Uma joelhada no racismo (artigo de José Manuel Delgado)

CRÓNICAS DE UM MUNDO NOVO 02-06-2020 10:32
Por José Manuel Delgado

Há quatro anos, Colin Kaepernick, ‘quarterback’ dos ‘San Francisco 49ers’, decidiu protestar contra a desigualdade racial e a brutalidade policial nos Estados Unidos e passou a colocar um joelho no chão, durante a execução do hino nacional, antes do início de cada jogo. A atitude, controversa, levou até o presidente Donald Trump a exortar os patrões da NFL a «despedirem quem não sabe respeitar o hino.» Na verdade foi mais ou menos isso que aconteceu porque, depois de uma carreira de sucesso, Kaepernick, nunca mais foi contratado.

 

Outros atletas, como a capitã da equipa feminina dos Estados Unidos, Megan Rapinoe, seguiram-lhe o exemplo, que passou a todas as outras modalidades.

 

A semente de rebeldia plantada por Kaepernick em 2016, medrou e transformou-se numa árvore frondosa em 2020, na sequência da crise racial que os Estados Unidos vivem hoje, após o assassinato do afro-americano George Floyd, quando estava sob custódia policial. E cruzou até o oceano e aterrou em Anfield Road, onde o campeão europeu de futebol ajoelhou simbolicamente, em solidariedade com a luta contra o racismo nos Estados Unidos. Mensagem poderosa, que o inglês Jadon Sancho, do Borussia Dortmund, e o francês Marcus Thuram, do M’gladbach, já tinham passado no na última jornada da Bundesliga…

 

E até Michael Jordan, que na década de 1990 se recusou a apoiar um político democrata, usando uma frase que ficou célebre - «os republicanos também compram ténis» - se juntou agora a esta onda de indignação que está a colocar literalmente ‘on fire’ uma América fora de horas.

 

É claro que o desporto, para não perder a inclusividade e a abrangência, não deve usado como instrumento para causas políticas.  Mas uma coisa são causas políticas e outra são causas sociais e civilizacionais. Nessas, é obrigação dos desportistas e de quem faz parte dessa família alargada, dizer presente, à imagem do que fez, muito recentemente, Ricardo Quaresma.

 

Portugal, neste âmbito, pode e deve orgulhar-se das campanhas a favor da libertação de Timor Leste, em 1999, que tiveram o desporto, e muito particularmente o futebol, na primeira linha do ativismo. Ninguém se escondeu, todos aceitaram dar a cara, e a comunidade desportiva saiu fortalecida de todo esse processo.

 

Não faz, pois, sentido, ver o desporto como um gueto, colocado fora do contexto da sociedade onde se insere, com as mesmas virtudes e vícios e bastas vezes com protagonistas comuns.

 

E reforço aqui, para terminar, usando dois exemplos, uma ideia que me parece irrefutável:

 

A) Um mau juiz que aceite fazer arte dos órgãos jurisdicionais de uma federação desportiva, será igualmente mau no cumprimento dessas funções; o mesmo é válido para um bom juiz.

 

B)  Com os políticos, a mesma lógica deve ser aplicada: se é corrupto no Governo, no Parlamento, ou na Câmara Municipal, sê-lo-á, certamente, em qualquer cargo do dirigismo desportivo. Mas nenhum será honesto na política e corrupto no desporto e vice-versa.

 

Quem não perceber esta realidade, não percebe nada…

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