por um dia”. E o Nelson era um fluminense doente. Ora, eu que sou belenenses, desde muito antes de ter nascido, sou forçado a dizer: “Cada português, vivo ou morto, já foi Benfica por um instante, por um dia”.                                                                                                                                                          

 

7. O Nelson Rodrigues era um criador de piadas incomparáveis. Como esta: “A fidelidade havia de ser facultativa”. Até no futebol! Quando será que nos convencemos que o espetáculo desportivo é a mais importante das coisas pouco importantes?                                                                                                                                                     

 

8. Não jogamos porque há jogo, mas há jogo porque jogamos. Daí, a irracionalidade que percorre o futebol onde quase todos pensam que ninguém ganha porque sabe, mas que sabe porque ganha. A irracionalidade, no futebol, é uma força latente. Se não se vê – paira!

 

9.  Não há jogos, há pessoas que jogam. Não há remates, há pessoas que rematam. Não há fintas, há pessoas que fintam. Se eu não compreender as pessoas que fintam e rematam, jamais entenderei as fintas e os remates.

 

10. Esta alegoria surge nas Teses sobre a Filosofia da História, um texto curto, fulgurante, desesperado, escrito por W. Benjamin, em Setembro de 1940, poucos dias antes de suicidar-se: “Paul Klee tem um quadro intitulado Angelus Novus. Parece um anjo que paulatinamente se afasta de algo que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca aberta e as asas insufladas. Assim deve ser o Anjo da História. O seu rosto está virado para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê apenas uma única catástrofe que vai amontoando escombros sobre escombros, lançando-os perpetuamente aos seus pés. O anjo gostaria de demorar-se um pouco mais, ressuscitar os mortos e juntar o que foi desmembrado. Do paraíso porém sopra uma tempestade que lhe agita as asas com violência e o impede de as poder utilizar. A tempestade impele-o irresistivelmente para o futuro, mas ele vira-lhe as costas, diante do monte de escombros que cresce até ao céu. A tempestade é aquilo a que chamamos progresso”. Ora, o progresso, que o século XVIII proclamou a sua grande paixão, conduziu a inúmeras ditaduras e à exploração da classe trabalhadora, fenómenos que ilustram o fracasso de um progresso sem valores de forte caráter antropológico. Temo que o progresso desportivo se resuma aos desempenhos espetaculares de atletas superdotados e supertreinados. Temo que muitos “agentes do desporto” desconheçam que há valores, para além dos económicos, ou de um individualismo sem regras, na prática desportiva. Temo que nas Faculdades onde o Desporto se estuda, sejam a fisiologia e a biomecânica as ciências fundantes e não a complexidade humana, no movimento intencional e solidário da transcendência. Ou seja, não temo o progresso, mas o progresso daqueles que o põem ao serviço de inconfessáveis interesses...

 

11. As indústrias culturais, designadamente o cinema, inventaram um homem e mulher novos: a estrela! Mas o star-system alargou-se ao Desporto e principalmente ao futebol, que o mesmo é dizer: são, vezes sem conta, alienação e fanatismo e mercado. E o que resta do humanismo de Espinoza e de  Kant e de Hegel e de Marx? E o de Jesus, o homem que é Deus e o Deus que é homem?                                                                                                                                                                     

12. É de Fernando Pessoa o Poema em Linha Recta: “Nunca conheci ninguém que tivesse levado porrada. / Todos os meus conhecidos têm sido /  campeões em tudo (…). / Quem me dera ouvir de alguém a voz humana; / que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; / que contasse, não uma violência, / mas uma covardia! / Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. /  Quem há, neste largo mundo, que me confesse / que uma vez foi vil? (…). / Arre, estou farto de semi-deuses! / Onde é que há gente no mundo?”. E o Fernando Pessoa nunca leu o que hoje se diz das celebridades futebolísticas. Trata-se de uma euforia que atinge o ridículo.                                                                                                                                                                   

13. É famosa a tese de Marx: “Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de diversos modos, mas trata-se de transformá-lo”. De facto, não é a filosofia que transforma o mundo; não é certamente só com teoria que se ganha um jogo de futebol. Mas, sem filosofia, não há transformação, nem conveniente, nem duradoura. Porquê? Porque quem não compreende não sabe transformar. Portanto, no remate da tese décima primeira sobre Feuerbach (“trata-se de transformá-lo”) não se trata de praticar sem pensar, mas de fazer mais humanamente o que se tem de fazer. Para transformar, humanamente, não há teoria sem prática, nem prática, sem teoria. Embora o primado da prática...                                                                                                                                                                                                                                         

