Violências desportivas (artigo de Vítor Rosa, 32)

Espaço Universidade 04-05-2019 23:35
Por Vítor Rosa

Os estudos sociológicos sobre a violência no desporto permitem uma análise mais detalhada e fina deste fenómeno. O desporto não é um mundo virtuoso. De um modo geral, existem quatro formas principais de violência: verbal, física, exclusão e simbólica.

A violência verbal nos locais desportivos ou imediações é, sem dúvida, uma das formas mais correntes e mais fáceis de perceber. O painel é amplo: insultos, invetivas, grosserias e outros termos de consoante sexual ou racista. Este tipo de violência apreende-se nas bancadas e tribunas. É inútil insistir sobre as expressões e os cantos injuriosos que os fans entoam ao encontro de uma equipa adversária ou ao corpo de árbitros. Como refere Bromberger (1998), a propósito dos fans de futebol, as suas retóricas são em torno de três polos: a vida e a morte, a guerra e a virilidade. A violência verbal diz respeito também aos atletas, aos treinadores, etc. O que não contribui para a serenidade dos debates desportivos. Nos desportos coletivos, as disputas entre os treinadores (ou dirigentes) e jogadores no intervalo ou antes do jogo são, por vezes, pautadas por discursos muito violentos. É interessante notar que, na maior parte do tempo, os protagonistas não se apercebem da natureza das suas palavras. E quando se fazem observar, estimam que não há nada de dramático. O que eles dizem é para encorajar ou para motivar uns e outros. Ou seja, a violência verbal não incita a passagem ao ato físico.

A violência física existe no desporto. Várias são as práticas desportivas, como o tiro, a esgrima ou a equitação, que saíram diretamente das artes da guerra. Elas foram desenvolvidas desde a Antiguidade pelos guerreiros para se aperfeiçoarem na sua especialidade belicista respetiva e por alguns adolescentes que, por vezes num rito de iniciação, praticavam para serem dignos de se tornarem soldados. A violência física pode caracterizar-se de duas formas: segundo o local onde ela é observada e segundo o alvo sobre o qual ela se exerce. A violência encontra-se nas bancadas e em torno da cena desportiva, no seio dos espetadores e dos fans, apesar das medidas de segurança. O hooliganismo, que surgiu na Grã-Bretanha (e que se tornou um delito), expandiu-se para a maior parte dos países europeus durante a ocasião dos grandes encontros de futebol. Bodin (1999) diz que a violência está ligada ao espetáculo desportivo, mesmo se este fenómeno, durante o decorrer do tempo, assumiu diferentes formas. O segundo espaço de violência física é o terreno de jogo. Nos desportos coletivos, os jogadores das equipas opostas molestam-se no terreno. São, por vezes, eles que promovem a violência, cujas determinantes são múltiplas e pouco diferentes dos contextos não desportivos. Os balneários e outros locais satélites do terreno de jogo (duches, corredores) não são isentos de violência. A violência pode se exercer contra alguém, e os árbitros são amplamente expostos, em particular no futebol, independentemente do nível do encontro. As ameaças de greves feitas pelos árbitros induzem bem a sua profunda exasperação face às injúrias reiteradas e às ameaças a que são sujeitos, bem como os projéteis que são lançados colocando em perigo a sua integridade física. O desporto é, assim, gerador de violência.

A violência ligada à exclusão. A violência no desporto também se pode exprimir de uma forma direta. A primeira das violências do desporto é a exclusão social. Esta exclusão assume diferentes níveis. Um deles é o género. As mulheres foram durante muito tempo afastadas dos terrenos desportivos sob o pretexto de que a atividade física poderia causar problemas na sua morfologia e que era contrário ao papel que elas tinham na sociedade. Mesmo se elas adquiriram um lugar no espaço desportivo, a igualdade com os homens ainda está longe de ser total. O nível da prática constitui um local de ação da exclusão. As federações desportivas competitivas têm por referência dominante o desporto de alto rendimento. Elas estruturam a sua disciplina, por forma a responder a um objetivo de produção de campeões. A exclusão exerce-se também através das condições económicas ou sociais dos praticantes.

