Para um Desporto que humanamente se cumpra (artigo de Manuel Sérgio, 291)

Espaço Universidade 06-05-2019 17:11
Por Manuel Sérgio

O estudo do Desporto só poderá realizar-se, em liberdade intelectual, em espírito crítico e em diálogo plural. De facto, se o Desporto é um dos aspetos da Motricidade Humana, ou seja, do movimento intencional e solidário da transcendência, e a transcendência designa um sujeito movimentando-se para “ser-mais”- para interpretar uma “performance desportiva”, sem excluir o físico há mais do que físico na sua análise. Por muitas razões e mais esta: uma “performance desportiva” é, sobre o mais, um drama, mais qualidade do que quantidade e portanto onde as dimensões sentimental e espiritual e intelectual têm papel relevante. No desporto de alta competição, torna-se de uma evidência meridiana que o espírito é carne e que a carne é espírito. Quando, adjunto do treinador Jorge Jesus, trabalhei, no Sport Lisboa e Benfica, nas nossas habituais conversas, cheguei mesmo a falar-lhe numa “lei da complementaridade” que unisse o animus e anima, a luz e a sombra, a exterioridade e a interioridade, em que o ser humano se revela. Em todo o século XIX e nos inícios do século XX, a Física fundamentava, na pessoa humana, a noção de energia e a de força em aspetos puramente quantitativos – ideia que influenciou decisivamente a educação física, a psicologia e a medicina daqueles anos idos. E com que eu rompi afoitamente, nos primeiros anos da década de 60, após a leitura de M. Merleau-Ponty, de E. Mounier e de P. Teilhard de Chardin. Tenho despertado cóleras e procelas, com algumas das minhas ideias. Mas ideias, ninguém o contestará, vinculadas a um tema: pela transcendência desportiva (e não só desportiva) emerge, como um grito, um anseio inapagável de o Homem desejar ser Deus. A competição, o esforço, a tensão esgotantes, no desporto das elites, assim o manifestam. Leonardo Boff poderá escutar-se, neste passo: “Se Jesus-homem pôde ser a encarnação do Verbo, é porque existia essa possibilidade, dentro da natureza humana. Ora, Jesus é um homem como nós. Logo, a natureza humana, como tal, comporta essa transcendência e racionalidade para com o Absoluto. Ela pode se identificar com Ele e fazer parte da sua história” (Jesus Cristo Libertador, p. 212).

A escolástica medieval não ofuscava a racionalidade, enquanto a ciência moderna foi sobretudo empírica. Aquela cultuava a razão humana, desde que obediente às imposições do dogma; esta, a ciência de Kepler, Galileu e Newton e ainda a do positivismo e a do neopositivismo aceitam os factos brutos, independentemente da sua racionalidade, ou seja, as teorias científicas elaboram-se, justificam-se, com base na observação empírica. Enganou-se a ciência moderna: não há factos puros, não há observações empíricas puras, pois que uma observação, ou uma experiência, são norteadas sempre por uma teoria. A própria “ciência normal”, é Thomas Kuhn a dizê-lo, na sua The Structure of Scientific Revolutions (2ª. ed., The University of Chicago Press, Chicago, 1970): “não passa de uma tentativa de forçar a natureza a encaixar-se, dentro dos limites pré-estabelecidos e relativamente inflexíveis, fornecidos pelo paradigma” (p. 24). A integração, ou a síntese, de vários saberes, na investigação científica, percebe-se perfeitamente na investigação científica, principalmente a daqueles cientistas que foram estrelas em tempo de escuridão. Por isso, ao pretender salientar as características de um Desporto que humanamente se cumpra, julgo dever dar fé às seguintes: primazia do elemento antropológico sobre o desportivo (para mim, a pessoa é fim e o desporto é meio); primazia do projeto (ou até da utopia) sobre o factual, do futuro sobre o passado; primazia da crítica sobre as leis, muitas delas impostas e promulgadas pelos interesses das classes dominantes; primazia do social sobre o individual, dado que o Desporto não se legisla, como se se destinasse a alguns privilegiados, pois que se destina a todos os cidadãos; primazia da ortopraxia sobre a ortodoxia, ou dos prático-teóricos de uma consciente vitalidade, sobre os teóricos tão-só, meros retóricos e pouco mais: estes, tendo ao seu serviço uma vasta burocracia incompetente e rotineira, que trabalha servilmente, sem capacidade criadora, e aqueles, demasiadas vezes, em completa orfandade de meios e de recursos. Afinal, repito o que venho dizendo, há muitos anos: quem não pratica não sabe! Ocorre-me, frequentemente, uma frase do Eça, relatada pelo Jaime Batalha Reis: “Basta de ler e imaginar, precisamos de um banho de vida prática”(in Ana Nascimento Piedade, Em Diálogo com Eduardo Lourenço, Gradiva, Lisboa, 2015, p. 120).


