Quem ‘matou’ a mudança? Suspeito nº 14 – Lidar com a Frus… (artigo de João Oliveira)

Espaço Universidade 11-02-2019 11:11
Por João Oliveira

“Bom dia Detetive Colombo, não sei se me conhece. Sou Anthony Smith Coordenador da formação do F.C. os Galácticos”. “Sim é claro que sei quem é, como está e em que posso ser útil?” – respondeu o Detetive Colombo. O Detetive Colombo, como qualquer pessoa que acompanhasse o desporto, conhecia o Treinador Anthony Smith. Tinha sido jogador de todos os escalões de formação do Clube, depois uma grave lesão, afastou-o do jogo, formou-se em Desporto e desde muito cedo abraçou a função de Treinador. Tinha treinado todos os escalões de formação, formado os maiores nomes da Academia dos Galácticos e coordenava todos os escalões de formação, até à 2ª equipa de seniores, há muitos anos. Era uma pessoa estudiosa, persistente, muito exigente, de convicções fortes, mas sempre disponível para aprender e melhorar.

 

“Detetive Colombo a sua intervenção no Clube está a ser seguida com muita atenção e respeito, por todos, e percebemos que: uma pessoa que não está envolvida no dia-a-dia e com os seus conhecimentos pode ajudar-nos imenso. Estou com dois problemas, que gostaria de partilhar consigo e alargar as minhas possibilidades de os resolver adequadamente” – começou por dizer o Coordenador Smith. “O que se passa? Terei todo o gosto em colaborar” – devolveu o Detetive Colombo.

 

“Fui abordado por o Pai, de um jogador dos escalões de formação, a dizer que o filho ia desistir e tenho um treinador que reage sistematicamente com agressividade, quando as coisas não correm bem. Apetece-me dizer ao Pai “passe bem e tudo de bom para o seu filho” e ao treinador “chega, basta, estás dispensado”, mas sei que não iria resolver a situação. Quero aprender com o que se está a passar, de forma a poder dar a melhor resposta possível e a evitar que estas situações se repitam, no futuro” – contextualizou o Coordenador Smith.

“Vamos começar pela primeira. O que é que conhece do miúdo?” – perguntou o Detetive Colombo. “Sei que adora jogar, faz um sacrifício enorme para vir treinar, por morar longe, carrega duas mochilas, durante todo o dia, depois apanha um comboio e um autocarro, para vir aos treinos e tem 100% de presenças. No ano passado, jogava muito tempo, mas este ano, subiu de escalão, mudou de Treinador, tem uma utilização reduzida e agora quer desistir” – esclareceu o Coordenador Smith.

“O que é que me pode dizer da segunda situação?” – tentava perceber o Detetive Colombo. “O Treinador em causa adora o jogo, é um conhecedor profundo, foi jogador internacional, é Pai solteiro e, por isso, desdobra-se em sacríficos, para não faltar com nada ao filho e à sua função de Treinador, é muito tranquilo durante os treinos, mas quando chega aos jogos transforma-se e assim que vê alguma injustiça, por parte dos árbitros, passa-se, as expulsões são frequentes, os miúdos seguem-lhe o exemplo e quer o clima e quer os resultados acabam por ficar aquém do desejávamos” – clarificou o Coordenador Smith.

 

“Ou seja” – começou por dizer o Detetive Colombo – “estamos perante duas pessoas que adoram o jogo, fazem muitos sacrifícios por ele, atreveram-se a tentar conseguir os resultados que desejavam e por alguma razão, e paradoxalmente, poderão acabar fora do jogo, um por desistir e outro pelo seu comportamento agressivo poder conduzi-lo ao afastamento. Deseja investigar o que está para além do óbvio, com isso poder ter uma intervenção melhor para todos, evitando-se o abandono ou afastamento de quem gosta muito do que faz e faz muitos sacrifícios?”. “Claro Detetive Colombo. Vou mais longe, se perceber o que está na raiz desta situação, poderei melhorar muito a minha relação profissional, mas também familiar e social” – respondeu o Coordenador Smith.

 

“Coordenador Smith já esteve numa situação em que os resultados esperados, na conversa com um familiar, na relação com um Treinador, num jogo ou num Campeonato tenham ficado aquém do que esperava?” – perguntou o Detetive Colombo. “Infelizmente, estou frequentemente a viver esse tipo de situações. Quando era miúdo e estudava, algumas vezes, os resultados dos testes eram inferiores ao que esperava, outras vezes, treinava muito e bem e esperava ganhar o jogo, mas não era isso que acontecia e por vezes, tenho a melhor das intenções ao falar com os meus filhos, mulher, atletas, colegas de trabalho, (…), mas o resultado dessas conversas são exatamente o oposto do que desejava, criando novos problemas, em vez de os resolver e como Treinador e Coordenador os Campeonatos ganhos são vários, mas os momentos de insatisfação são muito mais” – partilhava abertamente o Coordenador Smith. “Essa situação é perfeitamente normal. Não tem nada de mal. Todas as pessoas, passam por momentos de frustração recorrentemente. Consegue aceitá-la, à frustração, por momentos?” – perguntou o Detetive Colombo. “Claro Detetive” – devolveu imediatamente o Coordenador Smith.

