Football Leaks: Inspetora da PJ assume que assinou relatório sem ler

Justiça 22-04-2022 15:27
Por Redação

A 47.ª sessão do julgamento do processo Football Leaks, no Juízo Central Criminal de Lisboa, ficou marcada pelos depoimentos dos dois inspetores da Polícia Judiciária (PJ) que, em outubro de 2015, realizaram na estação de serviço da A5, em Oeiras, a operação de vigilância do encontro entre o então CEO da Doyen, Nélio Lucas, o advogado e colaborador Pedro Henriques e Aníbal Pinto, o outro arguido deste processo, que estava em representação de Rui Pinto.

 

Os juízes questionaram Aida Freitas e Hugo Monteiro na sequência das contradições em anteriores depoimentos dos dois inspetores da PJ, tendo a primeira testemunha assumido que assinou sem ler o Relato de Diligência Externa (RDE) dessa operação. O tribunal quis perceber as circunstâncias em torno do encontro, que sustenta a acusação do crime de tentativa de extorsão.

 

Aida Freitas entregou aos juízes documentos que, no seu entender, provam que foi o coordenador da investigação José Amador a escrever o RDE com base no relato dos inspetores, sem ter estado na estação de serviço. Já Hugo Monteiro, que tinha declarado que tinha sido ele a elaborar o documento, explicou que o fez com base na transmissão dos factos da diligência a José Amador. «Quando digo que elaboro um RDE falo do conteúdo», explicou, afirmando agora: «Quem redigiu foi o inspetor José Amador.»

 

À saída do tribunal, Aníbal Pinto mostrou-se «chocado com a facilidade com que inspetores da Polícia Judiciária mentem em tribunal». «Enquanto advogado e cidadão, irei levar este caso até às últimas consequências e irei apresentar queixas-crime. Aquilo que resultou é que, na última sessão, quem tinha elaborado, testemunhado e confirmado um RDE tinha sido um inspetor chamado Hugo Monteiro e uma inspetora chamada Aida Freitas. A inspetora Aida veio dizer que, afinal, quem tinha elaborado o RDE tinha sido o inspetor (José) Amador. O tribunal achou aquilo chocante. Feita a acareação, afinal quem fez o RDE foi o inspetor Amador. Não sei como é que o inspetor Hugo Monteiro confirma um RDE que ele não fez, que não consegue explicar e que leu em audiência e confirmou em audiência uma coisa que ele não fez, mas que assinou. Isto é demasiado grave para não ser punido em termos criminais e, da minha parte, irei para o Ministério Público.»

 

De resto, o depoimento de Rui Pinto está agendado para 13 de maio, porém, este está pendente da consulta do disco externo apreendido por parte da PJ, um processo que está atrasado. «Regista-se um atraso muito grande na PJ, na capacidade de indexação. Temo que o período previsto não se vá cumprir. Não é por falta de vontade do arguido, mas por dificuldades técnicas que se têm verificado até agora e entendo que seria bom o tribunal inquirir diretamente junto da PJ relativamente a como está essa análise», explicou Francisco Teixeira da Mota, advogado do fundador do Football Leaks, à saída do tribunal.

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