Quem “matou” a mudança? Suspeito nº 11 – As situações … e os momentos de … (artigo de João Oliveira)

Espaço Universidade 26-12-2018 15:28
Por Redação

Estava uma manhã cinzenta, mas não chovia e o Detetive Colombo descia a rua em paralelo que dava acesso ao Pavilhão de treinos das modalidades “amadoras”. A meio da descida, começa a visualizar o principal campo de treinos de Futebol. Uns passos mais à frente e à sua direita uns poucos degraus, um pequeno espaço e o acesso ao Pavilhão de treinos. Passada a porta, um pequeno átrio para se assistir aos treinos e a seguir uma porta de acesso aos balneários. Passou a porta e encontrava-se num corredor. Enquanto se dirigia para uma porta ao fundo, o Detetive Colombo constatava várias portas de acesso a diferentes balneários. Começava pelo balneário dos Minis, seguia-se o dos Treinadores e ao fundo 3 portas. Na sua direita, a porta do balneário das equipas mais velhas, à sua esquerda uma entrada direta para um dos campos de treino e em frente a porta de acesso à arrecadação. Estava aberta, mas mesmo assim o Detetive Colombo bateu à porta. O Sr. Carlos estava a tratar dos equipamentos, virou-se e disse – “deve ser o Detetive Colombo!”. “Sim, sou” – respondeu o Detetive. “Disseram-me que iria passar por cá para falar comigo” – devolveu o Sr. Carlos.

 

O Sr. Carlos estava na casa dos 60, mas aparentava mais idade. Era de estatura baixa, moreno, bigode farfalhudo, cabelo grisalho, rosto muito “moreno” das muitas horas de trabalho no exterior, não de praia, e marcado por muitas rugas. Era um trabalhador competente e incansável. O primeiro a chegar ao Pavilhão e o último a sair. Deslocava-se sempre na sua “pasteleira”. Vivia para o Clube, para os atletas e recordava com saudade os tempos de juventude em que tinha feito parte de um grupo de Teatro amador. Era muito reservado, observador, discreto e contido.

“Sr. Carlos, como sabe, estou a trabalhar para o Clube a pedido do Presidente Angie” – começou por dizer o Detetive Colombo. O Pavilhão estava tranquilo, não havia nenhuma equipa presente e o Sr. Carlos tinha todas as suas tarefas resolvidas, pelo que respondeu – “sei que sim Sr. Detetive o Presidente Angie ligou-me pessoalmente a pedir para colaborar com o Detetive”. O Detetive Colombo ficou admirado e pensou “o Presidente ligou diretamente!”. A sua cara desencadeou a resposta do Sr. Carlos – “parece admirado Sr. Detetive, mas estou no Clube há muitos anos e o Presidente Angie, também passou por este Pavilhão, na sua meninice e eu já cá estava”.

“Pois bem, o Sr. Carlos está diariamente no Pavilhão, vê muitas equipas e jogadores a jogar, vê muitos jogadores e gostava de saber o que é que, na sua perspetiva, poderá estar a impedir as equipas e jogadores de melhorarem os seus resultados?” – perguntou o Detetive. O Sr. Carlos ficou intrigado, mas dado o pedido ter sido feito diretamente pelo Presidente Angie, anuiu em colaborar e começou por dizer – “os nossos miúdos e graúdos dão-se muito bem com os adversários que conhecem. Chegam ao Pavilhão cheios de confiança, equipam-se rapidamente, entram no Pavilhão a pensar que vão ganhar e as coisas correm muito bem. Há dias em que os seus desempenhos são memoráveis. Contudo, quando o adversário é desconhecido, como acontece em alguns jogos internacionais, tudo é diferente”.

“O que quer dizer Sr. Carlos?” – perguntava o Detetive Colombo. “Olhe” – começou por dizer o Sr. Carlos – “por vezes há jogadores que ficam doentes nas vésperas desses jogos, alguns chegam muito próximo da hora de concentração, cabisbaixos, outros a roerem as unhas, demoram muito tempo a equiparem-se, antes de entrarem em campo vão à casa de banho, que por vezes fica impossível de se estar perto, entram no Pavilhão às pinguinhas e quando estão a jogar não os reconheço”. “Como assim?” – explorava o Detetive Colombo. “Sabe Detetive eu vejo todas as equipas a treinar e a jogar. Sei o que são capazes de fazer, porém, nestas situações eles não conseguem jogar o que são capazes, não nos mostram o que sabem e conseguem. Olhe Detetive, por vezes e é como se estivessem a jogar dentro de coletes de forças, presos de movimentos. Não parecem os mesmos. Se não os conhecesse, nestes momentos, diria que não eram capazes de mais, depois, no final dos jogos, arranjam desculpas com os colegas, treinadores, árbitros, sistema de jogo e pior do que isso é que este ciclo se repete perante adversários desconhecidos e quando reencontram aqueles com que jogaram a primeira vez e as coisas não correram bem” - devolveu o Sr. Carlos.

