CONTO de NATAL – “camilinho” lindo!… (artigo de José Neto, 79)

Espaço Universidade 26-12-2018 18:10
Por José Neto

Pediu-me minha filha para escrever um Conto de Natal fazendo referência ao “nosso” “Camilo”, então um valente cão de guarda.

 

Pensava eu que ficaria por aqui, pois teria matéria mais que suficiente para descrever a história comovente deste nosso companheiro. No entanto, vou começar por associar esta temática de doação à vida, precisamente referindo uma prenda, essa sim oferecida na última noite de Natal, envolvida numa manta quente da serra da Estrela, tal e qual uma gatinha preta malhada de branco e pacientemente pachorrenta e que também por este facto, ficou com o nome de “milka”.

E eu, que até então pouca importância ligava a este tipo de animais!… Mas ao saber das suas origens, dei largas á vontade de a receber de braços abertos em minha casa.

Foi precisamente nos primeiros dias de Dezembro que uma menina, ao lançar o lixo ao contentor, percebeu uma inquieta sensação de movimento. Subiu em bicos de pés e de imediato retirou de um saco de plástico, já em estado de completo desespero e agonia, esse animal jazendo, acabando por lhe dar guarida.

Como já estava bem servida com tantas e idênticas espécies, essa menina, de seu nome Ana, resolveu coloca-la à disposição de minha filha, num tributo de bem-fazer. Assim, foi que, na noite Santa e no momento da distribuição das prendas, se ouve um miar misturado de ininterruptos rons-rons, como que em ternura pedir assento no nosso lar.

Eu, porque entendi a triste história do abandono, lhe estendi as mãos, sendo o seu afeto sempre correspondido com repetidas investidas de simpatia… e até já tem outra companheira, tipo novelo de algodão de olhos azulados, chamada “xiquinha” que sempre se acomoda a meus pés, desafiando a confiança pelo carinho que lhe é devotado!…

Quanto ao rafeiro, começo por perceber os exemplos de devoção que os humanos deveriam de aprender com certas espécies de animais, referindo neste caso um simples cão rafeiro, nascido e criado em lancinante estado de agonia.

De facto, ao final de cada dia e mesmo durante a noite, ouvíamos uns latidos de aflição, ali mesmo pelas margens do riacho, próximo de minha casa.

Dei-me à atenção de acompanhar à distância a ida e vinda dum rebanho de ovelhas, carneiros, cabras e cabritos, por entre os caminhos que o levavam às pastagens dos lameiros. Atrás, sempre seguia, em triste caminhar, um cão rafeiro com o focinho quase a romper a calçada, de orelha caída e que, à medida do tempo de cansaço, também suspendia uma das patas dianteiras, arrastando-se nas três que lhe restavam.

Com a chegada dum Outono invernoso, mais agudos, aos finais de tarde e durante a noite eram os seus gemidos e mais compassadas as possíveis razões de existência.

Um dia, como que desobrigado das suas funções de vigia, pois entretanto o rebanho rumou a outro destino, era ver, ao cair das trindades, este vulto, focado na atenção da minha casa… mas, ao mais pequeno sinal de aproximação, desaparecia por entre o ervado.

Deixamos de ouvir os seus lancinantes e agudos latidos, mas à entrada da noite, lá aparecia, cada vez mais próximo o triste cãozinho.

Notava-se-lhe uma vontade de aproximação, mas… quando pensávamos que era desta vez que nos entrava no portão, desaparecia num ápice!…

Até que a persistência do apelo pela voz meiga de minha filha Andreia, acompanhada pela observação cuidada de minha mulher Nelinha, munida desta vez com um suculento naco de carne, ele se chegou próximo, mesmo muito próximo, mas, ao mais pequeno gesto de afeição… voltava a desaparecer.

Tantas foram as tentativas que, num cair de tarde, mais fria e ventosa que o habitual, nos surpreendeu com a entrada por portas adentro, uma semelhança de cão rafeiro, cuja magreza fazia sobressair do corpo salientes ossadas e numa das orelhas uma ferida aberta e ainda com uma pata fraturada, por isso sempre suspensa, junto ao corpo a roçar o focinho.

Com carinho foi recebido, com mil cuidados foi tratado, higienizado, etc.… e com dedicação lhe foi conferido o estatuto de entrada para junto do fogão a lenha e, num cesto almofadado, se lhe apresentou um digno conforto. Até também um nome passou a ostentar no seu bilhete de identidade – “camilo”!…

Partiu fez este Natal 2 anos já que uma arreliadora doença o impediu de prosseguir as suas correrias!...

Mas ficou a imagem … era vê-lo, sentinela da sua dona adotiva!… Embora em passo lento ainda usasse esse caminhar trôpego, quando lhe dava a vontade de correr, lançava-se com toda a garra ao quintal, ziguezagueando entre as árvores de fruto, saltando os socalcos das leiras e muito sinceramente, quando nos fitava os seus olhos muito meigos, oferecia-nos algumas das expressões mais inesquecíveis de fidelidade e reconhecimento.

Por vezes até parece que num repente lançava um sorriso e se revirava de contentamento a quem o saudava com uma simples expressão:

—Eh “Camilo”… nosso “Camilinho” lindo!…

Com o Natal outras prendas feitas milagres acontecem…

Para os meus estimados e estimadas leitoras um FELIZ NATAL extensivo a todos aqueles que permanecem em afetos “amarrados” ao vosso coração.

 

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