Quem “matou” a mudança? Suspeito nº 6 – A Relação com a Equipa / Organização (artigo de João Oliveira)

Espaço Universidade 29-10-2018 19:00
Por João Oliveira

A época já tinha inicial há dois meses e o legendário Treinador do F. C. Galácticos Brad Wooden enfrentava um problema, na sua multimilionária equipa. Não sabia bem o que é que se estava a passar, mas sentia que os jogadores não estavam a contribuir a 100%. Recordou a rica e esclarecedora conversa com o Detetive Colombo (da brigada dos homicídios empresariais), sobre as normas e cultura das equipas e organizações e decidiu convidá-lo para conversar no final do treino.

Qual era o problema que o Treinador Wooden enfrentava e que estava a comprometer o contributo, o desenvolvimento, a “mudança” e o rendimento da multimilionária equipa?

 

“Boa tarde Detetive Colombo” – saudou o Treinador Wooden. “Como está Treinador Wooden” – respondeu o Detetive Colombo, ao mesmo tempo que os seus olhos se desviavam para as paredes do escritório do Treinador Wooden, onde todos aqueles Trofeus, Prémios e Distinções impressionavam qualquer um. Apercebendo-se disso, o Treinador Wooden observou – “são muitos trofeus, mas os desafios de melhoria são constantes”. “Como assim Treinador Wooden? Com os seus 30 anos de experiência, com todos os títulos conquistados, que desafios poderá ter?” – indagava o Detetive Colombo.

 

“Detetive Colombo, no início da minha carreira as questões técnicas, táticas e físicas estavam no centro dos problemas ou, melhor, eram os meus principais desafios. Contudo, fui-me apercebendo de um outro conjunto de fatores igualmente decisivos, para o bom funcionamento e resultados da equipa, concretamente: emocionais, motivacionais, de mentalidade e de relação. Gostei muito da última conversa que tivemos e estando a enfrentar um problema/desafio que ainda não percebi muito bem qual é, lembrei-me do Detetive, na esperança de que me possa ajudar a perceber o que se está a passar” – respondeu o Treinador Wooden.

 

“O que se passa concretamente? O que é que o está a preocupar?” – perguntou prontamente o Detetive Colombo.

“Tenho um conjunto de jogadores que parece que ainda não aderiram há equipa, é como se fizessem parte da equipa, mas pouco ou nada contribuem e tenho outro grupo de jogadores que estão sempre a levantar problemas, a colocar questões, como que se estivessem a sabotar a equipa” – constatou o Treinador Wooden.

 

“Consegue dar-me uma imagem que me ajude a entender melhor o que se passa?” – perguntou o Detetive Colombo.

“Claro. Recorda-se de algum momento em que um barco estava a partir e havia pessoas a acenar em terra e outras no barco, enquanto partia?” – desafiava o Treinador Wooden. “Sim, recordo-me do Titanic a partir, quando deixou o porto de Southampton” – devolveu o Detetive Colombo.

 

“Pois bem Detetive, agora imagine que se trata de um barco a remos e que há pessoas que estão em terra a acenar e outras dentro de um barco e que o barco é a minha equipa. Neste momento, tenho elementos da minha equipa que parece que não entraram no barco, que ficaram em terra a acenar e que por isso não estão a ajudar o barco – equipa – a chegar ao seu destino. Também tenho pessoas que entraram no barco, mas em vez de pegarem num remo e ajudarem o barco – equipa – a chegar ao seu destino, são mais do que pesos “mortos”” – referia o Treinador Wooden, no momento em que o Detetive Colombo o interrompia – “mais do que pesos “mortos”? o que quer dizer com isso?”.

“Uma coisa é ficar em terra a acenar e não ajudar a equipa, outra é entrar no barco nada fazer, levantar problemas sistematicamente ou sabotá-lo e outra ainda bem diferente é entrar no barco, pegar num remo, começar a remar e ajudar o barco – equipa – a concretizar os seus objetivos! Neste momento, sinto que há várias pessoas a acenar, outras tantas a pressionar e poucas a remar” – clarificou o Treinador Wooden.

