O ano de 2018 da canoagem portuguesa (artigo José Augusto Santos, 14)

Espaço Universidade 08-10-2018 15:53
Por José Augusto Santos

Portugal, após o fim da ilusão da sua essência salvífica e missionária universal que conciliava bem com os seus interesses expansionistas e comerciais, regressou à situação de se autorreconhecer como um simples povo no meio de povos. Afirma, Eduardo Lourenço que Portugal “deu a volta ao mundo para tomar a medida da sua maravilhosa imperfeição”. E, por isso, a nossa badalada imperfeição, sabe-se lá porque mistério evolucionista ficou-nos atavicamente impressa nos genes. Só que essa imperfeição é a génese de muitas das nossas qualidades. Somos um povo quase sempre desorganizado. Nesse atavismo residiu sempre a força da nossa capacidade de “desenrascanço” pois, quem não é organizado, quem tem dificuldade em se projetar no futuro, tem, no imediato, a força motriz da sua funcionalidade. Normalmente damo-nos bem no caos pois a ordem colide com as faculdades que desenvolvemos como marinheiros. Para um marinheiro não chega preparar-se em terra; tem de, no mar, ter os seus sistemas adaptativos alerta para enfrentar a complexidade das mais duras borrascas ou a inclemência das mais letárgicas acalmias.  Nós, normalmente, mandamo-nos ao mar sem muito pensar. Acreditamos que a pesca nos resolverá o problema da subsistência. Marcas da nossa imperfeição que, hoje em dia, começa a ceder a outras qualidades que nos estavam arredias. Hélas! Começamos a saber prever o futuro. Começamos a desenvolver estratégias no universo de incertezas e antagonismos que nos envolve. A estratégia joga com o azar e a adversidade e, nesse plano particular, somos bem expeditos.

Vem isto a propósito da análise do ano de 2018 na canoagem portuguesa. Vários momentos altos se verificaram, quer a nível estrutural e organizativo que a nível do rendimento desportivo.

Comecemos pelo Campeonato do Mundo na modalidade de Sprint que teve lugar em agosto em Montemor-o-Velho. Vivendo este campeonato por dentro reparei, antes de mais, numa organização ímpar que mereceu os encómios de todas as delegações estrangeiras. Já tenho experiência de vários campeonatos do mundo e europeus e posso afirmar, sem chauvinismos que seriam deslocados, que este organizado em Portugal foi excecional. Não houve necessidade de desenrascanço porque houve uma organização bem pensada, atempada e eficaz por detrás deste evento. Estamos todos de parabéns e principalmente os obreiros deste memorável acontecimento. Tenho para mim que o toque de diferença nas nossas organizações que colhem o aplauso geral radica na nossa forma de ser, em especial, na nossa capacidade de receber e colocar o outro como referência. Por exemplo, eu, quando um turista me pede uma informação mais complicada de resolver e eu vou com ele ao sítio não é uma questão de subserviência acéfala, mas genuína preocupação de que o turista se sinta em casa e reconheça Portugal como lugar de paz e convivialidade fraterna. É puro sentido patriótico fazer bem as coisas quando nos relacionamos com os estrangeiros. Temos obrigação de dar o nosso melhor quando o nosso prestígio como nação está em causa.

Depois a parte desportiva. Ainda estou rouco de tanto berrar pelo Fernando Pimenta na final dos 1.000 metros do campeonato do mundo. Pela primeira vez na história um português ganhou esta prova. Esta é a prova-rainha da canoagem mundial. Os 5.000 metros, que não é distância olímpica é importante, mas os 1000 metros é o zénite competitivo da modalidade. Ele é fabuloso e congraça todas as qualidades de um atleta de elite. Ele sacrifica tudo pelo seu êxito desportivo. Pode chamar-se a isto alienação; eu chamo focalização. Quando se quer ser o melhor do mundo em alguma coisa não pode haver contemplações para os nossos mais saborosos comodismos. Dieta controlada, sono controlado, sexo controlado, diversões inexistentes. Tudo direcionado para o êxito. Terá tempo de “pecar”; agora tem que ser um “santo”. Pimenta elevou bem alto o nome de Portugal. De realçar a qualidade de alguns dos resultados da seleção portuguesa. Muito boa a consecução da final do K4 500m masculino. Meus amigos, atingir finais A e finais B num campeonato do mundo é somente ficar entre os melhores 18 do mundo. Este é o nível da elite. Queremos medalhas? Sim, queremos, mas não podemos vilipendiar resultados que nos integram na elite mundial. Custou muito aqui chegar; valorizemos o que fazemos.