“Estou a perceber o que me está a dizer” – dizia o Detetive Colombo quando é surpreendido pela interrupção do Sr. Carlos, parecia que o que tinha para dizer era muito importante, que lhe estava atravessado na garganta e que queria muito que os jogadores fossem capazes de expressar em campo, contra os adversários que desconheciam ou tinham anteriormente perdido, todas as suas capacidades, em vez de se derrotarem a eles próprios, por nem sequer arriscarem e tentarem e acrescentou. “Imagine um ator a entrar em num palco em que na assistência está apenas a sua família, que o apoia incondicionalmente. O ator sente-se confortável, seguro e consequentemente representa o seu papel com todas as suas faculdades. Agora pense no mesmo ator, mas agora e de repente vai atuar para um público que desconhece e não sabe como irá reagir ou que irá atuar no palco em que atuou na noite anterior e foi assobiado” – dizia o Sr. Carlos, enquanto o Detetive Colombo recordava uma situação idêntica que tinha acontecido consigo, na sua infância, quando atuou pela primeira vez, numa peça da Escola e começou a ter as mesmas sensações que sentiu nessa altura: aquela ansiedade, divisão entre entrar em palco ou não, entre representar ou fugir do palco, o discurso derrotista de dizer a si próprio que não ia correr bem, que as pessoas não iam gostar e o receio das consequências de tentar e ter um mau desempenho e que, por isso, o melhor era nem sequer tentar e disse – “compreendo perfeitamente o que me está a dizer Sr. Carlos”.

“Tivemos um jogador estrangeiro” – partilhava o Sr. Carlos – “que quando aqui chegou, parecia que não ia durar uma semana. Tinha viajado para um país desconhecido, estava num Clube e equipa que não conhecia e desconhecia igualmente os colegas de equipa. No final do treino, via-o sistematicamente a tirar um bilhete da carteira, do tamanho de um cartão multibanco e lia o que dizia de um lado, virava-o e lia o que dizia do outro lado. Os dias iam passando e ele repetia o ritual e curiosamente de dia para dia o jogador exibia-se cada vez melhor. Acabou por tornar-se um dos nossos melhores estrangeiros e no final da época perguntei-lhe o que dizia naquele bilhete, que lia religiosamente, quando terminava cada treino e jogo. Num dos lados dizia F.A.I.L. e perguntei-lhe o que queria dizer e ele disse-me FALHAR. Achei estranho e nem estava a conseguir associar a melhoria de rendimento ao F.A.I.L., mas quando lhe pedi para explicar o que dizia do outro lado, tudo fez sentido FIRST ATTEMPET IN LEARNING. Ele NÃO falhava, as coisas ou lhe corriam bem ou ele APRENDIA e por isso todos os dias voltava a tentar, a arriscar e com isso tornava-se melhor.”

Estava perto da hora de almoço e o Sr. Carlos pega num clipe, prende as calças à canela direita e arranca, na sua “pasteleira”. O Detetive Colombo pega no seu bloco e começa a tomar algumas indicações sobre o que aprendeu da conversa com o Sr. Carlos, para informar o Presidente Angie:

·         Podemos aprender com todos e hoje aprendi muito sobre o Clube e sobre as pessoas com o Sr. Carlos, responsável pelos equipamentos

·         Perante situações conhecidas e em que foram bem-sucedidos, os atletas e as equipas sentem-se confiantes, acreditam que vão ser capazes e acabam por ter desempenhos memoráveis

·         Porém, quando as situações são desconhecidas ou há uma reexposição a situações em que as coisas não correram bem, alguns jogadores e treinadores não sabem o que é a ansiedade, não a reenquadram, começam a tentar explicar o que desconhecem dizendo a eles próprios, antes do jogo, que será muito difícil, que não vão ser capazes, e depois do jogo que a culpa foi do árbitro, colega ou treinador, e esta “solução encontrada” aumenta a ansiedade, em vez de a redirigir, por sua vez gera um nível de tensão que limita, condiciona o que é que os jogadores e treinadores fazer e o que poderão vir a fazer, pois não arriscam, nem sequer tentam e por isso obtém resultados negativos ou repetem-nos, e que também poderá induzir estados de doença.

·         Encontrei mais um responsável de poder estar a “matar” a mudança no Clube – gerir as situações desconhecidas e os momentos reexposição a situações que correram mal.

Fecha o bloco, levanta o olhar e vê o campo de treino à sua frente e recorda-se das muitas situações em que: os alunos antes dos exames em que desconhecem os seus resultados e estes são importantes ou quando estão a repeti-los; e os colaboradores de uma empresa antes de uma reunião importante ou depois de outra ter corrido mal; que nem sequer tentam, quanto mais arriscar e com isso comprometem os seus resultados, a qualidade da sua experiência e as suas contribuições.

“Tenho que falar com o Presidente Angie” – pensou o Detetive Colombo enquanto subia a acentuada e difícil rampa em paralelo, que parecia personificar a dificuldade em mudar, mas que acabou por conseguir subir, como conseguirá o F.C. os Galácticos e conseguirão todas as pessoas que quiserem mudar.

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