O futebol e Jorge Semprún (artigo de Manuel Sérgio, 263)

Espaço Universidade 29-10-2018 11:54
Por Manuel Sérgio

Jorge Semprún (1923-2011), espírito multifacetado e original, mas sempre acessível a qualquer escalão do público, foi escritor de grande comunicabilidade e autenticidade; foi argumentista escolhido por “homens do cinema” como Alain Resnais, Jean Prat, Yves Montand: e, “finis coronat opus”, um corajoso resistente anti-fascista e anti-nazi, militante e dirigente do Partido Comunista de España, na clandestinidade; preso pelas tropas de Hitler e deportado para o campo de extermínio de Buchenwald. Após a libertação, precisamente em 1945, desempenhou os mais altos cargos no P.C. de España. Mas, ao apontar novos caminhos e novos modos de ser comunista, foi expulso do P.C., por dissidências ideológicas, corria o ano de 1960. A partir de então, liberto de trabalhos partidários, entrou de escrever, tanto em castelhano como em francês, principalmente sobre a dura experiência de um campo de concentração nazi e sobre a clandestinidade, na Espanha franquista, com o pseudónimo de Federico Sánchez. Foi ainda ministro da Cultura do governo de Felipe Gonzalez (1988-1991); argumentista premiado, com um Óscar, em 1970; e o primeiro escritor não-francês a ingressar na Academia Goncourt. Não é fácil esboçar o perfil de Jorge Semprún, mas não deixo de referir os inúmeros prémios com que o distinguiram, pela invulgar sobreposição dos traços intelectuais, morais e políticos que o caracterizavam. Já li deste autor Vingt Ans Et Un Jour e A Segunda Morte de Ramon Mercader. Há poucos dias, findei a leitura do livro, seu também, A Linguagem É A Minha Pátria, que reúne uma série de conversas com Franck Appréderis, seu amigo de há muitos anos, e onde Jorge Semprún se revela um  empenhado protagonista da história recente do continente europeu. Saliento uma das suas frases: “Tenho mais recordações do que se tivesse mil anos”.

                Mas há uma recordação que ele distingue, sobre as mais: “Creio poder dizer que a coisa mais bem conseguida, na minha vida, foi a clandestinidade – ora, a clandestinidade impede as relações de sedução. Completamente. Não nos podemos dar ao luxo de ter uma vida rigorosamente clandestina e de ter múltiplas aventuras sentimentais, é impossível (…). Talvez tenha sido para compensar essa abstinência que surgem, nos meus romances, uma abundância de personagens femininas, de aventuras e de histórias. São todos os sonhos que não concretizei na realidade”. O inestimável contributo de intelectuais, como o Jorge Semprún, que arriscaram a vida, em luta contra o fascismo e o nazismo, para que dessa luta sem quartel surgissem modelos insuperáveis de uma vida mais solidária e mais justa, para todas as pessoas, sem exceção de raça, condição e género – merece o consenso coletivo de um sentido aplauso, de uma intacta gratidão de todos os “homens de boa vontade”. A Homens, como o Jorge Semprún,  deve-se-lhes o altíssimo exemplo de nos apontarem, com mão firme, o caminho da transcendência (ou superação) e uma inesperada referência ao eterno, pressentida nas formas efémeras do nosso quotidiano. Quando no livro A Linguagem É A Minha Pátria relata o convite de Felipe Gonzalez a que aceitasse o Ministério da Cultura, revela as duas razões por que anuiu ao interesse do secretário geral do P.S.O.E.: “Porque o Felipe Gonzalez passava a ter ao seu lado um escritor conhecido na Europa e pelo meu passado de dirigente antifranquista (…). Na escadaria do Moncloa, o palácio presidencial, à meia-noite, no momento em que eu saía, para regressar ao hotel, disse-me estas frases de que me recordo quase textualmente: Vais ser ministro (…). Mas um dia hás-de ir em visita a uma longínqua província espanhola inaugurar uma biblioteca, ou presidir a um colóquio, e serás recebido, como ministro, pelo coronel da guarda-civil. Ele pôr-se-á na posição de sentido à tua frente e dirá: Excelência! E compreenderás, nessa altura, por que motivo convidei para o meu governo o Federico Sánchez”.

