O Questionamento Crítico (artigo de Manuel Sérgio, 314)

Espaço Universidade 18-11-2019 20:30
Por Manuel Sérgio

“O que posso conhecer? O que devo fazer? O que posso esperar? O que é o homem?”. São, no superior entendimento do Kant (1724-1804), as quatro questões que formam o campo da filosofia. Para ele, que assim revela, “grosso modo”, o território de uma disciplina, a primeira questão corresponde à metafísica, a segunda à moral, a terceira à religião e a quarta à antropologia. No século XVIII, o filósofo reproduzia um tempo que lhe exigia fosse, simultaneamente, matemático, físico, moralista, naturalista, teólogo, etc. A História Universal da Natureza e Teoria do Céu (1755) consideram-na alguns físicos de projeção  mundial, como uma prefiguração da cosmologia hodierna. Kant foi mesmo o primeiro sábio a sugerir a existência das galáxias. Leibniz (1646-1716), o teórico da “harmonia pré-estabelecida do mundo”, não era. unicamente, o sonhador nefelibata que o Voltaire ridicularizou no Cândido. Ele, para além de filósofo, foi historiador, diplomata, matemático e pessoa que sentia um prazer enorme em viajar. É evidente que, sendo embora cristão católico, o meu pensamento é bem mais próximo de Voltaire do que de Leibniz, pois que sou em crer que, como aprendi no Padre Teilhard de Chardin, a Evolução começa na cosmogénese, passa pela biogénese e a noogénese, rumo â cristogénese. Todo o progresso é movimento e, no ser humano, é transcendência. A minha definição de motricidade humana é esta: “o movimento intencional e solidário da transcendência”. A intencionalidade, escreveu Lévinas, é “essencialmente o ato de emprestar um sentido”. Dar um sentido à vida é entendê-la como matéria que se transformou em cultura, em espírito, num processo ininterrupto de hominização de Deus e divinização do homem. O homem é tanto mais homem quanto mais se aproxima do Absoluto – afinal, o sentido último da Evolução.

 

Há quem conceba a filosofia, principalmente como um trabalho de reflexão crítica; outros pretendem, com ela, revelar as verdades últimas (fundantes) sobre o Homem, a Vida, a Sociedade e a História; outros, por fim, vêem na filosofia uma escola de sabedoria e uma arte de viver. O questionamento crítico é, no meu entender, a grande tradição filosófica que, nascendo em Sócrates, chega a Wittgenstein, passando por Kant. Para estes filósofos, o papel da filosofia situa-se num questionamento constante das ideias recebidas, do “magisterdixismo” arrogante e dos conhecimentos estabelecidos. A atividade crítica, designadamente em muitos dos comentários ao futebol de altíssima competição e a um certo academismo estéril (sirvo-me do título de um livro célebre, de Jorge de Sena), sobe ao posto máximo do “Reino da Estupidez”. De facto, trata-se de uma atividade crítica que se confunde com uma competição-hostilidade e onde as relações humanas persistem inquinadas. O futebol, como as demais modalidades desportivas, é também competição, mas não se limita à competição. Como já escrevi, num opúsculo da minha autoria, Para um Desporto do Futuro: (com prefácio do Dr. João Paulo Rebelo e do escritor Miguel Real e editado pelo IPDJ/SEDJ) no Desporto a competição é, acima do mais, diálogo, “isto é, procurando mais o belo e o convívio fraterno e a resposta às necessidades do ser humano, em busca de mais ser, do que uma competição tecnologicamente avançada e moralmente ameaçada. Será de realçar, ao contrário de uma ideia muito comum, a competição desportiva, onde não desponta, em todas as circunstâncias, a ideia da eminente dignidade da pessoa humana, não é uma necessidade imposta pela natureza, mas um reflexo (…) da intensificação da concorrência económica mundial”.      

