Avó queria Paulo Sousa na missa, ele fugia pela janela (descubra mais espantos)

Futebol 21-01-2021 17:18
Por António Simões

Acredite: pode ter muito com que espantar, muito com que surpreender- Com Paulo Sousa a tomar o comando da seleção da Polónia, o que aqui se vai contar é como ele se tornou jogador (e, sobretudo, do Benfica através de assinatura num capot de automóvel…), como a caminho da eternidade criou um Verão Quente no futebol em Portugal e como saltou, depois, do campo para o banco…

 

Paulo Manuel Carvalho Sousa nasceu a 30 de agosto de 1970, em Jugueiros, à beira de Viseu, cresceu, o pai era mecânico de bicicletas e motorizadas – e ele disse-o uma vez:

 

- Se não tivesse sido futebolista, talvez fosse professor do secundário.

 

Cedo se percebeu jeito que tinha para o futebol, o encanto que era ter a bola a deixar-lhe o pé mas complicados foram os seus primeiros tempos de jogador no Repesenses por causa da avó. Sim, a senhora, muito devota a Deus, achava que à hora dos jogos o neto devia era estar na missa – e fazia tudo para evitar que Paulo fosse

 

- Lá para essa maluquice da bola!

 

Por vezes, para a fintar, saltava, sorrateiro, pela janela, adiante da casa tinha a carrinha do clube para o apanhar. Sportinguista, os seus ídolos eram o Jordão e o Manuel Fernandes, mas também o Fernando Gomes e o Nené.

 

A assinatura no capot do automóvel (e o atraso fatal do sportinguista)

 

Ao passar dos infantis para os iniciados do Repesenses já ninguém tinha dúvidas: era craque, craque mesmo. Por isso, foi sem surpresa que Sporting e Benfica o puseram debaixo de olho. O emissário benfiquista chegou primeiro a Jugueiros, o pai, apesar de sportinguista fanático, achou boa a proposta, deu-lhe a sua palavra – e quando o outro, o sportinguista, lá foi lamentou, que o que estava feito, feito estava:

 

- Tinha assinado o contrato no capot de um automóvel.

 

Paulo Sousa tinha 15 anos – e foi viver para Lisboa:

 

- Tomei a opção da aventura no futebol, correndo riscos. Durante oito anos vivi longe da família, embora espiritualmente os meus pais estivessem sempre comigo, de certo modo perdi a adolescência, tornei-me um adulto precoce. Nesse tempo posso dizer que quase só tive como companhia a música de que gostava. Esses tempos em Lisboa fizeram com que construísse a minha personalidade, com que me fechasse mais em mim mesmo, me tornasse mais reservado, sobretudo enquanto não conhecesse bem as pessoas...

 

Não fugiu para jugueiros por ter o senhor Maia atento, à porta do lar

 

Houve momentos em que as saudades da terra apertaram mais – e Paulo Sousa esteve para fugir de onde o Benfica o hospedera:

 

- Fez as malas mais do que uma vez, quem sempre o impediu de partir foi o senhor Vasco Maia.

 

Recordou Arnaldo Cunha, seu treinador nos juniores.

 

Ao Benfica chegou como ponta de lança, mas depressa lhe perceberam mais fulgurante outro talento:

 

- Era um médio defensivo já com um notável sentido de modernidade, criava situações de lançamento com muita facilidade, era um excelente distribuidor, percebia de forma perfeita a lógica dos avançados.

 

Fez 18 anos e não fez o que era normal os jogadores da sua idade fazerem: tirar a carta, comprar um automóvel. Quis, antes, juntar dinheiro, todo o primeiro dinheiro que foi ganhando no Benfica, com um propósito: comprar um andar para os pais.

 

Benfica pensou emprestá-lo ao Lusitano de Vila Real de Santo António, Eriksson não deixou

 

No seu primeiro ano de sénior, a ideia entre os benfiquistas foi emprestá-lo ao Lusitano de Vila Real de Santo António. Não o quiseram – que era novo de mais, preferiam jogador mais maduro. Era o destino a marcar-lhe a hora: essa foi a razão porque foi, quase como um contra-peso, para a Suécia fazer o estágio de pré-época – e bastou uma semana para Eriksson decidir colocá-lo no plantel. Antes ainda dos 20 anos, a 25 de outubro de 1989, estreou-se na primeira equipa, com vitória por 2-0 sobre o Belenenses na Supertaça, entrando aos 68 minutos para o lugar de Lima – e na época seguinte foi já uma das suas pedras-chave, deixara de ter Thern a fazer-lhe sombra...