Passemos, agora, à Vila de Prado e ao Campeonato do Mundo de Maratona. Um monumento de eficácia a organização, onde nada falhou. O Náutico de Prado e o município de Vila Verde já nos tinham habituado à excelência organizativa, mas desta vez, foi o zénite. Estão de parabéns o clube, do qual tenho a honra de ser sócio honorário e o Dr. Patrício Araújo, vereador da Cultura, Lazer e Desporto, meu amigo de longa data e meu treinador-adjunto quando fui treinador do Náutico de Prado. Só que as pessoas não têm o mérito todo. Existe o sortilégio do lugar. Prado é a catedral mundial da canoagem maratoniana. É o verdadeiro sanctu santorum de todos os amantes da canoagem. Os hindus vão, pelo menos uma vez na vida banhar-se no Ganges; os muçulmanos vão rezar, pelo menos uma vez na vida, em Meca; os canoístas de todo o mundo devem, pelo menos uma vez na vida, competir no rio Cávado em Prado. Quem não fizer isso não entra no reino dos céus canoísta quando morrer e assim não tem acesso às 3.000 virgens que nos esperam ansiosas.

Prado é lugar privilegiado e “santificado” e a cada momento pode acontecer o milagre. Só que o milagre, desta vez, teve fortes raízes telúricas. Quero desde já exaltar o feito do Sérgio Maciel que se sagrou campeão do mundo em canoa monolugar no escalão de sub-23. Este feito, que o honra e ao seu treinador, o meu amigo de peito e canoísta de longa data, Engº Rodolfo Coelho, augura-lhe um futuro promissor na modalidade pois o Sérgio congraça todas as qualidades que podem fazer dele um futuro campeão mundial absoluto.

Agora quero deixar falar a emoção. No campeonato do mundo que aconteceu na Vila de Prado assisti ao feito emocionalmente mais marcante de toda a minha vida desportiva. Estou a falar da prova do José Ramalho. Este canoísta de elite, meu aluno na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto é, atualmente, o melhor maratonista do mundo. O seu plano de treinos de 2018, extremamente duro mas muito bem organizado, apontou as principais baterias para este campeonato do mundo. Os seus testes de controlo apontavam para um nível de forma excecional. Só que a dimensão aleatória do desporto aconteceu na sua vertente mais negativa. Permitam-me ser exaustivo na narrativa da prova do nosso campeão. Imediatamente após a largada, José Ramalho quebra a proa do seu kayak. Faz uma volta com o barco a meter água e como na primeira volta não há portagem tem de seguir os adversários em péssimas condições de navegabilidade que só são parcialmente resolvidas ao fim da segunda volta. O remendo ficou mal resolvido. Quando, ao fim da terceira volta, se consegue tapar razoavelmente o furo, o José Ramalho tem cerca de 600 metros de atraso em relação à frente da prova. Vejo-o começar a pagaiar cheio de energia, mas já não acredito. De tal forma estou descorçoado que proclamo para os circundantes: - Nunca mais vai apanhar a frente da prova, pois lá estão os melhores maratonistas do mundo que não vão querer deixar o José Ramalho recuperar. O Américo Magalhães Júnior aposta comigo uma francesinha em como ele recupera. Apostei de imediato desejando perder. E perdi mesmo. Nunca vi nada assim. O José Ramalho mete um ritmo de prova rondando os 15 km/h enquanto a frente de prova vai bem dura a 14 km/h. Disse para os meus botões que ele ia rebentar. Não rebentou e, a faltar uma volta, apanha a frente de prova. Na portagem os adversários força o ritmo e deixam-me para trás. Eu de mim para comigo: - Agora ficou definitivamente para trás, pelo cansaço instalado pelo esforço desmesurado. Não, não ficou. Foi buscar forças não sei aonde e conseguir recuperar a frente de prova e disputar a ponta final com os melhores maratonistas do mundo. Perdeu, mas para mim, esta foi a vitória mais maravilhosa da já longa carreira do José Ramalho.

Para o ano, na China, vou estar ao lado dele, a puxar para ele conseguir o título de campeão do mundo que já merece há muito tempo, pois só eu e a sua companheira querida, também minha aluna na FADEUP é que sabemos os martírios que ele teve de ultrapassar para estar ao lado dos melhores do mundo. José Ramalho é um campeão, no corpo e principalmente na alma.

 

José Augusto Santos é Professor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto

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