Do “fair play”… ou do “enganem-me que eu gosto”! (artigo 6 de Armando Neves dos Inocentes)

Espaço Universidade 26-12-2018 19:43
Por Armando Neves dos Inocentes

Fala-se de futebol, pensando-se que se está a falar de desporto. Fala-se em ética no desporto quando se deveria estar a falar de moral no desporto. Fala-se de fair play em qualquer situação nem que seja somente no mero cumprimento do regulamentado… Utilizam-se indiscriminadamente no desporto meia dúzia de termos que se foram banalizando acabando-se por se perder o seu real significado. Um problema de semântica ou um problema de conhecimento? Ou ainda, um problema de manipulação?

 

Tanto a comunicação social como o público consumidor de desporto acabam vítimas de um espectáculo apresentado por profissionais em que os valores da cultura desportiva original há muito se esfumaram, criando-se assim um círculo vicioso. Um dos termos mais generalizados é “fair play”… aquilo que se exige ao desporto mas que não se exige no dia a dia-a-dia da sociedade ou da política…

 

A noção de fair play encontra-se relacionada com omissões nas regras e regulamentos ou com situações em que o agente desportivo – competidor, treinador ou outro – busca uma certa equidade, procurando o mesmo adaptar essa omissão existente à situação do momento, pretendendo aplicar um critério de justiça e igualdade, sendo esse fair play um comportamento intimamente ligado aos valores do referido agente e que são moral e culturalmente relevantes perante a sociedade e que a mesma legitima.

 

Falacioso o título “Peruanos e dinamarqueses dão show de fair play nas redes sociais - Federações de ambos os países deixam o exemplo” (Record, 30.05.2018)…

 

Intitular uma notícia ou um artigo, tal como se pode ver na internet (12.12.2018), com a frase “Um fair-play brutal: Dínamo de Kiev dá a mão ao Shaktar e deixa Paulo Fonseca emocionado” porque um clube cede o seu campo a outro nada tem a ver com fair play… poderá ter a ver com cortesia e com bom relacionamento entre clubes…

 

Tal como o facto do judoca egípcio Islam El Shehaby, que se recusou a cumprimentar o adversário, Or Sasson, de nacionalidade israelita, nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro nada ter a ver com ausência de fair play, mas sim com a formação do competidor e com a sua falta de respeito pelo adversário.

 

A própria FIFA colabora neste erro ao chamar “regra do fair play” ao critério que desempatou o Japão e o Senegal no grupo H no último mundial de futebol. Os japoneses acabaram por passar para a segunda posição do grupo, à frente dos senegaleses, por estes terem mais dois cartões amarelos atribuídos que os nipónicos. Este aspecto organizacional, legal e regulamentar nada tem a ver com a noção de fair play…

 

O comissário Iúri Rodrigues, num artigo intitulado “A pirotecnia verbal e literal é o que mais preocupa” (O Jogo, 25.11.2018, p. 33), ao abordar a problemática dos comentadores desportivos – “gurus da informação” segundo as suas palavras – sobre os mesmos afirma que “há falta de fair play, quere-se ganhar a todo o custo e julgam que estão legitimados a criar ambientes de intimidação.” Mais um uso incorrecto do termo fair play, porque o que existe é falta de princípios…

 

Não é uma questão de fair play ajudar ou socorrer um adversário num momento de lesão. Este é um acontecimento – que muito aparece na história do desporto – relacionado com a solidariedade entre seres humanos.

 

O fair play é um comportamento, logo algo visível, determinado por valores. Está intimamente ligado à acção de um qualquer agente desportivo ao prescindir de algo que lhe é favorável para repor uma situação. O agente abdica assim de uma situação vantajosa em prol da reposição da veracidade dos factos.

 

Num jogo de futebol em 2005, Miroslav Klose, então atacante do Werder Bremen, avisou o árbitro de que este tinha marcado uma grande penalidade inexistente favorável à sua equipa, pelo que o árbitro anulou a sua decisão. Em 2012, desta vez ao serviço da Lazio, Klose marcou um golo com a mão, o árbitro validou-o mas a seguir o próprio jogador deu conhecimento ao mesmo da ocorrência, voltando este atrás com a sua decisão. Fair play declarado!

 

Mas existe também o reverso da medalha. Em Novembro de 2009, no França-Irlanda de apuramento para o Mundial de 2010 na África do Sul, Thierry Henry joga deliberadamente com a sua mão esquerda a bola e Gallas marca de cabeça, sendo o golo validado pelo árbitro… e a França apura-se. Após o jogo Henry declarou: “Sim, houve mão, mas eu não sou o árbitro.” Em Junho de 2010, em jogo de apuramento para o mesmo mundial, mas com outros intervenientes (Alemanha e Inglaterra), Frank Lampard remata à baliza, a bola bate na trave, ressalta para o chão transpondo a linha de golo, e Manuel Neuer, agarrando a bola coloca-a de novo em jogo. Nada sancionado… Mais tarde, diria Neuer: “Tentei não reagir ao árbitro, concentrando-me apenas no que estava a acontecer. Dei-me conta de que estava para lá da linha e penso que o facto de eu ter sido tão rápido enganou o árbitro, fazendo-o pensar que não estava.”

 

Muitos exemplos conhecidos de jogadores que propositadamente falham a marcação de grandes penalidades poderão ser confrontados com um dilema. Isto porque, no desporto pós-moderno, o jogador é pago pela entidade patronal para marcar golos… e não para ser honesto.

 

Ultimamente vieram a terreiro duas notícias coincidentes no tempo e no ocorrido. A primeira, sobre a segunda jornada da 2.ª fase do Campeonato Distrital de Infantis, entre o Aljustrel e o Alvito. A equipa visitante alinhou somente com 6 jogadores (futebol de 7), pelo que o Aljustrelense, por sua iniciativa e sem que qualquer regulamento o obrigasse, fez alinhar também a sua equipa com menos um jogador. A segunda, acerca do jogo de futsal entre as equipas de iniciados do Vitória de Santarém e do Sport Clube Ferreira do Zêzere – escalões de formação – em que esta segunda equipa só se pode apenas apresentar com 4 elementos. Os escalabitanos entenderam então fazer alinhar a sua equipa também só com 4 jogadores. Seriam estas situações semelhantes – e sim, demonstrativas de fair play – possíveis no futebol profissional?

 

Exijamos e pratiquemos o fair play na vida diária, na convivência com os nossos semelhantes, mas exijamos também que não nos tentem enganar com a utilização indiscriminada desse termo no desporto.

 

Armando Neves dos Inocentes é licenciado em Ensino de Educação Física, Mestre em Gestão da Formação Desportiva, cinto negro 5º dan de karate-do e treinador de Grau IV

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