O atentado do Seixal (artigo de José Manuel Delgado)

CRÓNICAS DE UM MUNDO NOVO 05-06-2020 14:33
Por José Manuel Delgado

Os adeptos do Benfica têm todo o direito de estarem desiludidos com o resultado do jogo com o Tondela, atónitos pela falta de ideias da equipa e zangados com a fraquíssima intensidade dos jogadores.

 

Estivesse a Luz cheia de pescoços a segurar os cachecóis e os assobios no final do jogo não faltariam e demonstrariam uma justa irritação pelo ato falhado que foi a exibição de ontem.

 

Isto é futebol, e boa parte da magia do desporto-rei reside precisamente na relação amor-ódio entre equipa e adeptos, tantas vezes feita de altos e outras tantas de baixos, como qualquer paixão assolapada que se preze.

 

Mas há uma linha que não pode ser ultrapassada, seja em Alcochete, no Olival, no Seixal ou na estrada entre Guimarães e Braga: é a linha que divide o bem do mal, quem expressa a frustração e quem assume comportamentos de psicopata.

 

O que aconteceu ontem aos jogadores do Benfica, um atentado de paternidade ainda incógnita, que os sinais exteriores posteriores, nas casas de alguns jogadores e técnicos, indiciam ser de natureza interna, não é futebol, é crime organizado, é terrorismo, é selvajaria, é barbárie.

 

Porém, não sendo futebol, os clubes têm culpas históricas no cartório, porque criaram condições, umas vezes por ação mas, na maioria dos casos, por omissão, para que gangs de malfeitores passassem a fazer parte da vida dos emblemas.

 

Quem anda no futebol há anos suficiente sabe que as claques começaram por ser acarinhadas pelas direções, que as usavam como guarda pretorianas nas Assembleias Gerais que decidiam a vida dos clubes. Foi aí que o monstro foi criado, e hoje a criatura só obedece ao criador quando lhe convém.

 

E a culpa dos clubes aprofundou-se quando decidiram olhar para o lado, permitindo que a coberto do apoio às equipas se criassem zonas de venda de droga, de tráfico de bilhetes, de contrafação e de manifestações hooliganescas, que, de norte a sul, juntando mafias do dia e mafias da noite, mancharam a imagem do jogo, afastaram as famílias dos estádios e, em limite, tornaram os dirigentes, por cobardia, reféns da marginalidade.

 

O que aconteceu ontem ao autocarro do Benfica – e oxalá seja possível descobrir quem atirou as pedras e escondeu a mão, ao contrário do atentado ao autocarro da Casa do Benfica de Barcelos que ficou sem solução…- é, sem dúvida, um caso de polícia.

 

Mas se não servir, igualmente, com Alcochete ainda tão recente, de sinal de que é preciso tirar os hooligans do futebol – aqueles que combinam sessões de pancadaria e conspurcam as camisolas e os símbolos que envergam, com consequências gravíssimas – o melhor é desistir e entregar a chave aos gangs. E não me venham falar de uns serem melhores ou piores do que os outros, são todos farinha do mesmo saco, escumalha, na feliz expressão do presidente do Sporting (que tem sido corajoso numa luta em que devia ter recebido um apoio efetivo dos restantes clubes).

 

Os ingleses precisaram de bater no fundo, em Heysel, para tomarem medidas sérias que acabaram por erradicar os hooligans dos estádios. Tinham um problema colossal em mãos e foram capazes de resolvê-lo, criando condições para o advento da Premier League e a expansão da indústria do futebol. Por cá, infelizmente, quiçá à espera de uma tragédia maior, onde para a nova lei contra a violência no desporto?

 

PS – Uma nota final, politicamente incorreta. Se eu disser que, em Portugal, centenas de vezes, o autocarro da equipa visitante, especialmente naqueles jogos que acabaram por ‘entornar-se’, saiu do estádio sob uma chuva de pedras, não estarei a exagerar. Mas eram atos violentos, ainda sob a emoção do momento que não desculpava, mas explicava, os excessos. Coisa diferente é a premeditação do atentado, a frio, através de uma emboscada criteriosa e estrategicamente preparada. Espero que as autoridades tenham bem presente a diferença entre uma e outra…

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