Eu, professor me confesso - Parte 4 (artigo de José Neto, 72)

Espaço Universidade 29-10-2018 00:29
Por José Neto

Foi bem nos finais da década de 70 (estava eu no 3º ano de Educação Física no I.S.E.F. da U. Porto) e a lecionar como referi no artigo anterior na Escola Secundária de Paços de Ferreira que, por uma conjugação feliz de várias circunstâncias, tomei efetivo contacto com o meio prisional. O contexto dessa indelével experiência nem sequer é fácil descrevê-lo, tal era o inusitado e o dramático das situações com que me deparei.
 

Os reclusos, de olhar vítreo e abismado, vagueavam, quais autómatos, pelo espaço que, sendo de todos, parecia ser de ninguém, dando a dolorosa impressão de estarem por ali à espera de nada – uma vida, enfim, oca e destituída de qualquer sentido.
 

Senti imediatamente que o Desporto, na sequência aliás do convite que pelo Diretor, Dr. Miranda Pereira, me fora dirigido, poderia de facto vir a preencher, a seu modo um pouco desse vazio em que se afogavam. Pareceu-me que o Desporto através do jogo praticado, podia desempenhar um papel importante do “interacionismo simbólico”  (G.H. Mead) no sentido, de através da exercitação prática do jogo, poderem os reclusos reencontrar o perdido respeito pela norma e pela lei no seu pelo cumprimento e ainda pelo enquadramento de pressupostos que assentam na promoção do espírito de iniciativa, da capacidade organizadora, da autonomia, da solidariedade e estreitamento de laços afetivos que servissem para estimular a auto estima entre a população reclusa.
 

Sabia-se que os tempos de “nada fazer” no interior duma cadeia se transformavam em marcos de referência em que os estados de depressão e stress, se viam acumulados de exigências de vida comprometedoras. Sobravam os exemplos de muitos casos de desequilíbrio emocional, gerados por comportamentos agressivos que a privação da liberdade originava.

A atividade física e desportiva poderia, quanto a mim, assumir nesse campo uma função compensatória, sendo desviada a sua agressividade para o registo de atitudes comportamentais de aceitação do outro para a concretização dum objetivo comum referente às exigências de um saber estar, numa contribuição direta para uma maior autenticidade no respeito pelo outro, promovendo a um constante apelo às normas de socialização por via do cumprimento das regras, reclamando uma atitude de cooperação coletiva para a realização dum simples jogo e proporcionando a experiência da comunhão jubilosa numa vitória alcançada.
 

Os reclusos poderiam assim, habituando-se, através do cumprimento das regras do jogo, a cumprir a regra da sociedade que um dia eles próprios violaram. Foi sem dúvida, um dos aspetos mais relevantes que a prática do jogo lhes foi proporcionando – o da reconciliação com a norma.
 

Por isso senti-me deveras entusiasmado a poder constituir-me, através da prática desportiva em clima de privação de liberdade, um privilegiado agente de resignação de vidas esvaídas e mergulhadas na apatia e na anomia. E foi, portanto alavancado, como agora se diz, pela devastadora impressão de desnorte e vazio que senti na alma daqueles rapazes e alguns homens feitos, que, orgulhoso e entusiasmado, me lancei à nobre missão de, através do Desporto, dar vida a vidas que da vida pareciam ter descrido.
 

Foi nesse pressuposto que procurei dar corpo a uma programação necessariamente cuidada, convocando e congregando para uma prática imprevista do Desporto, todos aqueles reclusos que já se tinham amolecido na espera sem esquina de um futuro sem sol.
 

Dum planeamento global surgiram 4 fases, ainda que de certo modo distintas, eram ao mesmo tempo complementares:

 

1ª Fase – levantamento da situação e construção de infraestruturas desportivas.

 

Transformar uma zona chamada pátio exterior da Ala A, com cerca de 2000 metros quadrados numa zona de prática desportiva, não esquecendo ser dentro duma cadeia, revelou-se uma tarefa particularmente exigente.

Também não foi menos exigente dar vida a uma zona coberta, mais conhecida por “galinheiro”, criando aí um mini ginásio com instalações de banho em anexo e respetiva zona de equipamento, chamemos-lhe de controlo administrativo.

A organização de equipas de trabalho, face à pronta disponibilidade de muitos voluntários, não se fez rogar e eis que, em clima de redobrado entusiasmo, os lixos forma queimados, as medidas tiradas, o matraquear das picaretas em contraste com as correrias dos carrinhos de mão, numa chiadeira infernal que ecoava naquele insuspeitado espaço livre “apenas” fechado por quatro enormes paredes, mas que não escondiam o azul tão lindo do céu e daquele sol, ridentes símbolos de esperança.
 

Na carpintaria também acontecia uma inusitada azáfama – todos imbuídos do mesmo entusiasmo.

Ao mesmo tempo outra equipa se encarregava de aproveitar as espumas de colchões, já de si meio esfarrapados, promovendo o retorno daquele material à utilidade.
 

Por último, os pinceis davam cor onde esta não existia e aqueles homens, tão seguros de insegurança, tão avaros de nada fazer, davam as primeiras imagens da sua capacidade de trabalho, de dedicação e, porque não dizê-lo, também de amor, preparando assim um novo desenho de uma esperança imprevistamente renascida, começando a desafiar os incrédulos do homem que embora recluso, também é cidadão portador de valores que uma sociedade tipo, ora lhes reconhece, ora lhes recusa, sociedade para alguns de interesses e habilidades, mas para outros de engano e ilusão.

