«Esta época, 92 por cento das decisões do VAR repuseram a verdade desportiva»

Entrevista 18-12-2020 11:18
Por Entrevista de Ricardo Quaresma

O VAR chegou ao futebol português no início do mandato de José Fontelas Gomes. A tecnologia não é, contudo, tão unânime quanto se poderia esperar à partida. Em entrevista a A BOLA, o presidente do Conselho de Arbitragem diz que não está surpreendido com as críticas ao uso da ferramenta. Já as esperava. Acredita que se pode melhorar, sim, mas diz que é preciso tempo. E vontade de todos.

 

- Teve, nos últimos três anos, o auxílio do VAR, embora recorde o que me disse na primeira entrevista sobre o videoárbitro, vaticinando, e cito-o, que seria «mais uma arma de arremesso a utilizar pelos clubes». Confirmou-se?

 

- Acho que está comprovado. Aquilo que quis dizer naquela altura foi que o VAR seria mais um foco para se falar de arbitragem. Já nessa altura dizia, e continuarei sempre a dizer, que o VAR não veio para acabar com todos os erros da arbitragem. Em primeiro lugar pelas próprias restrições do protocolo. E, em segundo lugar, não nos podemos esquecer que é uma pessoa que está daquele lado. Continuará sempre a ser uma pessoa que estará daquele lado. Nada daquilo é automático. Há sempre lances de interpretação, há sempre lances em que não vamos ter uma opinião unânime. São aqueles a que na arbitragem costumamos chamar de lances cinzentos. E esses criam sempre uma diversidade de opinião que leva a que lá fora, mediante aquilo que é só, muitas vezes, a nossa paixão clubística, exista este ruído. Claro está que já tivemos os nossos erros, que não deviam ter acontecido. Faz parte e nunca fugimos a isso. Mas trabalhamos sempre para ser melhores.

 

- Continua, portanto, embora não seja uma ferramenta tão unânime como se calhar se esperaria que fosse, convencido da utilidade do VAR?

 

- Não tenho a menor dúvida e é nisso que todos nos devíamos focar, naquilo que o VAR nos trouxe. Está mais do que comprovado nas inúmeras decisões e alterações de decisão que foram tomadas. Veio trazer mais verdade desportiva. Se não fossem as intervenções todas que ocorreram, pelo menos as boas, certamente teríamos muitos mais erros, muitos mais resultados que não seriam corretos. Acho que todos estamos de acordo quanto a isso.

 

- Consegue sustentar essa afirmação em dados estatísticos?

 

- Não temos dados das épocas anteriores, daquelas que antecederam o VAR. Mas posso dizer-lhe, por exemplo, que este ano 92 por cento das intervenções foram corretas, foram decisões que repuseram a verdade desportiva. Estamos a falar de 92 por cento. Se isto nos satisfaz? Não. Vamos trabalhar para chegarmos a uma percentagem ainda maior. Mas é uma percentagem que nos permite dizer que temos hoje uma maior verdade desportiva no futebol. É só pensarmos nos erros que tinham acontecido se não tivéssemos 92 por cento de intervenções corretas. Ou olharmos para o que acontecia há 20 anos. Porque os árbitros não erram só de hoje. Já erravam há 20 anos.

 

- Mas ainda assim há oito por cento de decisões erradas, mesmo com o VAR. Como explica ao adepto comum que um árbitro sentado numa sala, com vários ecrãs à disposição, não veja um lance, e falemos de forma geral, que é depois interpretado de forma unânime por especialistas em arbitragem ou até por leigos no assunto?

 

- É simples. É um ser humano. E não podemos confundir aquilo que é a ferramenta, o VAR, com o que são as decisões tomadas por um ser humano. E esse tipo de decisões, até porque fazemos um acompanhamento muito próximo do trabalho do VAR, preocupam-nos, como deve calcular. O que fazemos é averiguar, perceber o que aconteceu e melhorar para que não volte a acontecer. Pelo menos com esse elemento que esteve nesse momento naquela função. E o que detetamos, colocando isto em termos muito simples, é que esses erros ocorrem em todo o lado. Em Portugal, em Espanha, por exemplo, só para falar de um país que nos é mais próximo. Tem a ver muito com o que é a falta de concentração nesse momento, ou o videoárbitro focar-se num determinado ponto, ou numa determinada situação no ecrã, e não ver a outra. Isso acontece-nos muitas vezes quando estamos a ver televisão. Estamos a ver tudo e não estamos a ver nada. Resumindo, tem muito que ver com a falta de concentração num determinado momento. É a nossa análise a esse tipo de lances.

 

- Só isso?

 

- Além da falta de concentração há a pressão. Muita gente lá fora pensa que não há qualquer pressão dentro daquela sala. Mas a pressão é enorme. Aquilo que vamos percebendo junto dos árbitros é que, em termos de pressão, preferem estar no campo do que dentro daquela sala. Porque no campo correm, falam, gesticulam… Ali dentro estão fechados naquela sala, concentrados. As pessoas lá fora não entendem, mas há muita pressão. A pressão de fazer bem. Porque os árbitros querem fazer bem. E algumas vezes essa pressão leva-nos a cometer erros.

 

Leia a entrevista na íntegra na edição impressa ou digital de A BOLA

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