A violência simbólica. Esta é, por vezes, ideológica e encontra-se na essência do desporto e, mais particularmente, na competição. A atividade física pode ser apercebida como uma luta feroz para aceder a uma elite e, deste combate contra um adversário ou contra si próprio, nasce uma violência imaterial, mas patente. É corrente comparar o desporto à guerra. A expressão: “é preciso matar o adversário” traduz bem o sentido dado à competição. Combater um rival, eliminar um concorrente, afirmar a superioridade e finalmente sair um vencedor é um “chefe militar”. Ainda bem que estes confrontos desportivos ficam, regra geral, no domínio do simbólico. 

Como explicar a ligação entre o desporto e as violências? Se é fácil colocar em evidência a existência da violência no desporto, é mais difícil de a explicar. A principal razão reside no fato da maior parte dos trabalhos sobre o tema serem recentes. Não se dispõe de muitos dados explicativos e compreensivos. Mas algumas pistas podem ser apontadas. Por um lado, importa não se considerar o conjunto das práticas desportivas como submetidas a uma violência de natureza e intensidade similares. Algumas modalidades são mais expostas do que outras (boxe, kick-boxing). Em outras, a violência assume diferentes formas, em função do grau de investimento físico (hóquei, ski alpino), o risco (parapente, salto de elástico), de entusiamo popular (futebol), ou o grau de virilidade (râguebi). Todas estas práticas estão envolvidas pela violência, mas de formas diferentes.

A atitude dos dirigentes desportivos não contribui para regular o fenómeno da violência com eficácia. Ao idealizar a prática desportiva e as suas virtudes, o mundo federativo competitivo ignora a realidade e a amplitude das condutas de violência. E, muitas vezes, quando confrontados com a realidade negam a gravidade das situações. No fundo, o desporto é uma das raras ocasiões onde a violência é tolerada e aceite. Esta questão remete-nos para a posição crítica do desporto impulsionada por Brohm (1992). Para si, o desporto, e mais particularmente a competição desportiva, é uma lógica guerreira. À imagem da sociedade capitalista, o desporto tem por única finalidade produzir campeões e de encorajar os antagonismos locais, regionais ou nacionais. Para Brohm (1992), um campeão é uma “nulidade do nada”. Assumindo-se como estruturalista freudo-marxista, considera o desporto uma instituição social total, que se apresenta como um microcosmo da sociedade, propondo a análise do sistema desportivo como o reflexo do modo de produção capitalista. Ao considerar que o sistema desportivo produz mercadorias, isto é, campeões, espetáculos, recordes e performances, estuda a sua coesão e interdependência com as restantes instituições, através do conceito de “modo de produção desportivo”. Brohm, independentemente da coerência e validade que enuncia na análise do desporto, sublinha um especto central para a abordagem sociológica do desporto: a sua componente histórica. Para este autor, o desporto moderno apresenta uma rutura histórica onde “o desporto é a materialização abstrata do rendimento corporal” (Brohm, 1992, p. 75). No conjunto de práticas identifica dois polos: as de alta competição ou de alto rendimento e as de lazer, e ainda as que se posicionam entre os dois níveis. Com base na lógica do “modo de produção desportivo”, existe, segundo o autor, uma relação de determinação das primeiras face à subordinação das restantes. Brohm reconheceu a coexistência de diferentes práticas desportivas configuradas no sistema desportivo, entrando em rutura com conceções que lhe atribuem uma unicidade, mas na análise que realizou ignorou as dominadas, como se a sua relação fosse de “dependência” e não de afirmação e conflito. Considera que a estrutura do sistema desportivo contempla um sistema de hierarquização, uma organização burocrática, uma infraestrutura técnica de gestão e uma jurídica institucional e, por último, o princípio da espetacularidade. Identifica também um conjunto de funções sociopolíticas, nomeadamente a coesão nacional, a socialização da juventude, a manutenção das relações de produção, etc. Como sublinha Vargas (1997), um pouco de violência aproxima-nos do desporto; se for muito, afasta-nos. Não havendo, priva-nos. Se o desporto for muito violento, ele arrisca perder a sua função mítica. Não há mito onde não existe sangue.

 

Referências:

Bodin, D. (1999). Hooliganisme, vérités et mensonges. Paris : ESF.

Brohm, J.-M. (1992). Les meutes sportives. Paris : L’Harmattan.

Bromberger, C. (1998). Football. La bagatelle la plus sérieuse du monde. Paris : Bayard.

Vargas, Y. (1997). Sport et Philosophie. Paris : Le Temps des Cerises.

 

Vítor Rosa

Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa

 

 

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