 

Jorge de Brito desviou Futre de Alvalade, Sousa Contra prometeu vingança e... para a baliza do Benfica foi Paulo Sousa

 

Em janeiro de 1993, Carlos Queirós ainda tinha quente do sonho do Mundial dos Estados Unidos  e ao chegar à seleção, Paulo Futre afirmou:

 

- Atlético de Madrid jamais!

 

Sousa Cintra convidou-o para almoçar, foi buscá-lo ao estágio, ao Hotel Praia-Mar, a Carcavelos, arrastou consigo jornalistas e fotógrafos – e antes da entrada no restaurante escutou-lhe, comovido, o desabafo:

 

- Saí do Sporting por dinheiro, regressarei com o coração...

Discretamente entrou o Benfica na corrida – e dois dias depois, Jorge de Brito anunciou o acordo para a transferência de Futre, envolvendo verbas ao redor de um milhão de contos – e a garantia de um ordenado mensal de 30 mil:

 

- O Benfica chegou-se à frente, sinto muito pelo Sporting.

 

De orgulho ferido, Sousa Cintra lançou-lhe em réplica:

 

- Futre é um mercenário, só com olhos no dinheiro, um homem sem dignidade, que nem respeitou a sua própria palavra...

 

Cintra decidiu cortar relações com o Benfica – e prometeu vingança...

 

Esse Benfica já com Paulo Futre era o Benfica de Toni e Jesualdo – e a 10 de abril de 1993 foi jogar ao Bessa em noite de temporal. Esteve a perder por 1-0, aos 58 minutos já ganhava por 3-1. (Antes, Futre talvez tenha passado pelo falhanço mais caricato da sua vida: depois de fintar Lemajic, com a baliza toda escancarada, atirou ao lado...)

Nélson Bertolazi entrou, sorrateiro, na área, Neno derrubou-o estupidamente – e para a baliza foi Paulo Sousa. Só por uma nesga não defendeu o remate de Artur, mas, nos quase 20 minutos em que lá esteve, fez defesa assombrosa a remate de Bobó, a defesa que segurou o 3-2.

 

Na jornada seguinte, decidia-se o campeonato – e empatando na Luz 0-0, campeão foi o FC Porto. A aposta em Futre com 600 mil contos adiantados pela RTP rendeu apenas a Taça de Portugal, nos 5-2 ao Boavista – e logo depois abriu-se no Verão Quente a vingança fria que Cintra prometera.

 

(Foto: Arquivo A BOLA)

 

Como o Benfica perdeu o milhão que queria e a Sousa Contra bastaram 350 mil contos (e até entrou Eusébio na comparação)

 

Ficara, entretanto, a saber-se que Jorge de Brito retirara do clube mais de 800 mil contos que lá injetara – e que para o compensar pedira a Manuel Barbosa que tratasse da venda de Paulo Sousa para Itália. A Juventus ofereceu 750 mil contos, o Benfica marcou a fronteira ao negócio: por menos de um milhão, não. A Sousa Cintra bastaram 350 mil para o desviar para Alvalade...

 

Descabelado, Barbosa ameaçou Cintra, ameaçou Sousa, deixando até descair em maldição:

 

- Todos os que me traíram morreram para o futebol...

 

Tal como acontecera com Eusébio, falou-se de raptos – e outras rocambolices, mas logo Paulo Sousa apareceu em A BOLA a desmenti-lo. Disse e redisse que estava ansioso por sair do Benfica e disparou:

 

- Os jogadores são tratados como cães. Eu também sou gente. Como é possível darem uma procuração a um empresário para tratar do meu futuro? Eu é que teria de ser consultado em primeiro lugar para dizer aquilo que queria. Eu também sou gente e o que o que esse sr. Barbosa queria era ganhar dinheiro à minha custa.

 

Carlos Queirós pensou castigá-lo, a Juventus voltou ao ataque, Pavarotti encantou-se...

 

In extremis, Jorge de Brito conseguiu segurar João Pinto – e era já outra época quando João Pinto foi, deslumbrante, a Alvalade ganhar o campeonato ao Sporting, na noite dos 6-3. Antes, o Sporting perdera com o FC Porto – e nas cabinas estalou bronca: Paulo Sousa, acusado de indisciplina por Carlos Queirós, já não regressou ao relvado. Pensou castigá-lo e não o pôr a jogar contra o Benfica, voltou atrás quando o convenceram de que era dar o joker ao adversário e pior: havia no seu contrato cláusula que previa que quando não jogasse teria direito a prémios pagos a... 150%!

