Claques (artigo de José Neto, 90)

Espaço Universidade 13-08-2019 13:24
Por José Neto

Tendo em atenção a promulgação da lei sobre violência no Desporto, numa abordagem mais eficaz no combate aos fenómenos de violência associado aos espetáculos e atividades desportivas, no que diz respeito ao caso concreto das Claques irei neste artigo submeter ao meu estimado leitor uma reflexão sobre o tema.

 

É possível que as claques tenham surgido pela inquieta confrontação geradora de violência que a considerada subcultura hooligan que surgiu nos anos sessenta do século passado em Inglaterra, entre gangs de skinheads oriundos das zonas urbanas mais desfavorecidas onde predominava a street culture, associada à rixa e à confrontação entre bairros. De imediato este estado comportamental ganhou expressão junto de grupos de adeptos de Futebol de outros países do norte da Europa (Bélgica, Alemanha e Holanda), pugnando comportamentos desafiadores nas deslocações das suas equipas em confronto.

Também nos anos setenta em Itália, aproveitando um contexto de luta e crítica social, os Ultra aparecem entre membros da extrema esquerda envolvidos em lutas urbanas, tendo como contra oposição membros de organizações de extrema direita.

Em Portugal houve uma certa desmarcação dessas lutas de poder político, mas o que se sabe é que de forma evolutiva esse estado organizado (ou não) de adeptos também passaram a assumir-se como portadores dessa subcultura, embora sem se vulgarizarem desse estado “selvagem” de atroz violência, como a história foi documentando ao longo dos tempos.

 

Assim, na segunda metade dos anos setenta, assiste-se ao surgimento de claques organizadas de adeptos de Futebol, tais como: Juventude Leonina - SCP; Dragões Azuis - FCP; Diabos Vermelhos – SLB; Fúria Azul – Belenenses; Panteras Negras – Boavista; Mancha Negra – Académica; Alma Salgueirista – Salgueiros; Juventude Bracarense – Braga; VIII Exército – Setúbal.

Em meados dos anos 80 os graves incidentes de Heysel Park, alertaram a comunidade internacional para a necessidade de tomarem medidas com vista à prevenção da violência no Desporto, em especial nos jogos de Futebol, tendo-se criado a tentativa de controlo das claques. Nesse contexto, um grupo de dissidentes dos Dragões Azuis fundou em 1986 os Super Dragões que passou a ser em 1992 a claque oficial do F.C. Porto, com a extinção da primeira, ano em que surgiram por dissidência dos Diabos Vermelhos os No Name Boys no S.L.Benfica., mais tarde surgem  White Angels – V.S.C. (Guimarães), Yellow Boys – F.C.P.F. , Febre Amarela – G.D.Tondela …etc … encontrando-se registadas no ano 2003, 44 claques organizadas em Clubes da Liga e restantes competições do Futebol profissional.

 

Mas a prática de violência entre as claques (com “rastilho” ultra), como sejam as esperas dos adeptos, vandalização do património dos clubes rivais, arremesso de materiais pirómanos, (veja-se o caso ainda em brasa do very light lançado por um elemento do No Name Boys em que perdeu a vida um adepto sportinguista numa final da Taça de Portugal - época 1995/96), tornam ineficazes todas as tentativas de aproximação, causando o repúdio da opinião pública, gerando mesmo pedidos de intervenção do Estado com o reforço das medidas de controlo e prevenção, com a promulgação de legislação adequada, como foi a Lei nº 8/97 de 12 de Abril e Lei nº 38/98 de 4 de Agosto.

 

No global, nas medidas de segurança introduzidas, inseria-se uma mais eficaz vigilância nos estádios, a introdução de polícias à civil no seio dos adeptos, numa mais precisa identificação dos membros das claques. Contudo, contendo esta problemática um eixo mediador fundamentalmente aditivo ao ato educativo, não tem sido nada fácil o combate, cujas ocorrências muitas vezes se deslocam para fora dos perímetros onde as competições se realizam, onde proliferam por vezes um contingente de indivíduos inadaptados e marginalizados, incitando ao conflito, sempre dispostos a reincidir as regras de cordialidade e respeito que o Desporto a todo o momento procura exaltar. São como bestas esplêndidas que se infiltram na multidão, estendendo tapetes de sangue por onde passam, cobrindo de luto a essência pacífica e emuladora que sempre o belo jogo deve promover.

 

Ainda a acrescentar as agressões a árbitros por parte de jogadores e adeptos, absurdas incongruências de ira e raiva portadoras de graves conflitos corporais entre assistentes, discussões acesas em alguns programas de comunicação social que nos entra pela casa dentro documentadas por imagens que envergonham quem delas se apercebe, uma loucura de trato misturada por uma linguagem rasca de grosseria e bestialidade, entre figurões que muitas vezes se encontram prisioneiros dum capital de audiência a todo o custo apregoar, nada disto ajuda a manter a ordem perante a defesa das relações entre pessoas de bem.

 

Como refiro na minha publicação “Á Flor da Relva” pg.157 (2018): “é urgente e necessário tomar medidas severamente punitivas para quem não é capaz de viver de forma social e pedagógica o compromisso do Fair – Play, que implica o respeito pelas regras, a garantia de cumprimento de um conjunto de deveres, obrigações e comportamentos num orgulho cooperante e participativo.

 

A título de exemplo, poder-se-ia apelar a um maior reforço de segurança, a identificação e imediata punição do agressor, com a exposição da imagem pública do mesmo, eliminando-lhe o acesso ao recinto de jogo, deslocando-se para o efeito à Esquadra ou comando policial, possibilitando-lhe a audição em relato ou visualização do mesmo, formação cívica e desportiva e trabalho comunitário congruente até à irradicação absoluta”.

 

Creio que a promulgação do regime jurídico de combate à violência irá ajudar a capitalizar o desejo de quem, com a garantia de mais liberdade, respeito e segurança, pretenda estar presente no “palco” mediático do belo jogo de Futebol onde a arte, a ciência, a cultura e a razão possam converter na mesma sintonia a dignidade da pessoa com a autenticidade do cidadão, num pleno apoio participativo do emblema do clube que rejubila, ostenta e manifesta como o tesouro do maior entre os melhores.

 

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F./U.E.F.A.; Docente Universitário.

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