Na primazia do elemento antropológico sobre o desportivo, encontro eu o fundamento do Desporto, como ciência e como valor. De há mais de 50 anos até hoje, sem mandos de ninguém, aceitei a mundividência, com um ou outro retoque, de Teilhard de Chardin (1881-1955), que me parece suficientemente sedutora. Com efeito, na evolução da natureza e do cosmos, um momento há em que o ser humano aparece. E com base em observações empírico-indutivas, anteriores a Teilhard (refiro-me a Charles Darwin: 1809-1882), com ascendência animal. E portanto um produto natural da evolução biológica. A paleontologia descobriu, neste incessante movimento evolutivo de tudo o que existe, que os reinos mineral, vegetal, animal e humano surgiram, uns a seguir aos outros e por esta ordem. E obedecendo à lei de complexidade-consciência, que assim se define: “quanto mais complexo for um organismo, na sua organização interna, tanto mais elevado será o grau de psiquismo que o anima e que parece emanar desta mesma complexidade”. E com a ideia da complexidade, que ninguém ousa contestar, ao “infinitamente grande” e ao “infinitamente pequeno” (os dois infinitos que assustavam Pascal) deverá acrescentar-se o “infinitamente complexo”. Concluindo: gradualmente, é no Homem que a Evolução se torna consciência, se interioriza e… se finaliza, na transcendência em busca do Absoluto. Com Teilhard de Chardin, o Homem não é uma paixão inútil, ao jeito de Sartre, mas a certeza, no coração da História, de que o ser humano é um permanente anseio de Absoluto. Resumindo: o mundo é uma evolução para o Homem e este uma evolução para Deus. É verdade que, na nossa sociedade do espetáculo, imediatista e superficial, procurar a presença de Deus na História parece uma atitude unicamente metafísica ou teológica. Mas o que é a transcendência (assim o penso, com respeito pelos que não aceitam as minhas ideias) senão um esforço para acrescentar algo, qualitativamente novo, ao real? O que é a transcendência senão um esforço para transfigurar o real? O que é a transcendência senão a “prova provada” de que o ser humano é um projeto ilimitado?


Todo o universo caminha para o ser humano e o ser humano caminha para Deus. Os clubes, os campeonatos, as associações, as federações só se justificam se avivados por uma ideia-mestra: o serviço do ser humano e a sua emancipação. Um futebol impregnado de superstições, que ressuscitam regionalismos e clubismos intolerantes, é o resultado do decadentismo das classes dirigentes e de um povo explorado e manipulado. Antes do Desporto, está o Homem; antes do Treino, está o Homem; antes da Competição, está o Homem. Tudo o mais são sedativos, se não é este o fundamento. Dói-me ver tanto treinador desportivo encurralado e aferrolhado num fisiologismo positivista e longe, muito longe do radical fundante de tudo o que faz. Ainda há pouco, depois de assistir pela televisão, ao Barcelona-Liverpool, eu dizia para mim mesmo: diante da magnitude do desempenho do Messi, pois que, sem ele, o Barcelona não venceria este jogo, que os “entendidos” não sobrevalorizem agora as indispensáveis tática ou a preparação física, ou até uma rude cadência de trabalho, pois que foi o génio de um homem-jogador que, acima de tudo, o ganhou. Ele precisou, de facto, da equipa. Só que, sem ele, a eliminatória parecia pender para as cores do Liverpool. Pela primazia do elemento antropológico sobre o desportivo, “há que tentar demolir a sedutora fixação em determinados modelos fisicalistas de cientificidade, entretanto carentes de legitimidade, principalmente após as aturadas críticas da epistemologia pós-bachelardiana. Modelos esses que, além de descabidos, são retrógrados” (Adalberto Dias de Carvalho, Epistemologia das Ciências da Educação, Edições Afrontamento, 1988, p. 17). A “sacralidade desportiva”, decorrente do impacto emocional que o desempenho dos atletas exerce na vida de um povo – pede também outras disciplinas, para além da fisiologia em especial e da biologia em geral (cfr. Alfredo Teixeira, Não Sabemos Já Donde a Luz Mana, Paulinas, Lisboa, pp. 145 ss.).