14. Alfredo Teixeira, professor da Universidade Católica Portuguesa e um ensaísta questionador e denso, observa: "A posição dos indivíduos, na hierarquização social é, agora, relativizada pelo capital próprio das diferentes redes sociais. Neste quadro, as redes por afinidades ganham terreno face às estruturas que impunham a homogeneidade própria dos grupos sociais" (Religião na sociedade portuguesa, Fundação Francisco Manuel Dos Santos, Lisboa, 2019, p. 33). É nos Fundamentos da Metafísica dos Costumes e na Doutrina da Virtude que Kant propõe as suas definições de dignidade. Para ele, o ser humano é um fim-em-sí, o que significa não poder (e dever) transformar-se em instrumento, em objeto de quaisquer outros interesses. E porquê? Pela dignidade do ser humano, um ser com razão e liberdade, a qual (acrescente-se) é a presença da razão ao nível do agir. Portanto, a dignidade do ser humano impõe que o consideremos como um fim e não como um meio. Segundo os textos bíblicos, Deus fez o Ser humano à Sua imagem e semelhança. Fácil, à perspetiva cristã, fundamentar e delinear a incomparável dignidade do ser humano. Por isso, já o tenho dito: uma lágrima humana vale mais do que todas as taças e campeonatos do mundo!

                                              

15. No livro do meu querido Amigo e Mestre, José Eduardo Franco, intitulado A Europa ao espelho de Portugal - Ideia(s) de Europa na Cultura Portuguesa (Círculo de Leitores, Lisboa, 2019) pode ler-se: "A afirmação da ideia de Europa, no dealbar da Modernidade, não pode ser desligada daquilo a que Fernando Catroga, no seu livro sobre a problemática da secularização, chama "a depreciação sacral do mundo, a cientificação do uniuverso e a historicização do devir" de que o saber humanístico-renascentista foi protagonista. Portugal foi timoneiro neste processo, operando a revolução do conhecimento do mundo com a abertura proporcionada pelas viagens marítimas. É então que se vence o medo do desconhecido. Pela ousadia portuguesa, "o desejo revelou-se mais forte do que o medo", no dizer de Lucien Boia" (p. 44). Relembro as Sete Centúrias das Curas Medicinais do médico português, professor de anatomia em Ferrara,  Amato Lusitano (1511-1568), que chegou a ser considerado o mais notável anatómico do seu tempo. Portugal, com os Descobrimentos, rasgou horizontes de imaginação criativa, no conhecimento científico dos séculos XV e XVI. Dizem, por aí, com oratória enfática, que os nossos treinadores de futebol fazem, atualmente, o mesmo, por esse mundo além. Quero eu dizer: também eles rasgam horizontes de imaginação criativa, no conhecimento científico do futebol. Relembro-os, por ordem alfabética: em Fernando Santos, Jorge Jesus, José Mourinho, Manuel Jesualdo Ferreira, Manuel José, Nuno Espírito Santo, Paulo Fonseca, etc. - nalguns mais, noutros menos, em todos se descobrem assomos de indiscutível talento. Nalguns, que conheço melhor, aprendo com eles a aprender-me.

 

16. Mas é evidente que as razões das conquistas, bem amadurecidas em conhecimento e trabalho, dos nossos treinadores de futebol, não se devem à formação científica e pedagógica, únicas no mundo todo, dos mestres dos cursos de treinadores ou das escolas superiores de Desporto. O que cientificamente nós sabemos os outros também sabem. A ciência não tem adjetivo nacional. Não há sociologia portuguesa, nem matemática francesa, nem física inglesa, mas há sociologia e matemática e física, que se estudam em Portugal e França e Inglaterra. Acerca da filosofia o Padre Manuel Antunes, já o escreveu: "Sim: as filosofias têm uma pátria. Porém, esta é, muito mais que um espaço geográfico, um espaço espiritual" (Do Espírito e do Tempo, Edições Ática, 1960, p. 146). Ora, porque não há jogos, há pessoas que jogam, qualquer modalidade desportiva, cientificamente falando, é uma ciência humana. Que o mesmo é dizer: no futebol, antes da tática - está o homem; antes da técnica - está o homem; antes da preparação física - está o homem. Ou seja, é mais pelas suas qualidades humanas do que pelo seu saber livresco que o treinador se afirma e triunfa. O melhor teórico do mundo pode ser um péssimo treinador de futebol.                                   

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto  

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