 

O Detetive Colombo de imediato referiu - “Treinador Wooden identificou, na perfeição, os três meta-papéis, que as pessoas utilizam para se relacionarem com as equipas e organizações …”, sendo interrompido pelo Treinador Colombo – “meta-papéis, o que é que isso significa?”.

 

“Recorda-se de no início da nossa conversa ter referido que tinha descoberto que havia outras questões, para além das técnicas, táticas e físicas que influenciavam o rendimento e que entre elas estava o tipo de relação ou interação que as pessoas estabelecem?” – perguntou o Detetive Colombo. “Sim, recordo-me perfeitamente e onde é que isto se encaixa?” questionou o Treinador Wooden.

 

“Imagine um rio e duas margens. O que é que as pessoas fazem quando querem ligar essas duas margens?” – perguntou o Detetive Colombo e de imediato o Treinador Wooden exclamou – “pontes!”. “Exato as pessoas utilizam as pontes, para ligar duas margens e o mesmo se passa entre as pessoas e as equipas/organizações, considerando que uma margem é a pessoa e a outra é a equipa ou organização. Isto é, as pessoas utilizam pontes para se ligarem às equipas ou organizações em que trabalham, mas essas pontes não são físicas, antes papéis” – esclarecia o Detetive Colombo.

 

“Detetive Colombo, deixe-me ver se entendi. Está a dizer-me que os meus jogadores se relacionam ou ligam à equipa e ao Clube através de meta-papéis, que há três meta-papéis, acenar, pressionar e remar e que acenar e pressionar são dois papéis que alguns dos meus jogadores estão a utilizar, para se relacionarem com a equipa e organização, que estes dois meta-papéis “matam” a possibilidade de desenvolvimento, de mudança e consequentemente a qualidade da relação e a possibilidade de resultados memoráveis” – tentava sintetizar o Treinador Wooden.

 

“Não conseguia dizer melhor” – devolveu o Detetive Colombo e de imediato o Treinador Wooden refletiu – “o mesmo se passa com professores e pessoal auxiliar nas Escolas, com enfermeiros, médicos e pessoal administrativo nos hospitais ou com os colaboradores e gestores de uma empresa?”.

 

“Sem dúvida, estes meta-papéis (pontes) não são específicos das equipas desportivas, fazem antes parte das soluções que as pessoas encontraram para se relacionarem com a “outra margem”, seja essa margem uma equipa desportiva, uma escola, uma turma, um hospital, uma esquadra, uma empresa ou uma equipa; que diferentes meta-papéis resultam em experiências e resultados qualitativamente diferentes e alguns, isto é, os meta-papéis acenar ou pressionar, que atualmente estão a ser utilizados por algumas pessoas para se ligarem à sua equipa, “matam” a mudança” – resumia o Detetive Colombo.

 

“Ou seja, se quero diferentes / melhores resultados, então tenho a oportunidade de transformar a qualidade da relação com a equipa, isto é, os papéis de acenar ou de pressionar em remar. Detetive, deixe-me ser eu a abordar o Presidente Angie e informá-lo de mais um dos suspeitos de estar a “matar” a mudança no Clube” – pediu o Treinador Wooden.

 

“Claro, Treinador Wooden” – respondeu o Detetive Colombo. Depois de se despedirem, o Treinador Wooden ligou com o Presidente Angie e marcou uma reunião, para o informar do que tinha descoberto em relação à sua equipa e que poderia igualmente existir nas outras equipas e departamentos do Clube. Recordou-se de muitas situações em várias equipas que treinou, em que havia pessoas a acenar ou a pressionar, mas também das equipas com que tinha vencido todos aqueles campeonatos e que agora se apercebia de que os jogadores, treinadores adjuntos, médicos, fisioterapeutas, (…) dessas equipas vencedoras remavam. Começou a imaginar na qualidade da experiência e dos resultados se transformasse acenar e pressionar em remar, como poderia ser o final da presente época?

 

João Oliveira é Doutor em Psicologia, Mestre em Ciências do Desporto, Licenciado em Ensino da Educação Física, Treinador de Basquetebol, Treinador de Equipas, formador em Desenvolver Equipas Eficazes e Motivação na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto e professor de Psicossociologia das Organizações e do Desporto no Instituto Universitário da Maia - ISMAI.

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