Adianto nova citação: “A cultura exageradamente competitiva do futebol profissional, a espetacularização excessiva na mídia, disputas desmedidas e os altíssimos valores que giram em torno da modalidade incentivam a filosofia do ganhar a qualquer preço e parece que ajudam as explicar a violência no futebol. Pelo menos, algumas práticas de violência, no universo profissional e de alto rendimento desse esporte (Maurício Murad, para entender A Violência no Futebol, Benvirá, S. Paulo, 2012, p. 106). Por outro lado, uma vida afrontosamente epicurista, quando não provocantemente hedonista, de muitos dos dirigentes desportivos e dos futebolistas mais aplaudidos; o prevalecimento de critérios unicamente económicos ou financeiros, de acordo com as taras do capitalismo dominante (os próprios socialismos que por aí se pavoneiam não passam de capitalismos do Estado); a indisponibilidade para aceitar, no Desporto, uma evidente proliferação de significantes e significados religiosos – tudo isto contribui diretamente para o desinteresse na criação de uma ciência hermenêutico-humana, que salvaguarde a multiplicidade e a complexidade do que é essencial, no estudo do ser humano e que, como novo paradigma, lhe dê coesão e uma identidade disciplinar própria.  Porque o sentido da vida humana é a transcendência (e o Desporto assim o confirma), a primeira etapa que se impõe, na teorização e na prática desportivas, é a constituição de uma equipa de trabalho interdisciplinar, onde eu integro também a teologia, dado que o afluxo ininterrupto de significantes e de significados religiosos, na prática desportiva, é tão evidente que recusar o contributo da teologia equivale, neste caso, a um enorme dislate. Volto ao teólogo Alfredo Teixeira, também observador sagaz e meticuloso, servido por vasta cultura, do fenómeno desportivo: “A extraordinária diversidade do sagrado impôs uma progressiva dessubstancialização do termo, que passou a necessitar de um modelador: sagrado religioso, sagrado político, sagrado social, etc.” (op. cit., p. 172). Eu teria também em conta o sagrado desportivo…                  


Para um Desporto que humanamente se cumpra, parece-me necessário não afrouxar na investigação de matérias que, de facto, não passam de “ciências auxiliares do Desporto”, como a Política do Desporto, a Sociologia do Desporto, a Psicologia do Desporto, a Filosofia do Desporto, a Epistemologia do Desporto e a Teologia do Desporto. Álvaro Magalhães realça um ponto que me parece de magno interesse: “O homem é o animal que possui menor número de reações inatas, o seu repertório é quase todo constituído por respostas adquiridas-aprendidas, o que, de resto, explica a longevidade da infância, onde faz a aquisição das bases fundamentais. Daí a necessidade do treino constante do futebolista. Trata-se do apuramento das suas qualidades, por repetição, e resulta na criação de automatismos. Também os animais treinam, nas suas brincadeiras, as corridas, os saltos e os movimentos do ataque ou da defesa, dos quais depende a sua sobrevivência. O instinto, embora seja um fenómeno essencialmente inato, pode ser modificado pela aprendizagem, que desempenha, em geral, um papel de afinação e melhoria do resultado” (História Natural Do Futebol, Assírio & Alvim, Lisboa, 2004, p. 192). O saber científico dos positivistas e neopositivistas é neutro, objetivo e objetivante, destina-se às Ciências da Natureza, ou melhor: explica as Ciências da Natureza. Só que o Homem, acima de tudo, compreende-se. E, para compreender uma pessoa, importa estabelecer, com ela, uma relação vital solidária. Sem esta relação, quase sempre a objetivamos e manipulamos. A pessoa, após um desbaste intelectual depurador, é sujeito e é mistério. Por isso, “assumindo que, para além da técnica, da tática, da preparação condicional e do futebol jogado, uma equipa profissional exige estar em permanentes “cuidados intensivos”, relativos à sua inteligência mental (foco e concentração nas tarefas) inteligência emocional (controlo da ansiedade e empatia individual e coletiva) inteligência espiritual (disponibilidade para se superar) e inteligência social (o todo é maior do que a soma das partes” (Jorge Araújo, O Treino Do Treinador, Teamwork Consultores, Porto, 2016, p. 16).


