Kristen Faulkner desclassificada: toda a história dos sensores de glicose

Ciclismo Kristen Faulkner desclassificada: toda a história dos sensores de glicose

CICLISMO16.03.202315:33

A desclassificação da americana Kristen Faulkner (Jayco-Alula) na Strade Bianche, tem levantado uma série de questões em grande parte pelo desconhecimento do que é um sensor de glicose e pelos regulamentos neste caso da UCI.

Vamos clarificar todas as situações e dissipar algumas dúvidas, porque além de ser utilizado em modalidades de resistência como ciclismo e atletismo, o sensor de glicose também é importante para os diabéticos que podem controlar a glicose no seu organismo.

Na Strade Bianche feminina disputada no sábado dia 4, a americana Kristen Faulkner classificou-se em terceiro lugar, atrás de Demi Vollering e Lotte Kopecky ambas da equipas SD Worx. A meio da semana seguinte a UCI avançou em comunicado, que estava a analisar a situação da ciclista, por possível infração ao ter utilizado um sensor de glicose.

No dia 13 e depois de ouvir a atleta, a UCI decidiu desclassificá-la e atribuir o terceiro lugar à dinamarquesa Cecília Uttrup Ludwig (FDJ-Suez), em virtude da corredora americana ter violado os regulamentos, que proíbem a utilização em competição do sensor. O artigo 1.3.006 diz; 'Dispositivos que registam dados fisiológicos, incluindo quaisquer valores metabólicos, como, mas não limitados a glicose e lactato, não são permitidos em competição'.

A ciclista reconheceu a infração e afirmou: «A minha intenção não era violar nenhuma regra ou obter vantagem que fosse injusta. Estou orgulhosa por ter corrida a Strade Bianche e extremamente desapontada com a decisão da UCI. Espero que um dia os monitores de glicose sejam permitidos nas corridas, por serem valiosos para os atletas e particularmente as mulheres cuidarem da saúde física, embora seja uma conversa para outra hora.»

Encerrado o capitulo desportivo, entramos na definição do que são sensores de glicose. As principais marcas no mercado são a Supersapiens e Abbot Libre Sense, que comercializam um pequeno sensor que é colocado na parte superior do braço com uma aplicação especial que faz parte da embalagem e que durante 14 dias envia constantemente dados sobre a quantidade de glicose no corpo do usuário.

A medição não é sobre o açúcar no sangue, mas sobre a quantidade de glicose no liquido intersticial. Este fluido intersticial é uma forma de fluido extracelular que preenche o espaço entre as células. A medição da glicose no açúcar do sangue é mais precisa porque as flutuações de glicose no liquido intersticial ficam atrás do nível de açúcar no sangue. No entanto, a vantagem das medições no liquido intersticial é que não existe a necessidade de exames regulares  ao sangue.

O monitor de glicose é originalmente um produto médico, que foi desenvolvido para ser mais fácil aos pacientes diabéticos, entenderem a quantidade de glicose no seu corpo. Nos últimos anos, a tecnologia também se espalhou para os desportos de resistência.

O líder da aplicação na medição de glicose no desporto é a Supersapiens. Esta empresa foi fundada há alguns anos por Phil Southerland e encontra-se no mercado desde 2020. O nome de Phil Southerland é conhecido no ciclismo, porque foi o fundador da equipa Novo Nordisk, que atualmente pertence à categoria ProTeams, na qual todos os seus ciclistas são diabéticos tipo 1, e que já participou na Volta ao Algarve.

A empresa com sede nos Estados Unidos, desenvolveu um aplicativo para tornar transparentes os dados dos atletas ligados ao sensor Abbot Libre Sense. Também produzem uma espécie de capa de borracha, que deixa o sensor menos vulnerável. Jumbo-Visma e Ineos-Grenadiers entre outras, são equipas de ciclismo que utilizam o biossensor e o sistema Supersapiens há alguns anos.

A utilidade de um monitor de glicose, como o  da Supersapiens, reside no facto de permitir que o atleta tenha uma visão precisa do seu suprimento de energias. Esse suprimento de energia não consiste apenas em glicose, mas é durante os esforços mais intensivos uma das fontes de energia mais importantes. Ao usar o monitor em treinos, um atleta pode aprender muito sobre a velocidade e quanta energia ele usa durante determinados esforços. Esta informação também pode ser usada para otimizar o plano de nutrição para treinos ou competições, para garantir que um desportista não fique sem energia. Para os aletas de alta competição é um produto extremamente útil, mas a sua utilização é proibido pela UCI no ciclismo.

Esta situação pode considerar-se discutível, dado que a UCI permite a medição da frequência cardíaca, temperatura corporal e a taxa de transpiração, que desenham a linha de valores metabólicos, deixando muitas duvidas no ar sobre a proibição de sensores de glicose em competição.