A ciência como inteligência de uma prática (artigo de José Augusto Santos, 21)

Espaço Universidade 18-11-2019 23:46
Por José Augusto Santos

Se os leitores deste escrito solto, sabedores da minha proveniência profissional, ligaram de imediato a proposta reflexiva contida no título em epígrafe à Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, acertaram no “centro-central” do alvo e merecem um urso de peluche como prémio.

Alguns poderão criticar a minha pessoal obsessão pelas coisas da FADEUP. Reconheço-me nessa eventual crítica. Só posso aduzir, em minha defesa, que esta escola constituiu e constitui o núcleo capital da minha realização ontológica, na assunção fundamental do que o ontos tem de plural. Aqui fui aluno, aqui fui professor, aqui realizei a dimensão fundamental da minha humanidade. Daí, não a obsessão, mas a ligação umbilical.

Por isso, é natural que a minha escola continue a ser a minha escola e que esta motive muitas das minhas reflexões.

Hoje, quero evidenciar a minha escola como “fábrica” de teorias. Desde logo, gostaria de fazer uma distinção entre teoria e doutrina. A doutrina permanece fechada no seu núcleo fundacional e é impermeável à possibilidade da sua falsificação. Pelo contrário, a teoria é uma construção conceptual aberta e frágil, suscetível de subir ao pelourinho da razão onde todos a poderão bombardear até à sua confirmação mais robusta ou à sua infirmação.

A doutrina é fechada, a teoria aberta. Lembremo-nos que teoria provém do étimo grego theôrein que significa contemplar, meditar e também viajar. Ora, viajar, alarga-nos sempre os horizontes interiores na procura de conhecer o desconhecido.

A minha escola sempre tentou realizar a conjugação harmoniosa entre teoria e prática e, tenho orgulho em afirmá-lo, tem conseguido realizar com proficiência tal desiderato.

Com os exemplos que vou salientar quero expressar o meu orgulho e a minha gratidão a todos aqueles, docentes, alunos e funcionários que fazem desta escola um monumento à excelência pedagógica e científica no campo plural do Desporto.

Daniel Gonçalves e José Ramalho.

Comecemos pelo José Ramalho. Um fazedor de práticas inteligentes. Com todas as dificuldades inerentes ao facto de ser um atleta de elite, com um exigentíssimo programa de treino, com estágios regulares em vários locais de Portugal e no estrangeiro, conseguiu finalizar a sua licenciatura com a dignidade académica que se impunha em quatro anos. Conciliando estudo, trabalho e uma prática desportiva do mais elevado nível conseguiu resultados excecionais como atleta. O nome de José Ramalho soa bem alto no areópago da excelência desportiva da canoagem mundial.  

Iniciou-se tardiamente; chegou à canoagem com 16 anos. Os primeiros resultados desportivos são bem modestos. Foi penúltimo no primeiro campeonato nacional que realizou. Mas, tinha dentro dele a chama dos campeões e com o passar dos anos e uma prática desportiva bem focada no êxito, conseguiu um palmarés ímpar que o orgulha pessoalmente, a faculdade onde se formou, e o país que tão galhardamente representou e representa. Eis alguns dados do seu riquíssimo currículo desportivo como atleta:

- 6 vezes campeão da europa; 2 vezes vice-campeão europeu

- 2 vezes vice-campeão do mundo; 3 vezes medalha de bronze no campeonato do mundo

A nível interno, juntando os títulos de maratona e de pista, foi 41 vezes campeão nacional.

Importa salientar que este ano, após um interregno de sete anos, foi, outra vez, vice-campeão do mundo. Esta longevidade competitiva de excelência é exemplar e única no mundo.

Acresce que José Ramalho é treinador profissional de canoagem. Paralelamente à sua prática pessoal tem desenvolvido e manifestado a sua competência como formador tendo centenas de títulos de campeão nacional como treinador. A robustez da sua metodologia como treinador tem, sem dúvida, a FADEUP como génese.

Passemos ao Daniel Gonçalves. Um construtor de inteligências para praticar.