 

2ª Fase – Avaliação da Condição Física e Introdução técnico pedagógica de várias disciplinas ou metodologias de desportos individuais e coletivos.

 

Tendo a cultura desportiva um significado que a prática em determinada área é capaz de fornecer, não dispensa à partida uma tomada de consciência do praticante, atribuindo-se um conjunto de valores morais, intelectuais, estéticos e competitivos, contribuindo o desportista para marcar um estímulo, uma arte, um código coletivo que tantas vezes se vê envolvido pelo sentimento duma sã camaradagem.
 

Tendo por base estes princípios orientadores, deitou-se mãos à obra. No placard destinado as inscrições, os reclusos eram convidados a registarem a sua opção entre várias atividades.
Refugiados no disfarce das respetivas alcunhas e do número, o que logo indiciava uma atitude de auto - desvalorização e, em definitiva pouca segurança e conformidade identitárias, formalizaram a respetiva inscrição.

Após a avaliação através de testes muito simples, mas plenamente justificativos, apurando-se as características individuais em relação ao Índice antropométrico (peso, altura e medida de pregas cutâneas); Índice cardio vascular (teste de Ruffier Dickson) e Índice de Força (inferior, média e superior), iniciamos no terreno a tarefa propriamente dita.

No que concerne aos desportos individuais abordamos a aquisição e desenvolvimento de competências referentes ao atletismo: saltos em altura e comprimento; lançamento do peso e corridas de velocidade e resistência.

No que dizia respeito aos desportos coletivos, procurou-se iniciar alguma aprendizagem técnica e elaboração de fundamentos táticos das modalidades de andebol, basquetebol, futebol e voleibol, não esquecendo o conhecimento e aplicabilidade das principais regras.
 

Em referência ao espaço convertido numa adaptação a ginásio verificamos uma ocupação de largo interesse não obstante, como referi os aparelhos de utilização eram resumidos a adaptação de latas com barras a alteres e bolas com areia, convencionadas de medicinais. 

 

3ª e 4ª Fases – Competição entre equipas do estabelecimento prisional e sucessivamente alargado ao exterior, culminando todo o trabalho com a 1º e 2º Dias Olímpicos.

 

A  referência aos desportos coletivos integrados numa população e espaço desta natureza assumia uma importância muito singular.

 

De facto, criar hábitos de estreitamento coletivo, reforçados na componente grupal onde o indivíduo passa a representar algo, desde que integrado numa equipa, cumprindo escrupulosamente a regra para poder fazer parte desse grupo, jogando, onde o respeito pelo adversário era elemento indispensável para poder manter-se integrado, foi o facto mais notável, digo mesmo aquele que me deu mais alento para continuar a minha luta.

 

O respeito pela regra do jogo, sempre que possível arbitrado alternadamente pelos próprios reclusos, constituiu-se no grande motivo dos nossos primeiros sorrisos e no sentimento de que tinha valido a pena!...até porque foi realçado pela equipa interna de administrativos, educadores e psicólogos que os alunos que faziam a prática desportiva de forma regular, tinham o melhor comportamento entre os demais!...

 

A aquisição do hábito de respeitar a regra da sociedade, entretanto violada, mediado pelo exercício lúdico – agonístico do cumprimento da normatividade do jogo – eis o aspeto mais relevante.

Deste modo, os anos 1980 e 1982 forma quase exclusivamente dedicados a torneios nas diversas modalidades, e, nos finais de cada um, sempre uma equipa do exterior nos visitava e aí no terreno se estabeleciam os primeiros laços duma viva solidariedade.

 

Estes dois anos terminaram com duas celebrações visando o espírito olímpico.

 

Recordo que nestes dias a cadeia estava numa verdadeira festa – até havia rancho melhorado! Havia também bandeiras, música e uma intensa vibração e expectativa no rosto de cada aluno recluso, que também nestes dias parecia mais iluminado – com barba feita, penteado à maneira, limpinho de argolas e brincos e muito sorriso nos lábios.

As festas dum e doutro Dia Olímpico assumiram a consagração da evolução registada nas vidas de cada um. Tivemos as visitas da seleção de Voleibol do Norte; Um grupo de oficiais da Força Aérea; Pré Finalistas do 1º Curso do I.S.E.F. da U. Porto (meus colegas) e um grupo de ex internacionais do Futebol Português.

 

Recordo bem que foram dois dias carregados de emoção, de solidariedade, de abraços num adeus sentido e, também de muitas prendas entre as quais, passe a imodéstia, a do reconhecimento pela ação desenvolvida, expresso num louvor do senhor ministro da Justiça (no momento Dr. Menéres Pimentel) e uma outra prenda que foi a mais importante de todas, a de verificar, aquando do meu regresso à cadeia, volvidos 12 anos (1994), que a quase totalidade dos meus alunos reclusos havia saído em liberdade e que jamais tinham regressado à prisão.

 

Saudações de muita estima.

 

Continua … até breve!...

 

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F./U.E.F.A.; Docente Universitário.

 

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