 

“Como é que costuma reagir a esses momentos de frustração? Como é que as pessoas que conhece tendem a reagir a essas situações?” – perguntou o Detetive Colombo, ao que o Coordenador Smith respondeu – “é curioso, agora que pergunta, já tive momentos em que desisti das coisas e outros em que me comecei a queixar-me, protestar e quando penso nas diferentes pessoas com que interagi, muitas delas reagem desistindo ou afrontado.” “Assim sendo, perante momentos de frustração, todas as pessoas, reagem do mesmo modo?” – inquiriu o Detetive Colombo, enquanto o Coordenador Smith o interrompeu – “não”. “Então” – começou por dizer o Detetive Colombo – “se diferentes pessoas reagem de maneira diferente para idênticas situações frustrantes, de quem é a responsabilidade pela resposta a esses momentos?”. Fez-se silêncio, o Coordenador Smith parecia estar a descobrir algo de importante e estava, pois, respondeu – “de cada pessoa. Ou seja, estou a perceber que todos passamos por situações frustrantes, na escola, na família, no emprego, (…), que a forma como cada um responde a esses momentos é da responsabilidade de cada um e que reagir desistindo ou afrontando os outros são duas alternativas que não produzem grandes resultados, como o abandono ou afastamento de pessoas que adoram e se sacrificam por algo. O que é que posso fazer diferente, para produzir melhores resultados?”.

 

“Para influenciarmos uma situação deliberada e construtivamente, há que a compreender primeiro” – começou por dizer o Detetive Colombo e continuou – “e uma parte dessa compreensão já a fizemos, mas ainda falta outra parte. O que é a frustração, para si?”. “Para mim, é o que acontece quando o que desejamos não acontece, quando ficamos aquém do que esperávamos” – respondeu o Coordenador Smith e de imediato o Detetive Colombo perguntou – “como se sente nesses momentos?”. “Detetive Colombo, está a ver uma panela a ferver? É como me sinto” – respondeu o Coordenador Smith. “Ok e o que pensa quando sente que está a ferver?” – perguntou o Detetive Colombo. “Penso que há algo de perigoso, como se fosse explodir e que tenho que fazer algo” – devolveu o Coordenador Smith. “O que é que lhe apetece fazer, nesses momentos?” – perguntou o Detetive Colombo. “Descarregar em alguém, umas vezes e outras tantas reprimir, com receio do que possa acontecer se a descarregar em alguém, por exemplo no meu chefe” – respondeu o Coordenado Smith.

 

“Muito bem Coordenador Smith, se continuar a pensar que a frustração é isso, a confundi-la, a pensar que tem que fazer alguma coisa, sem saber o que pode fazer de construtivo e útil, provavelmente não irá relacionar-se de modo diferente com a situação” – disse o Detetive Colombo que, apercebendo-se que a cara do Coordenador Smith sinalizava alguma confusão, continuou. Primeiro, convém distinguir culpa de frustração. A culpa resulta de fazermos algo de errado, do ponto de vista moral ou legal, enquanto a frustração deriva do que acontecer estar aquém do que desejávamos. Segundo, quando interpretamos a frustração como perigosa e a confundimos com irritação, então as nossas reações ficam muito condicionadas ao que o miúdo e o Treinador fazem e perguntou. Coordenador Smith, alguma vez viu a água a ferver explodir?”. “Não, quando tenho água a ferver num tacho e se a deixar a ferver, vai evaporando-se” – refletiu o Coordenador Smith. “Ou seja, parece que vamos explodir, mas na prática não vamos. Agora imagine que coloca a água a ferver numa panela de pressão. O que acontece quando a água já está a ferver há muito tempo?” – perguntou o Detetive Colombo. “A panela começa a assobiar e há vapor de ar que sai pela válvula” – respondeu o Coordenador Smith.

 

“Muito bem, esta imagem permite-nos compreender a diferença entre frustração e irritação. Quando a água começa a ferver, estamos frustrados, mas quando a água atinge um temperatura e pressão intoleráveis, a panela começa a assobiar e o vapor a sair, representando a irritação. Se confundirmos estes dois momentos, então iremos relacionarmo-nos com ambos como se a frustração fosse irritação, fosse intolerável, e desistimos ou afrontamos, em vez de resolver os problemas” – clarificou o Detetive Colombo.

