Quem ‘matou’ a mudança? Suspeito 18 – A Resistência à Real … (Parte 1)

Espaço Universidade 14-07-2019 16:11
Por João Oliveira

“200.000 Milhões podem ir pelo Ralo” – era o título da primeira página, do maior jornal desportivo do mundo, que o Detetive Colombo estava a ler. O F.C. os Galácticos tinham protagonizado a maior transferência de todos os tempos, ao pagar 200.000 Milhões, por Peter Taylor, o jovem de 22 anos, poucos meses antes. Peter era um jogador com uma estrutura física fantástica para jogar e uma técnica ímpar, para não falar de uma persistência notável. Oriundo de uma família humilde, tinha vivido uma infância dura, com o Pai a perder o negócio, a separação dos Pais, os seus 3 irmãos e tinha encontrado no Futebol uma “tábua de salvação”. Por isso, possuía o desejo inabalável de chegar ao topo e, com isso, proporcionar uma vida melhor, à sua família e a si.

 

Cedo deixou a casa dos pais, para integrar uma Academia de Futebol e testemunhou várias situações marcantes. O elogio aos que marcavam golos e o ignorar ou a critica aos que “ficavam em branco”, levaram-no a acreditar que o seu valor resultava do que conseguia. Por isso, conseguir ganhar significava ter valor e perder que não se tinha valor. A ideia de que “muitos desejam, mas poucos alcançam” acompanhada das muitas desistências a que assistiu, no seu percurso de formação, reforçavam a crença de que “persistir é vencer e desistir é perder”.

Os frequentes comentários a ele e aos seus colegas, na Academia, que eram baixos ou não tinham a velocidade necessária, a força mental exigida, (…), acabou por “ajudar” outros tantos a desistirem dos seus “sonhos”, levou-o a reagir impulsivamente a todas as críticas.

 

O porte físico, a sua apuradíssima técnica e a sua persistência, pareciam ter feito dele o jogador perfeito e levou o F.C. os Galácticos a investir 200.000 Milhões, na sua transferência, mas pareciam não estar a dar certo. Todos estavam insatisfeitos, ele inclusive, mas também os colegas de equipa, o treinador, a direção, os adeptos e até a imprensa. Necessitava de se adaptar a uma nova cidade, a um novo clube, a uma nova equipa, a um novo sistema de jogo, mas a sua teimosia, em persistir com a repetição do que o tinha ajudado a chegar ali, mas que agora não estava a produzir os mesmos resultados, estava a comprometer tudo. Corria-se o risco da sua transferência se tornar no maior “flop” da história do Futebol. Tudo isto era do domínio público. A situação estava insustentável.

 

Nisto, tocou o telemóvel. No visor, apareceu o nome do famoso Treinador Brad Wooden e o Detetive Colombo atendeu e disse – “sim, como está Treinador Wooden?”. “Olá viva Detetive Colombo. Espero que esteja tudo bem consigo?” – devolveu o Treinador Wooden. “Sim, está! Em que posso ajudar?” – disse o Detetive Colombo. “Detetive” – começou por dizer o Treinador Wooden – “estou com uma situação difícil, que está a comprometer a melhoria da equipa e, depois da nossa última conversa, pensei em falar consigo. Está disponível?”. “Com certeza” – respondeu o Detetive Colombo. Umas horas mais tarde, já no gabinete do Treinador Wooden, o Detetive Colombo perguntou – “o que se passa Treinador Wooden?”. “Estou com uma situação em mãos muito desafiante” – começou o Treinador Wooden e continuou – “o nosso “craque” tem um talento do tamanho do mundo, mas também tem coisas para melhorar. Contudo, dada a sua inflexibilidade e incapacidade para aprender, mudar e melhorar, não estou a conseguir que melhore e gostava de saber se há alguma coisa que esteja a fazer ou possa fazer, para ajudá-lo a melhorar.”

 

O Treinador Wooden referia-se á superestrela de Futebol, Peter Taylor. “Treinador Wooden gosta de jogadores que: se riem, quando perdem; não se esforçam ou desistem perante as dificuldades; ou estão dependentes dos outros para agirem?” – perguntou o Detetive Colombo. “Não, prefiro jogadores que detestam perder, que persistem perante as dificuldades e que tomem a iniciativa, lutem pelas coisas” – respondeu o Treinador Wooden.