 

A Juventus voltou a atacá-lo no verão de 1994. A Roma também entrou na jogada – e Paulo Sousa não se importou de perder 200 mil contos para apostar numa equipa ganhadora. Apostou bem.  Pela transferência, o Sporting recebeu 800 mil contos, Paulo Sousa ficou a ganhar 140 mil por ano.  Ao ouvir a notícia do acordo, Luciano Pavarotti encantou-se:

 

- Quem constrói uma orquestra não pode começar pelo primeiro violino ou pelo trombone, deve começar pelo maestro. É o que Sousa é...

 

Começou o campeonato e depressa se escreveu na Gazzetta dello Sport:

 

- O meio campo da Juve tem, finalmente, um regista. Sousa ainda não é Platini, mas já é tão decisivo como Platini era. É o homem do ritmo, tem uma dinâmica excecional e uma incrível constância de movimentos.

 

Ganhou o Campeonato e a Taça, o Guerin Sportivo considerou-o o melhor jogador do cálcio de 1994/95. Na época seguinte arrastou a Juventus à conquista da Liga dos Campeões. Mudou-se para Dortmund – e voltou a ser campeão europeu pelo Borussia. Juntou-lhe a Taça Intercontinetal – e foi o seu último título. Em 1998/99 saltou para o Inter, passou para o Parma, andou pelo Panathinaikos – e em 2002 despediu-se de jogador no Espanhol:

 

- Estive perto de assinar pelo FC Porto, é verdade. Houve essa possibilidade antes e depois do Espanhol. Mas, no último caso, estive ainda mais próximo de voltar ao Benfica. Por

que é que não regressei? É passado. Estou mais direcionado ao presente e ao futuro. Não procuro o meu passado por nada.

 

(Foto: Arquivo A BOLA)

 

Patrão da Fórmula 1 telefonou-lhe das boxes a ordenar-lhe a substituição, virou-lhe as costas

 

Para a sua nova vida, a vida de treinador, Gilberto Madaíl chamou-o à FPF, foi treinador da seleção sub-16 – e em novembro de 2008 anunciaram-no como treinador do Queens Park Rangers. O clube tinha um dono famoso: Fabio Briatore, o então responsável pela equipa de F1 da Renault – e a aposta em Paulo Sousa fora conselho de José Mourinho e Luis Felipe Scolari.

 

Estando-se em abril de 2009, no intervalo do jogo entre o QPR e o Crystal Palace, Briatore ligou das boxes do GP da Malásia a Paulo Sousa, ordenando-lhe que tirasse imediatamente Liam Miller da equipa, pusesse Lee Cook no seu lugar. Miller ficou no balneário, é certo – mas, logo depois, demitiu-se ele, não aceitava que ninguém interferisse nas suas decisões -e Paulo Sousa já ficara com pedra no sapato por Briatore ter despedido sem razão Bruno Oliveira, o seu adjunto.

 

Foi para o Swansea, trocou-o pelo Leicester, arrependeu-se:

 

- Sair do Swansea foi uma má decisão, estávamos tão próximos de chegar à Premier League...

 

Saltou da segunda divisão inglesa para o Videoton – e juntou à Supertaça da Hungria o o apuramento para a fase de grupos da Liga Europa, depois em 2012/2013 foi campeão. Jordi Cruyff desafiou-o para o Maccabi Telavive – e também ganhou a Liga de Israel.

 

Seguiu-se o Basileia – e o que ninguém imaginava, Paulo conseguiu: não se ficou pela fase de grupos da Champions, afastou o Liverpool dos oitavos de final – e Georg Heitz, diretor desportivo do Basileia, não deixou de o vaticinar:

 

- Não sei se vamos conseguir aguentar o Paulo mais que um ano. Não tenho a mínima dúvida de que brevemente vai treinar um dos 10 melhores clubes europeus.

 

Campeão suíço em 2014/15, seguiu-se no caminho a Fiorentina, o Tianjin Quanjian e o Bordéus – e, agora, a seleção da Polónia, a Polónia que tem o Melhor Jogador do Mundo (em título), o Robert Lewandowski…

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