 

“Então, a frustração é aquela sensação de energia, como quando a água está a ferver e que resulta da nossa capacidade não produzir os resultados que desejamos, seja em que situação for, como: a marcar um penalti, se o falhamos; a corrigir um jogador, se desiste ou nos afronta; a (…)” – integrava o Coordenador Smith.

 

“Imagine que a nossa capacidade era suficiente para obter os resultados que desejámos. Ficaríamos frustrados?” – perguntou o Detetive Colombo. “Não, claro que não. Já compreendi, a frustração é energia potencial como quando, numa corrida de 100 metros, o juiz diz aos seus lugares, prontos e levantamos um joelho do chão, avançamos ligeiramente os ombros, sentimos aquele estado de contração, nos blocos de partida e estamos prontos para fazer alguma coisa. Naquele estado, podemos fazer muitas coisas, habitualmente reagimos desistindo ou afrontado e não conseguimos o que desejamos, mas existe uma terceira alternativa: que é saber o que é a frustração – energia potencial – que resulta da nossa capacidade, ainda, não estar à altura das exigências de alguma situação. Pelo que, se melhorarmos essa capacidade, podemos obter os resultados que desejamos. Ou seja, quando estamos frustrados podemos redirigir essa energia potencial perguntando: o que podemos aprender ou melhorar, para obtermos os resultados que desejamos, em vez de desistir ou afrontar” – rematou o coordenador Smith.

 

“Nem mais Coordenador Smith, cada um de nós, em situações em que os resultados ficaram aquém do que desejávamos, podemos ter três respostas diferentes, que produzem resultados diferentes” – começou por reforçar o Detetive Colombo e continuou – “imagine três panelas com água: na primeira, coloco uma cenoura; e na segunda, um ovo. O que acontecerá à cenoura e ao ovo, quando a água começar a ferver?”. “A cenoura que era rija ficará mole e o ovo que se desfazia facilmente ficará rijo, mas o que acontece na terceira panela?” – perguntou o Coordenador Smith. “Na terceira panela, imagine que coloco café na água a ferver, o que acontece?” – perguntou o Detetive Colombo. “Faz café” – respondeu o Coordenador Smith e continuou – “nos momentos de frustração, podemos responder passivamente, como a cenoura em água a ferver; podemos responder agressivamente, como o ovo em água a ferver; ou podemos transformar a água a ferver em algo construtivo e útil, “café”, no caso, em momentos de aprendizagem, de melhoria da capacidade e com isso passarmos a obter os resultados que desejamos”.

 

“Ou seja. Se lidarmos com a frustração utilizando cenouras – desistindo - ou os ovos – afrontando - não acontecerá mudança, mas se aproveitarmos os momentos de frustração utilizando a estratégia do café, então podemos aprender, melhorar e mudar. Detetive Colombo, muito obrigado, vou utilizar este conhecimento para resolver ambas as situações, do miúdo que quer desistir e do treinador que estava prestes a dispensar, pois percebi quer o miúdo, quer o Treinador que reage agressivamente têm mais em comum do que parece. Ambos estão frustrados e ambos estão a comprometer o que gostam, desejam e pelo que se sacrificam. A diferença está na maneira como cada um está a lidar com a frustração. Se ambos redirigirem essa energia potencial da frustração, para aprenderem e melhorarem as suas capacidades, então poderão estar mais perto de conseguirem o que desejam” – resumiu o Coordenador Smith.

 

Estava encontrado mais um suspeito de estar a “matar” a mudança no F.C. os Galácticos, a forma como as pessoas – jogadores, pais, treinadores, diretores e sócios – estavam a lidar a frustração (“cenoura” ou “ovo”). Como poderá ser o Clube, como poderão ser as Escolas, os Hospitais, as Fábricas, as (…), se todos passássemos a melhorar as capacidades (técnicas, sociais, emocionais, motivacionais ou relacionais) que condicionam os resultados desejados, em vez de desistirmos ou reagirmos agressivamente ao que gostamos e desejamos?

 

João Oliveira
Doutor em Psicologia, Mestre em Ciências do Desporto, Licenciado em Ensino da Educação Física, Treinador de Basquetebol, Treinador de Equipas, professor de Psicossociologia das Organizações e do Desporto no Instituto Universitário da Maia – ISMAI e formador em Desenvolver Equipas Eficazes, Motivação e Gestão do Pensamento em Contexto Profissional, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.

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