Bruno Gama, que jogou no Dnipro, deu casa em Braga a funcionária que fugiu da guerra

Ucrânia 19.07.2022 12:29
Por Pedro Cadima

Bruno Gama jogou três épocas no Dnipro, entre 2013 e 2016, acabando por disputar uma final da Liga Europa, perdida para o Sevilha, apesar de ter ficado no banco. A passagem pela Ucrânia foi marcante na vertente desportiva e pessoal para o jovem de Vila Verde e o extremo do AEK Larnaca não esconde o desassossego pelas imagens da guerra na Ucrânia, já com meses, mas, agora, numa fase de incidência maior sobre a cidade onde habitou. 


«Foram anos importantes da minha vida e da carreira. Na altura foi uma mudança forte, que me fez conhecer outra cultura, outra realidade. Foi positivo, joguei sempre as competições europeias, uma final.  E gostei das pessoas. Claro que os últimos meses têm sido de um choque muito grande. Não dá para ficar indiferente ao que nos chega do país, da cidade onde vivi. Tenho falado com pessoas que estão a sofrer na pele com esta guerra. É complicado, enche-me de tristeza», relata a A BOLA.


«Mantenho contacto com alguns antigos companheiros, alguns amigos que ajudaram na logística no clube. Felizmente consegui ajudar uma funcionária do Dnipro a vir para Portugal. Colocamos-lhe essa hipótese, ela já conhecia o país, veio com as filhas e está num apartamento meu em Braga. Isto foi tratado também com o Nélson Monte. Não sabe quando pode voltar, é angustiante! Tentamos sempre ajudar pessoas que nos ajudaram», sublinha Bruno Gama.


«Muitas vezes o jogador vive numa bolha e não sente tanto as coisas que se estão a passar, mais a questão do idioma. No primeiro ano, algures em 2014, começaram a surgir problemas quando a Rússia tomou conta de Donestk e da Crimeia. Houve um clima de tensão, jogadores que fugiram dessa zona de conflito, saíram do país. As equipas libertaram-nos. Depois vivemos uma fase relativamente tranquila, foram dois anos onde não se ouviu falar de muita coisa, vivia-se com aparente tranquilidade. Na altura garantiram-nos que os problemas não chegariam à nossa região. Mas havia sempre receio, conversávamos e estávamos em alerta mal ouvíamos um avião. Não esperava que passado este tempo todo, pudesse acontecer uma coisa destas nos dias que correm», desabafa, apreensivo com os desenvolvimentos em Dnipro.


«Os relatos das conversas ao longo deste tempo muito daquilo que fomos sabendo. Muita tensão, fugas para os bunkers quando soava o alarme, mandavam-me algumas fotos. Agora estão novamente a passar dias mais difíceis porque intensificaram-se os ataques em Dnipro, a comunicação está mais apertada. É complicado viver em permanente alerta, nunca se pode confiar. Custa-me ver o que estão a passar, a destruição dos bombardeamentos», explica, partilhando o seu estado de espírito quando a guerra se anunciou e o medo em Dnipro tomou conta dos jogadores, incluindo o português Nélson Monte, que levou dias a procurar sair do país.


«Sei que foi um caos, esconderam-se…primeiro acho que foi no centro de treinos. Falei com o Nélson Monte algumas vezes, até porque a nossa relação começou quando ele foi para lá e pediu-me indicações do clube e da cidade. Quando começou o conflito, falamos logo. Não dá para imaginar o sofrimento de quem tenta escapar de um país em guerra, sabendo que podem cair bombas a qualquer momento. Não consigo pensar nisso. Recordo-me muito bem de uma cidade como Kharkiv, onde jogávamos e havia sempre uma grande rivalidade com o Dnipro da parte do Metalist. Agora vejo as imagens e é inconsolável ver tantas famílias afetadas, a perda de crianças em cidades onde passei alguns dias. Isso é o pior de tudo», salienta.

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