ANÁLISE: algumas ideias e conclusões sobre o clássico do Dragão

FC Porto-Sporting 28-02-2021 20:07
Por Luís Mateus

Não é por haver esquemas diferentes que duas equipas não podem encaixar taticamente. Escrevi-o na antevisão ao clássico deste domingo n’A BOLA 3D e foi mesmo o que aconteceu no Dragão. O FC Porto alinhou pela primeira vez em 4x4x2, como se esperava, diante do Sporting, mas no momento defensivo a ideia mais forte foi bloquear a construção do rival o mais perto possível da baliza. Também o Sporting partia de uma vantagem pontual que permitia baixar confortavelmente o bloco, mas quis deixar uma mensagem afirmativa desde o apito inicial, fazendo uma pressão mais incisiva do que o habitual para evitar que o adversário estivesse confortável a partir de trás.

 

As estatísticas acabam por ser favoráveis aos dragões: 14 remates contra quatro, mas três contra zero enquadrados, que originaram três defesas de Adán, apenas uma de maior grau de dificuldade: aos 27 minutos, na sequência de um remate cruzado de Manafá. Mehdi Taremi teve as duas melhores oportunidades do FC Porto, aos 57 e 75 minutos, sendo que na primeira acerta mal na bola depois de um cruzamento de Corona e na segunda atira por cima, na sequência de um passe atrasado de Manafá. Há mais uma incursão de Zaidu pela esquerda, com um remate cruzado ao lado do poste esquerdo de Adán, e pouco mais.

 

O Sporting tem o melhor momento na transição conduzida por Matheus Nunes, aos 73 minutos, que termina com um remate por cima.

 

Cinco dos tiros do FC Porto resultam de bolas paradas, o Sporting não consegue nenhum.

 

Se continuarmos nas estatísticas, o FC Porto conseguiu muitos mais passes curtos (418-324), enquanto o Sporting foi mais vezes obrigado a jogar longo (59-76). Setenta e nove por cento dos passes do Sporting foram progressivos, contra 66 % do FC Porto, mas 151 dos feitos pela equipa de Conceição foram conseguidos no último terço (32%) contra 96 (24%) dos leões, o que dá ideia de um maior domínio da equipa da casa, em parte consentido porque o empate servia a Rúben Amorim e companhia e por também Tiago Tomás ter ficado com o tempo cada vez mais isolado no momento com bola. Faltou aos leões em certas alturas um jogador rápido e forte no 1x1 que sozinho pudesse quebrar linhas.

 

O bloqueio dos laterais

 

O FC Porto posicionou-se alto para pressionar de imediato a saída do Sporting, que raramente procura o ‘duplo-pivot’, mas sim os laterais para sair e, estes por sua vez, apoios frontais para libertar no 'terceiro homem' (aí sim, alguém do duplo-pivot, já virado para a baliza contrária). Sérgio Conceição pediu a Corona (e Uribe) e Otávio (e Sérgio Oliveira) para cair respetivamente em cima de Pedro Porro e Nuno Mendes, com os médios a pressionar a linha de passe vertical por dentro e os dois avançados a tentar bloquear a ligação entre os centrais. Durante algum tempo, os leões não conseguiram sequer ter tempo de meter longo, porque a pressão colocava a bola quase sempre coberta.

 

Os dragões conseguiram aproveitar alguns erros e foi a partir daí que criaram parte do perigo, como na primeira jogada que Taremi desperdiça, que resulta de um passe intercetado a Nuno Mendes para o corredor interior.

 

Pressão para bater longo

 

Do outro lado, o Sporting tentou provocar distúrbios na construção do FC Porto, pressionando os centrais até à bola entrar no guarda-redes, com Tiago Tomás a ter essa missão de sacrifício e os extremos, médios e os laterais a ajustar consoante a posição da bola. Aí, esta saía quase sempre longa, destacando-se a forma como o Sporting conseguiu dividir os duelos aéreos (19, contra os 20 do FC Porto).

 

Dinâmica de corredor

 

A maior parte das jogadas de perigo do FC Porto resultou da dinâmica criada no corredor direito por movimentos de rotura de Manafá, muitas vezes aparecendo como ‘terceiro homem’ no ataque à profundidade (obrigou a defesa de Adán e à segunda oportunidade desperdiçada por Taremi). Sérgio Conceição quis também sobrecarregar esse flanco, com a presença de Corona e as diagonais de Marega, desestabilizando Nuno Mendes e Feddal, e também obrigando Sebastian Coates a trabalho de líbero (fundamental aquele corte ainda na primeira parte quando já parecia ultrapassado pelo maliano).

 

A substituição que quase ganha o jogo

 

Matheus Nunes podia ter resolvido. Além de ajudar a tapar caminhos para a sua própria baliza, como é natural, com o jovem médio, o Sporting passou a ter capacidade para levar a bola no pé, pelo flanco, já que se colou mais à direita – e já não é a primeira vez que Amorim tenta algo semelhante com o centrocampista brasileiro. Matheus até fez falta no primeiro tempo, com João Mário – que começou mal, mas foi estabilizando até se tornar um dos mais lúcidos – e Palhinha a não serem jogadores de transporte e drible.

 

Rúben Amorim percebeu que o espaço, o pouco que havia, estava nas laterais, sobretudo com o all-in portista, depois da entrada dos desequilibradores Luis Díaz e Francisco Conceição, e o recuo de Corona para a defesa.

 

Apesar do talento que ambos possuem, o treinador do FC Porto continuou a tentar forçar por dentro, onde o metro quadrado estava caríssimo. Não mudou nada.

 

Pouca qualidade, muitas faltas e perdas de bola

 

A luta a meio-campo foi intensa, com muitos duelos individuais, bolas perdidas e maus passes. O clássico teve 36 faltas (20 para os dragões e 16 para os leões). Perdeu-se a posse de bola 62 vezes (32-29), por culpa também de um elevado número de interceções (5-13), alívios (9-17), desarmes conseguidos (20-21) e bloqueio de remates e cruzamentos (15-8). Tudo dados estatísticos do site especializado whoscored.

 

Reforço de identidade e mensagem

 

FC Porto e Sporting mantiveram a sua identidade no Dragão, mas o ponto de partida era diferente, desde logo face à vantagem pontual dos de Alvalade. Os leões entraram com altos níveis de concentração e a querer mandar na partida, mas naturalmente jogaram também com os resultados possíveis, sentindo-se confortáveis com um posicionamento mais baixo e com menos bola, que até anulava de certa forma um dos pontos fortes do adversário: o ataque à profundidade de Marega. Já os de Sérgio Conceição continuam sem vencer o rival e estiveram longe da exibição (e do resultado) que certamente desejariam e que podia fazer abanar o opositor ao ponto de conseguir ultrapassá-lo no sprint para o título.

O Sporting foi a equipa sólida que tem sido e é sua a mensagem mais forte que sai do Dragão.

 

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LUÍS MATEUS é jornalista, analista e comentador de futebol. Foi diretor do MaisFutebol e editor de desporto da TVI, escreveu para o «Expresso», «Público» e zerozero, e comentou ainda para a TVI, Eleven Sports e TSF. Atualmente escreve e comenta no site e no jornal «A Bola» e n’A BOLA TV. Pode segui-lo no Twitter ou no Facebook.

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