Quando o Daniel, meu aluno no 5º ano da antiga licenciatura, me perguntou se podia fazer a sua monografia com um âmbito mais científico, estava eu bem longe de imaginar a dimensão da curiosidade e empenho a que o Daniel se propunha. Ele, que era um homem do Atletismo, pretendia fazer um trabalho prático de investigação acerca do papel do exercício físico como fator protetor contra a hipertensão arterial. Disse-me que ia tentar realizar o estudo na faculdade de Medicina. Duvidei que o conseguisse, mas, passado um mês entra-me pelo gabinete e pede-me: - Professor, pode vir comigo, por favor? Fui, atravessei a rua, deambulamos pelos corredores e escadarias do Hospital de S. João e dou por mim no laboratório de Fisiologia da Faculdade de Medicina. O Daniel, com um à-vontade de quem já faz parte da casa, vai ao biotério, pega num rato, anestesia-o, prepara-o, abre-o e aplica um compressor na aorta do rato, tudo com uma mestria que me deixou admirado, enquanto me explicava o desenho do estudo. Aquele momento indicou-me que estava perante um homem do desporto que tinha escolhida a ciência básica como campo de realização académica e profissional. Rejubilei interiormente confiando sem rebuços que ele conseguira dar corpo aos seus sonhos. A sua estadia no departamento de Fisiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto como investigador-voluntário, vejam bem, voluntário na investigação, diz bem da sua apetência perscrutar o que Gaston Bachelard denomina de obscuro.

Lembrei-me de uma proclamação taoista que cerca de 300 anos antes de Cristo afirmava que “Foi o amor da ciência que espalhou a desordem do mundo”. Bendita desordem que nos permite, cada dia mais, afastar as negras nuvens do obscurantismo que ainda persistem. Só um exemplo. Se todo o dinheiro que hoje é gasto em astrólogos e videntes fosse carreado para a investigação científica, Portugal poderia ter um quadro de investigadores sem paralelo em qualquer parte do mundo.

Mas, regressemos ao Daniel Gonçalves. Oito anos após ter entrado na Faculdade de Medicina como voluntário na investigação defendeu a tese de doutoramento com o brilhantismo a que nos habituou e já possuidor de um riquíssimo currículo científico. Porque tornaria este escrito solto muito pormenorizado e fastidioso vou referir somente algumas das suas mais importantes produções científicas a começar pela sua tese de licenciatura que se constituiu como o ponto ómega do seu percurso como cientista.

- Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Licenciatura em Desporto e Educação Física.

Monografia de final de curso: Hemodynamic response to acute pressure overload in animal submitted to chronic dynamic exercise, sob orientação do Professor Doutor José Augusto Santos (FADEUP) e pelo Professor Doutor Adelino Leite Moreira (FMUP), com a classificação de 20 valores.

- Moreira-Gonçalves D et al. (2015) Signaling pathways underlying skeletal muscle wasting in experimental pulmonary arterial hypertension. Biochimica Et Biophysica Acta-Molecular Basis of Disease, 2015. 1852(12): p. 2722-2731. Artigo com Fator de Impacto 5.108.

- Moreira-Gonçalves D et al. (2015) Intermittent cardiac overload results in adaptive hypertrophy and provides protection against left ventricular acute pressure overload insult. Journal of Physiology-London, 2015. 593(17): p. 3885-3897. Artigo com Fator de Impacto 4.540.

- Moreira-Gonçalves D et al. (2015) Cardioprotective effects of early and late aerobic exercise training in experimental pulmonary arterial hypertension. Basic Research in Cardiology, 2015. 110(6). Artigo com Fator de Impacto 5.723.

Antes de avançar gostaria de informar, para os menos familiarizados com estas coisas das produções científicas, o que significa um fator de impacto superior a 5.0. Quer dizer que os artigos forma publicados numa revista de elevado nível científico, ou seja, entre as 5% mais importantes revistas da área no mundo. Esses números dizem da valia das suas produções.

O Daniel tem centenas de artigos publicados, com diferentes fatores de impacto, que têm sido o corolário da sua missão de investigador e de difusor da ciência feita. Ele, ao escolher a via científica para sua realização, tem acrescidas responsabilidades para o futuro.

Tem de ser um revolucionário, um sedicioso, um “assassino” de mentes satisfeitas e acomodatícias quer como cientista quer como divulgador. Agora, como professor na Universidade deve porfiar para continuar a harmoniosa conjugação entre a teoria e a prática outorgando aos alunos os conhecimentos científicos e a atitude, principalmente a atitude que ele representa, que lhes permita transformar qualitativamente a realidade.

O Daniel Gonçalves e o José Ramalho são frutos sãos de uma árvore sã. Esta árvore sobreviveu a ventos ásperos e a algumas tempestades, mas após cada tormenta ressurgiu sempre mais forte e empenhada no futuro. Que o futuro desta casa permita colocar a ciência como timoneira de um barco que tem a realidade social como mar a vencer.

 

José Augusto Santos é Professor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto

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