 

“O que faz quando os jogadores: estão a rir-se, no balneário, depois de uma derrota; perdem a bola e desistem da sua imediata recuperação; ou ainda, quando reagem ao adversário?” – perguntou o Detetive Colombo e, de imediato, o Treinador Wooden respondeu – “dou-lhes um ralhete, daqueles que não se esquecem”. O Detetive Colombo fez uma pequena pausa e colocou outra questão – “e o que faz quando os jogadores ganham, não dão nenhum lance por perdido, desafiam as probabilidades, mesmo estando a perder, ou quando fazem o que lhes pede, agindo proativamente?”. “Elogio-os, reconheço-os e recompenso-os” – respondeu o Treinador Wooden.

 

“Treinador Wooden é normal fazer o que faz, repreender o que não quer ver e elogiar o que deseja ver. Há muitos pais, professores, treinadores e gestores que fazem o mesmo, mas o que é que os jogadores estão realmente a aprender, nestes casos?” – perguntou o Detetive Colombo. “A evitar a derrota a todo o custo, se querem estar satisfeitos, no final dos jogos; que é preciso manter o compromisso, persistir e “ripostar”, para virar os resultados desfavoráveis; e que lutem pelo que querem” – devolveu o Treinador Wooden. “Ou seja” – começava a resumir o Detetive Colombo – “os jogadores acabam por acreditar que perder é mau, que quem desiste perde e que têm de lutar para dar a volta às situações desfavoráveis e, embora tudo isto possa ser considerado positivo, quer ir um pouco mais além, ao fundo da questão?”.

 

“A realidade é que o Peter Taylor representa um investimento de 200.000 Milhões, a forma como está a jogar não está a funcionar e necessitam, todos, de adaptação. Porém, há resistências a esta realidade, a de ter de mudar, que estão a comprometer tudo. Concorda Treinador Wooden?” – perguntou o Detetive Colombo. “Em absoluto” – respondeu o Treinador Wooden. “Há três coisas que isoladamente podem estar a contribuir para isso, para a resistência à mudança, mas cujo efeito combinado é multiplicador” – estava a dizer o Detetive Colombo, quando foi interrompido pelo Treinador Wooden que perguntou – “quais são?”.

 

“Primeiro, a aversão à perda. A situação familiar o Peter, que na sua infância, viu o Pai a perder o negócio e os pais a perderem a relação, assistiu aos colegas e a ele a serem criticados quando perdiam um jogo, quando perdiam um passe ou falhavam um penalty, levaram-no a associar a perda a situações desconfortáveis e, por isso, a evitar quaisquer perdas potenciais a todo o custo” – começou por dizer o Detetive Colombo. “Percebo, a realidade de mudar exige que se perca: o conforto na cidade onde o Peter vivia; a cultura do Clube onde jogava; o ambiente da equipa anterior; e a posição e o sistema de jogo, e como, há uma aversão à perda aprendida. O Peter resiste à realidade de mudar, porque isso significa perder o que está habituado a fazer, consequentemente não se adapta e, por isso, não “vinga” – começou por dizer o Treinador Wooden e, a seguir, perguntou – “qual é a segunda situação?”.

 

Nisto, o telemóvel do Detetive Colombo toca e ele diz - “Treinador Wooden, podemos fazer uma pequena pausa, para atender esta chamada?”. “Claro Detetive Colombo” – respondeu o Treinador Wooden. Depois de desligar, o Detetive Colombo disse que havia uma situação urgente, na esquadra, que tinha de se ausentar e perguntou se podiam continuar a conversa mais tarde. O Treinador Wooden estava curioso e ansioso por saber quais eram as outras duas situações que poderiam estar a comprometer a mudança, a adaptação do Peter Taylor.

 

João Oliveira

Doutor em Psicologia, Mestre em Ciências do Desporto, Licenciado em Ensino da Educação Física, Treinador de Basquetebol, Treinador de Equipas, professor de Psicossociologia das Organizações e do Desporto no Instituto Universitário da Maia – ISMAI e formador em Desenvolver Equipas Eficazes, Motivação e Gestão do Pensamento em Contexto Profissional, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.

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