Prescrever atividade física e desporto (artigo de Vítor Rosa, 67)

Espaço Universidade 11-11-2019 23:49
Por Vítor Rosa

Os conceitos são importantes para definir, conceber ou caraterizar uma realidade. Tomemos aqui três: atividade física, exercício físico e desporto. O primeiro é um qualquer movimento realizado pelos músculos, resultando um gasto energético acima dos níveis de repouso (trabalho, atividades domésticas, atividades exercidas nos tempos livres e de lazer). O segundo é uma prática planeada, estruturada e sistematizada de movimentos corporais, realizados para manter ou melhor a condição física. Para o terceiro (o desporto), tomemos aqui a designação dada pela Carta Europeia do Desporto (1992): “todas as formas de atividades físicas que, através de uma participação organizada ou não, têm por objetivo a expressão ou o melhoramento da condição física e psíquica, o desenvolvimento das relações sociais ou a obtenção de resultados na competição a todos os níveis”.

A palavra “desporto”, na nossa cultura, pode provocar algum receio, sobretudo quanto se tem excesso de peso ou obesidade, se é hipertenso, se se tem incapacidades várias, etc., passando o dia sentado(a) no trabalho, uma ou duas horas por dia complementares sentado(a) nos transportes públicos ou no veículo e o resto do dia sentado(a) em frente aos écrans dos computadores quando se entra em casa. Para muitas pessoas, o desporto implica competição, mas também esforço, transpiração, lesões e uma forte intensidade para que ele seja eficaz. Esta visão é errónea, mas sabemos que é difícil desfazer as falsas ideias e algum senso comum. Em boa verdade, o desporto tem uma forte dimensão de lazer e de prazer e o meio desportivo desenvolve muitas atividades, adaptadas a todas as populações, independentemente da idade e do nível de saúde, sem ter um objetivo de competição. A atividade física não se reduz ao desporto. O importante é movimentarmo-nos na vida quotidiana, quando das deslocações (a pé, de bicicleta) e, claro, nos lazeres. Uma das responsabilidades do médico é a de explicar ao paciente que a atividade física e desportiva tem os seus efeitos benéficos, que ajuda na prevenção de doenças, de o tranquilizar sobre as suas capacidades de praticar, de procurar eventuais limitações ao exercício, antes de os encaminhar para os profissionais formados. Nenhum dispositivo é, atualmente, financiado de forma perene, quando a saúde é um direito imaterial e que a atividade física e o desporto são, provavelmente, um dos melhores meios de manter a saúde ao longo da vida e, sobretudo, de prevenir a maior parte das doenças crónicas que ameaçam a nossa saúde, aumentando a qualidade de vida e a coesão social. Para os Governos, tem um melhor “custo-efetividade”.

Mas muitas questões estão em aberto: como prescrever? Como orientar o paciente para uma estrutura desportiva (clube, ginásio), na qual poderá praticar em toda a segurança? Como enquadrar a prática da atividade física e desportiva de um paciente beneficiário de uma prescrição médica? Como acolher nessa estrutura desportiva para uma prática em toda a segurança? Como integrar um grupo e contribuir para permanecer na prática recomendada?

Estudos epidemiológicos internacionais têm vindo a sublinhar o impacto favorável que poderá representar uma atividade física regular em termos de economia da saúde. No entanto, a relação custo/benefício dos dispositivos de atividade física, com prescrição médica, estão por esclarecer, quer em Portugal, quer noutros países. Era desejável que estudos médico-económicos nesta área se multiplicassem. Do lado dos pacientes, são muitos os que referem as dificuldades associadas ao distanciamento geográfico dos locais de prática relativamente à sua residência, da falta de tempo “desporto-saúde” e da falta de profissionais qualificados para o desporto-saúde. Realçam-se também as dificuldades devido à ausência de financiamento duradouro, da importância das iniciativas políticas locais e da falta de estratégia nacional.

Às pessoas que têm incapacidades várias, cremos ser importante fornecer oportunidades (e suporte efetivo) para poderem praticar exercício físico e desporto, adaptado, naturalmente, às suas condições físicas.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares de Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

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