Neste livro, verdadeiramente inovador na bibliografia desportiva, em língua portuguesa, Vítor Serpa, diretor do jornal A Bola, jornalista brilhante, estudioso, metódico, daqueles que não escreve para agradar, levanta um problema de que poucos treinadores cuidam: a comunicação. Com efeito, é o Vítor Serpa a dizê-lo: é “preciso treinar o que se comunica, como se comunica, quando se comunica e para quem se comunica. Tal como é preciso treinar o comportamento, em função do impacto da comunicação que recebemos do exterior. Eu defendo abertamente que, a partir de um certo nível de exigência e de exposição pública, um treinador deve ter o seu próprio departamento de comunicação, que se pode e deve compatibilizar com o departamento de comunicação do clube, mas não se deve fundir, nem confundir com ele. Digo-o, não por pressentimento de razão, ou mera sensibilidade. Digo-o, por estudo, observação e análise” (op. cit., pp. 21/22). J. Habermas, no ato de comunicar, aponta “quatro exigências de validade universais: a compreensibilidade da expressão, a verdade do enunciado, a veracidade da intenção e a retidão das normas”. Karl-Otto Apel concorda com as exigências de validade universais, no ato de comunicar, de Habermas, mas avança a necessidade imperiosa de uma atmosfera sócio-política, com estas normas fundamentais: lutar por que não perca as características humanas “a comunidade real de comunicação”; criar “uma comunidade ideal de comunicação”, sem catequeses rígidas, sem amestradas unanimidades, sem ditaduras de qualquer espécie e que assim possa alcançar-se o consenso universal. Ora, o clubismo faccioso, a ignorância dos princípios inalienáveis da ética desportiva, um economicismo sem freios, os açaimes das várias censuras que não findam, mesmo em regimes democráticos – dificultam uma comunidade ideal e real de comunicação. É verdade: o desporto é mais do que desporto. E só o será verdadeiramente, quando souber articular-se com os mais nobilitantes e progressivos ideais da humanidade.


Progressivos? Na realidade, se estamos no movimento intencional da transcendência, temos o rosto, firme, a olhar em frente, a fitar o Futuro, o que não acontece tão-só no espetáculo desportivo. Se o Desporto vê, no ser humano, a prioridade, entre os seus objetivos, o desporto-arte, o desporto-educação, o desporto-saúde, o desporto paralímpico, etc. hão-de situar-se entre os alvos de uma política verdadeiramente nacional. Um alargamento das dimensões sociais e históricas da motricidade humana em geral e do desporto em especial relaciona a prática desportiva com a sociedade toda e não, unicamente, com as situações escolares e com o desporto de alto rendimento. Para que humanamente se cumpra e sem descambar num redutor puerocentrismo, o desporto, ou o jogo desportivo, deverão tornar-se uma “educação permanente”, em diálogo, ou em relação dialética, com os projetos educativos para todas as idades. A propósito da ciência da educação, escreve Adalberto Dias de Carvalho: “A ciência da educação não pode apenas ser uma ciência descritiva: será também uma ciência normativa, em que a componente utópica tem um papel central. É que esta ciência lida com um objeto inconcluído, não podendo por isso bastar-lhe o conhecimento de um objeto já construído. Se tal acontecesse, ela estaria somente a contribuir para a reprodução dos modelos educativos existentes, partindo implicitamente do princípio de que eles eram definitivos” (op. cit., p. 93). Também a Ciência da Motricidade Humana, onde se integram, como especialidades, o desporto, o jogo desportivo, a dança, a ergonomia, a reabilitação, não quer situar-se em verdades feitas, cristalizadas e motive e esclareça os estudiosos a que ponham de lado qualquer conhecimento, marcado pela rigidez de muitas certezas. Para a motricidade humana o ser é um “ser em movimento, visando a transcendência” e o real, na sequência de Teilhard de Chardin, “um processo em evolução contínua para o Absoluto, partindo do nada e do caos”. Permitam-me que, neste momento, distinga um filósofo do século XIX: Hegel! Foi da “esquerda hegeliana” que nasceu Marx e os próprios heterodoxos marxistas; encontra-se nele a fonte mais viva do pensamento dialético. Tudo está em movimento. E, porque tudo está em movimento, perigam a inércia, o comodismo, a rigidez burocrática. E pode nascer a Esperança!   

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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