Casa Pia-Sporting: a crónica

Liga Casa Pia-Sporting: a crónica

NACIONAL19.08.202301:29

Valha a transparência quando falha o resto...
 

Hugo Miguel errou no primeiro golo do Sporting, e assumiu o erro. Passo certo no derrube das paredes de chumbo da arbitragem. Fora isso, no jogo jogado, leões mereceram a vitória 


Foi estranho, até perturbador, que num lance de golo em que parecia que Paulinho estava deslocado, não houvesse repetição televisiva, com as linhas fora de jogo a serem colocadas na Cidade do Futebol para dizerem a sua verdade. No fim do jogo, o Conselho de Arbitragem (CA) da FPF, num gesto de transparência inédito, assumiu que se tinha tratado de um erro humano, de Hugo Miguel (ia ser VAR no U. Leiria-Benfica B e já foi substituído), que se fixou, na Cidade do Futebol, no zoom feito ao ombro de Paulinho, deixando passar em claro o offside, por nove centímetros, do pé do goleador leonino. Antes da posição do CA ser pública, José Fontelas Gomes entrou em contacto com responsáveis de ambos os clubes, dando-lhes conta não só do erro, mas também explicando o porquê, e  lamentando a situação. Vai esta posição devolver pontos (hipotéticos) ao Casa Pia? Claro que não.  Mas pelo menos coloca o problema ao nível da falha humana, suscetível de consequências para quem não esteve, naquele instante, à altura das circunstâncias. Esta é a única via para desarmadilhar as teorias da conspiração, e retirar aos árbitros o estatuto de vacas sagradas que lhes era atribuído (pelo menos na perceção dos adeptos). E é um sinal de mudança que, à segunda jornada, se regista, e que cria expetativas para outros procedimentos, que marquem a diferença para um passado em que a opacidade era a regra.


Dito tudo isto, e assumindo como irreversível e lamentável o prejuízo de Casa Pia, há também que dizer que  a vitória assentou bem ao Sporting, mais empreendedor e consistente do que uns gansos que tiveram muita dificuldade em soltar as amarras da ambição, ao contrário do que se lhes viu na temporada transata.

Dois pontas-de-lança


Devem ter estralejado foguetes em muito arraial sportinguista quando foi conhecida a constituição da equipa do Sporting, que colocava, lado a lado (mais ou menos) Paulinho e Gyokeres, dando a direita a Edwards e a posição oito a Pedro Gonçalves. Talvez em jogos contra adversários que exijam um reforço do meio-campo, Rúben Amorim possa optar por uma solução diferente. Mas, frente a um Casa Pia super-organizado com base numa defesa a cinco, os aríetes leoninos complementaram-se, e geraram esta surpresa: pensava-se que Gyokeres ia ser o mais posicional, e a verdade é que o sueco andou por todo o lado, deixando a zona central ao antigo bracarense. E quem marcou os golos foi Paulinho, e não Gyokeres, a decidir tal como tinha feito há uma semana em casa frente ao Vizela.
Uma coisa, pelo menos, é certa, entre todas as cartas que esta época Amorim pode baralhar: o Sporting tem soluções para jogar, partindo de uma base de 3x4x3, de quase tantas maneiras como aquelas que há para cozinhar o bacalhau: mil e uma...


O jogo que começou inquinado
 

Verdade insofismável é que o jogo ficou marcado, na dinâmica, na tática e na disposição, por um golo do Sporting logo aos três minutos que não devia ter sido validado. E o Casa Pia demorou demasiado a reagir à desvantagem, permitindo aos leões um controlo quase sempre sereno da partida que nem as acelerações de Godwin incomodavam. Optando por não fazer pressão alta, os gansos deram folga ao elo mais fraco e macio do Sporting, a dupla Morita-Pedro Gonçalves, e permitiram que fossem os leões, que viram o árbitro (e o VAR?) fazer vista grossa a uma grande penalidade de Zolotic sobre Edwards, depois de Gyokeres ter testado o ferro da baliza de Batista, que estivessem quase sempre mais perto do golo. Foi preciso esperar pelos 40+6’ para Godwin, finalmente, acertar na baliza, obrigando Adán a boa defesa.


Empate, sobressalto, resposta
 

Na segunda parte, que começou sem nada de diferente relativamente à primeira metade, o Casa Pia empatou aos 58 minutos por Clayton, após passe de Varela, que beneficiou da suavidade do duplo-pivot leonino, para executar uma assistência perfumada. Três minutos durou a alegria casapiana, porque logo a seguir, Paulinho, à ponta-de-lança, faturou após cruzamento de Nuno Santos. O Casa Pia jogou o que tinha, arriscando mais, mas Amorim deixou o romantismo para outras núpcias e fechou a equipa com Matheus Reis na esquerda e Hujmand no meio, o que deu imediatamente ao conjunto o equilíbrio e a consistência que lhe garantiriam os três pontos, apenas postos em causa, aos 78 minutos, por Andrade, na sequência de um pontapé de canto. Mas a história do jogo estava escrita e os leões, que com Hjumand entram na idade adulta tática, não deixaram fugir o pássaro (neste caso, uma ave, o ganso).

O árbitro - NUNO ALMEIDA (nota 3)
Sem ajuda do VAR, colecionou erros, como, entre outros, além do primeiro golo do Sporting, um penálti não assinalado sobre Edwards, ou um amarelo mal mostrado a Mukembi.

Melhor em campo A BOLA - Paulinho (Sporting)