                Mas também neste livro desponta a fatal referência ao futebol pela voz de Franck Appréderiz, que realizou, para a televisão e o cinema, cerca de 60 filmes de ficção: “Gostaria que me explicasses como um intelectual como tu, um político puro, se interessou pelo futebol”. Mais como testemunho do autêntico do que como mera informação, Semprún respondeu: “O meu interesse pelo futebol, que se tornou uma paixão menor mas real, surgiu por razões que nada têm a ver com o desporto. Foi numa segunda-feira de 1954 ou 1955, numa época em que estava clandestino em Madrid. A televisão ainda não transmitia os jogos, como hoje. Todos os jogos decorriam ao domingo e havia a rádio, evidentemente. Mas, quando não se podia ouvir rádio no domingo, os jornais desportivos dos dias subsequentes davam os resultados. Nessa segunda-feira, estava numa taberna de Madrid, perto da Universidade San Bernabéu, seguramente depois de uma reunião com os estudantes. Mas, entre dois encontros, era preciso “fazer tempo”, hacer tiempo, como se diz em espanhol, ou seja, passar o tempo, como acontece frequentemente na clandestinidade. Estava ao balcão e o meu vizinho diz-me com uma familiaridade muito madrilena: Que achou do Di Stéfano, ontem?”. Semprún desconhecia quem era o Di Stéfano e de futebol não mostrava nem saber, nem interesse. Foi um escândalo entre os circunstantes que passaram a observá-lo com um olhar lateral e suspeitoso. “Então, disse para comigo (continua Semprún) se queres continuar a sobreviver na clandestinidade, tens de conhecer os nomes dos jogadores, as equipas, os resultados. Comecei a ler a imprensa desportiva”. E tanto leu que ancorou, por fim, nos estádios de futebol e ficou um adepto fiel do “desporto-rei”.

                Mas o Frank Appréderis insistia: “Esse nacionalismo exacerbado que se manifesta, através do desporto, em particular no futebol, espelha um pouco os nacionalismos que despertam em todo o mundo. Não poderá fazer-se um paralelo com o mundo político?”. No estilo de Jorge Semprún, sem nunca tentar uma summa acerca dos assuntos em que tocava, foi esta a resposta: “No que me diz respeito, o que me interessa no desporto são as coisas exteriores ao nacionalismo. Por exemplo, o nome da seleção, La Roja, diverte-me e chega a comover-me: a designação vem da cor vermelha do equipamento. E, em Espanha, o vermelho tem uma conotação política que muito me agrada – os vermelhos eram os republicanos e o franquismo passou a vida a denunciá-los. Hoje, La Roja, é uma glória, e das maiores, de Espanha. Além disso, acho igualmente interessante que haja, na seleção espanhola, catalães, bascos, madrilenos, castelhanos, convivendo fraternalmente e sem problemas. A equipa nacional de Espanha é um dos raros lugares onde persiste um férvido sentimento de unidade nacional”. De facto, cada um dos jogos das várias seleções de futebol transforma-se numa narrativa nacional, mas onde só as grandes vitórias e os grandes jogadores se recordam e onde a dor dos vencidos e a pesporrência dos vencedores se escondem. “É bom saber esquecer” dizia o Renan, em Qu’est ce qu’une nation? escrito em 1882. Por trás do historiador descobre-se sempre, mesmo que avelhentado, o panegirista ou o ideólogo. Há exceções, evidentemente. O que atualmente mais se admira em Fernand Braudel é que a sua história é uma história do Mediterrâneo e não tanto de França. Aliás, o patriotismo é um fato justo no corpo de Semprún: “Mas o futebol também é a pátria. Nos dias de hoje, um país que ainda mal emergiu, no plano político e internacional, pode existir porque tem uma espetacular equipa de futebol. alcançando deste modo uma forma de reconhecimento mundial”.     

                O tema de que partem Adorno e Horkheimer, na Dialética do Iluminismo, radica na tentativa de “explicar por que razão a humanidade, em vez de entrar num estádio verdadeiramente humano, se afunda num novo tipo de barbárie”. A barbárie a que se referiam Adorno e Horkheimer é indissociável das atrocidades do nazismo, do genocídio dos judeus e da Segunda Guerra Mundial. Atualmente as barbáries são outras, mas… bárbaras também! O que dizer do assassínio do jornalista Khashoggi? E a guerra da Síria, que já conta com mais de 360 mil mortos? E a caravana migratória dos milhares de indocumentados da América Central, que fogem da repressão política, da violência, da fome? E o estudo que mostra, sem margem para dúvidas, que a fortuna dos mais ricos do planeta acelerou, em 2017, enquanto é maior o número de pobres e se alarga o fosso entre os ricos e os pobres? E a tragédia (para o Brasil e para o mundo) da eleição de Jair Bolsonaro? Diante da magnitude destas problemas; diante das multidões exóticas, compactas e famélicas que procuram uma côdea de pão; diante da visão confusa de crimes crapulosos, de imparável lascívia, de crianças com uma indefinível expressão de sujidade e de tristeza – diante de tudo isto, o futebol parece um paraíso. Mesmo que o Dr. Frederico Varandas, presidente do Sporting C.P., assuma dificuldades ingentes no governo do Sporting. O futebol (vou repetir-me uma vez mais) reproduz e multiplica o que a sociedade é. Façamos uma sociedade diferente, que o futebol será diferente também. E não deixemos de ler e meditar os escritos de autores como Jorge Semprún. Ocorre-me, neste passo, o Mito da Caverna: é que estes homens ensinam o esforço da libertação do conformismo, do absentismo, de um despudorado egocentrismo (a caverna sombria) visando o trânsito de um mundo de sombras para um mundo de nível superior, de céu aberto. E tudo isto, não sendo futebol, tem muito a ver com o futebol. Por esta razão muito simples: não há jogos, há pessoas que jogam! Por outro lado, um conhecimento sem valores para pouco serve e até pode ser prejudicial.           

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