 

Durante o século XX, o desenvolvimento das qualidades físicas e da condição biológica parecia ser, para a esmagadora maioria das pessoas, o objetivo primeiro da educação física e do desporto. Depois dos estudos que fiz, em Merleau-Ponty, em Teilhard de Chardin, em Emmanuel Mounier (há mais de cinquenta anos, como o tempo passa!) faço minhas as palavras deste último autor, no capítulo VII do Personalismo:”Que a existência seja ação e a existência mais perfeita ação mais perfeita, eis uma das intuições chaves do pensamento contemporâneo. Se a alguns repugna a introdução da ação no pensamento e na mais alta vida espiritual, tal facto se deve apenas à estreita noção que implicitamente dela é tida, reduzindo-a a mero impulso vital “. O Doutor Luís Umbelino, um sábio e experiente professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, deu a conhecer, na sua tese de doutoramento, que Maine de Biran (1766-1824) descobre “o estatuto subjetivo do corpo próprio, a partir da experiência do movimento”, pondo em causa o dualismo antropológico racionalista. Em qualquer ação, a totalidade que a justifica e a totalidade que a permite estão presentes. Repito o que já tenho escrito muitas vezes: no ser humano, tudo está em tudo! Numa sessão de treino, o físico, o psíquico, o intelectual, o espiritual encontram-se em rede, como elementos do mesmo todo. O Desporto, como fenómeno cultural que é (para mim, o de maior magia) deverá saber selecionar, interpretar, recolher as mais diversas conexões que da sociedade lhe chegam. E, nessas conexões, descobrem-se, com maior ou menor intensidade, com maior ou menor nitidez, a globalidade da condição humana. Desconhecer esta realidade (ou esta complexidade) é fazer do futebol, por exemplo, simples elemento decorativo e do “agente do futebol” um mago e, aqui e além, com o estatuto aristocrático dos magos.

 

A arte procede muitas vezes da necessidade de protesto e de crítica contra determinadas situações sociais e políticas. “Mas, sempre que desafia o que está, prenunciando e tecendo o que virá, tem de contar com os mecanismos assimiladores das sociedades (de que ela própria acaba por fazer parte), os quais, gradualmente, se mobilizam, para controlar os distúrbios, bloqueando ou dissolvendo os elementos agressivos. A medicina conhece bem esse processo, de que a biologia nos dá abundantes exemplos. Daí que, de tempos a tempos, tenha de dar-se uma nova ruptura, que apanhe desprevenida a norma rectificadora” (Fernando Namora, Encontros, Livraria Bertrand, p. 64). Só que diante de uma ruptura epistemológica (ou um corte epistemológico) tudo o que é tradição se levanta indignado, ressentido, chegando a ser inquisitorial, para que não tenha poiso, ou um pouco de aceitação que seja, qualquer viragem radical. Mas a fraqueza da tradição é acreditar apenas na tradição. Só com tradição o pensamento é sempre subsidiário e satélite. Reduzir o ser ao saber e, depois, reduzir o saber ao saber das ciências equivale a regressar a um certo materialismo e ao positivismo. E não é olhando unicamente para o Passado que podemos construir o Futuro. A pós-modernidade organiza-se hoje, em torno de vários pólos estruturantes: o capitalismo globalizado, onde reina a sociedade de mercado e se promove a desregulação dos mercados financeiros e, consequentemente, o crescimento da miséria e a fragilização do emprego e do nível de vida; o grau superlativo de uma tecnociência, conduzida pelo mercado e ao serviço do mais cego individualismo; o triunfo do capitalismo globalizado, que não é só económico, mas também cultural. Ter sucesso é ganhar no mundo da alta competição e fazer fortuna. Trata-se de um agir alienante, acompanhado de uma certeza, que os “media” e a ciberlinguagem das redes sociais e dos “hashtags” publicitam: a ditadura dos mercados é invencível! O desporto, que reproduz e multiplica a ditadura dos mercados, é também invencível (assim se pensa). Cada vez se torna mais necessário um questionamento crítico a este desporto que ajuda a interiorizar e aceitar, sem reservas, a sociedade de mercado.    

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto                        

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