30 Setembro


Outsiders (artigo de Vítor Rosa, 177)

Espaço Universidade - 22-11-2021 12:22
Por Vítor Rosa

A publicação do livro Outsiders, do sociólogo americano Howard Becker, de 1963, continua a ser um dos mais importantes no que diz respeito à sociologia do desvio. Na sociologia americana, o termo “desviante” possui um sentido mais abrangente do que “delinquência”. São qualificados “desviantes” os comportamentos que transgridem as normas aceites por determinado grupo social ou por determinada instituição. Esta categoria inclui os atos sancionados pelo sistema jurídico-policial. Com o seu trabalho, Becker contribuiu para impulsionar o re(interesse) pelos estudos de terreno em sociologia, em particular pela observação in loco. A sua pesquisa insere-se numa das principais correntes da sociologia americana, conhecida por “Escola de Chicago” ou “interacionismo simbólico”. De referir, aliás, que Becker estudou sociologia na Universidade de Chicago. O ponto de partida de Outsiders, e da carreira de sociólogo de Becker, é o seu estudo sobre músicos de jazz. Muito jovem, este sociólogo tocou piano nas orquestras de Chicago. Graças a um pequeno financiamento do Institute for Juvenile Research, Becker realizou várias entrevistas com fumadores de marijuana, com a intenção de provar a tendência indutiva utilizada por outro investigador num estudo de opiomania, descartando-se da perspetiva sobre a delinquência.

Os grupos sociais instituem normas e esforçam-se por as aplicar. Elas definem os modos de comportamento sobre o que é “bem” e o que é “mal”. Quando um indivíduo transgride uma norma em vigor, pode ser visto como alguém em quem não se pode confiar, segundo as normas acordadas por determinado grupo. Ele é considerado estrangeiro ao grupo (outsider). Mas o indivíduo que é assim etiquetado como “outsider” pode ver as coisas de forma diferente. Ele pode não aceitar a norma segundo o qual o julgam e nega àqueles que o julgam a competência ou a legitimidade para o fazer. Assim, o transgressor pode estimar que os julgamos são “estrangeiros” ao seu universo.

Vários sociólogos já referiram que os desvios são necessários nas sociedades. Ela tem uma função adaptativa, impulsionando a mudança. É um erro olhar para o desvio segundo uma perspetiva apenas negativa.

Servem estas considerações, para dizer que o mesmo se passa no desporto, sobretudo nos casos de dopagem. O comportamento prevaricador dos atletas é, muitas vezes, relativizado. No processo de luta contra a dopagem, existem várias contradições: a primeira, é o argumento da defesa da igualdade na competição; a segunda, é o argumento da defesa da saúde dos atletas, quando não são tomadas medidas concretas contra os danos causados pelos excessivos treinos e as lesões que são contraídas na prática desportiva. No combate à dopagem, uns defendem mais sanções, outros mais informação e educação. Os obstáculos são de diferente ordem: científicos, regulamentares e económico-políticos. Em algumas entrevistas a atletas dopados verifica-se que eles têm o mesmo discurso apontado em Becker. Quem está de fora de uma determinada modalidade desportiva, desconhece as normas dos grupos. Tal como os consumidores de marijuana que Becker estudou, um atleta que se dopa ocasionalmente só pode se iniciar num modo de dopagem mais sistemático e regular se ele encontra uma fonte de aprovisionamento estável e pelos encontros mais duráveis com outros consumidores. A dopagem não é uma ação puramente pessoal. Existem fatores sociais externos que exercem uma influência fundamental no comportamento dos atletas.

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

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