Eu, professor me confesso - Parte 2 (artigo de José Neto, 69)

Espaço Universidade 06-10-2018 18:54
Por José Neto

Percorrendo a marcha do tempo, nesta 2ª etapa da estrada da vida na qualidade de estudante/professor e recordando o que referi no último artigo, ainda me encontrava na Escola Preparatória Teixeira de Vasconcelos – Paredes e no 2 º ano do 1º Curso do ISEF da U.Porto (1976/81).

 

Mas antes de prosseguir viagem, muito gostaria de dar a conhecer aos meus estimados leitores um facto que poderia ter funcionado como uma armadilha (tipo bomba), colocado no meu percurso profissional … mesmo para morrer!...

 

Estava eu já na 2ª ou 3ª semana de trabalho e em plena aula num espaço de terra batida, mas onde se misturavam suores e sorrisos com gargalhadas ao desafio pelo prazer da dinâmica que os jogos condicionados exigiam, recebo uma indicação para me dirigir ao conselho diretivo. Após a aula para lá me desloquei e fiquei praticamente paralisado ao receber a informação que estava impedido de continuar a lecionar, pois havia um candidato que tinha ficado fora do concurso e que tinha mais e melhores habilitações do que eu. Questionei as razões e logo me informaram que esse candidato encontrava-se no 2º ano de Engenharia, tendo feito tropa no ultramar, etc… Eu respondi que também tinha efetuado 6 anos voluntário de vida militar na Força Aérea e além de possuir bom estado de saúde, tinha como vantagem o facto de em Janeiro de 1969 ter feito todas as provas de aptidão ao Curso de Instrutores de Educação Física do Porto: (prova de resistência dos1000 metros; prova de velocidade dos 100 metros; lançamento do peso; salto em altura e prova de ginástica), tendo sido aprovado em todas elas e apenas me faltava a prova de natação, (já disse que nessa altura não sabia nadar) e até tinha jogado Futebol (suplente dos suplentes cuja história está referida num artigo nesta rúbrica de 28 de Fevereiro /18 e publicado nas páginas 194 e 195, em “Á Flor da Relva!”... e que pode ser consultado). Mas a resposta por parte do elemento do conselho diretivo, foi de tal forma agressiva que eu abandonei a reunião, em silêncio amargurado.

 

Fiz a viagem com algumas lágrimas a percorrerem a face pelo facto de também os meus alunos se terem nesse dia se despedido com os tais aplausos e os desejos do reencontro do dia seguinte!... Ao chegar a casa encontro o meu sogro (Miguel Ângelo Ferreira Bessa, conselheiro, amigo e pai de afetos …um dos meus saudosos heróis da minha vida), junto à porta de entrada e ao ver-me vergado pela dor, logo pretendeu saber o que se passava, o que a custo lhe fui confiando. Até que num ato de revolta me aconselhou: “vá a lisboa … vá a Lisboa … eu pago o avião e até já vou ligar para a TAP”!...

Assim foi … em noite de alerta permanente, de manhazinha me desloquei para o aeroporto para tomar o voo das 8 horas. Pelas 9.30 já estava na Avª de Berna a pedir uma audiência à Diretora Geral do Ensino Básico Drª Hélia Almeida que me ouviu de forma tão disponível e atenciosa, mas indicando-me que esse assunto merecia ser tratado pelo inspetor Dr Carlos Gonçalves, que apenas de tarde entrava em funções. Acreditando que tudo seria justamente resolvido, fui visitar a Gulbenkian e antecipei uma hora a chegada do senhor inspetor, sabendo contudo que ele entraria pelas 15 horas.

 

Coloquei-lhe a mesma questão que atrás referi e acrescentando a felicidade que se tornou parte da minha vida pelo facto de acolher e ser acolhido de forma tão entusiástica pelos meus meninos da Escola Preparatória. Referi ainda que se constava que estava a ser preparada a abertura do Instituto Superior de Educação Física, integrando a licenciatura na Universidade do Porto, ao que ele me confirmou. Aí impelido por um eco de energia, vibrei e dei um salto, como que mordido por uma serpente. Referi que aguardava a abertura duma porta formativa para algo que tanto esperava e que iria de imediato transferir as minhas verdadeiras intenções da Universidade de Coimbra para o Porto.

 

Perante tais reações e confirmadas as valências do meu argumento, o Inspetor Carlos Gonçalves apenas me disse: “apresente-se amanhã na Escola, sem problemas … eles irão receber um telegrama de confirmação da sua legal continuidade!”… Até parece que queria correr de imediato para casa, tanta era a alegria que pairava na minha alma. Depois de telefonar para a família, contando como tudo decorreu e ter feito a viagem, agora de comboio para Campanhã, ao outro dia, apresentei-me na sala dos professores, tomei o livro de ponto e fui ao encontro dos meus alunos que me aguardavam num foco de inebriante entusiasmo. Estou a meio da aula e vejo a empregada D. Lurdes a vir ao meu encontro em passo acelerado, dizendo-me de forma aflitiva e em alta voz: “Sotôr vem aí a GNR para o prender!”... Mal acaba de me dar a notícia e no imediato outro funcionário me chama para ir ao Conselho Diretivo.

 

Assim que entrei no gabinete vejo o dito “colega” e com os olhos vidrados para um telegrama, lançando-me mais uma nota de provocação: “afinal parece que está em ordem …julgava que a revolução tinha varrido com a esperteza saloia!”... Deixei o meu interlocutor sem resposta e fui-me à vida, agora com uma passada de gigante compromisso com rotas para o futuro.

Mas querem saber o melhor ?!: passados 3 meses uma colega entrou em licença de parto e sabem quem a substituiu ?: precisamente esse tal candidato do 2º ano de Engenharia. Recordo que trazia vestido uma camisola com uns figuras revolucionárias, nos pés umas botas com umas aplicações de aço reluzente e na cabeça uma boina marcada por emblemas estrelados com foicinhas, martelos, rodas dentadas e enxadas à mistura. Claramente uma mistura de FEC-ML e UDP com MRPP, da linha política do colega do conselho diretivo, que o regime de então de forma revolucionária vingava e protegia!...

Até que houve na Escola eleições para delegados sindicais. Uma parte dos meus colegas, sabendo do meu empenhamento consagrado na justiça de vitória, apresentaram uma lista com o meu nome a liderar o processo. Em eleições livres (não foi permitido o que era norma nesse verão quente, de braço no ar), ganhei com cerca de 70% de votos e lá fui eu, um social - democrata convicto, com emblema colocado na lapela pelo ao combate em reuniões no distrito do Porto que se eu fosse contar os desempenhos e oportunismos registados nas noites longas, iríamos para fora do tema que me propus referenciar. Um dia … sim um dia talvez, inserido num trabalho biográfico que penso colocar a público, deixarei eco dessas minhas intenções!...

 

Mas não deixo de referir que o tal emblema social democrata, em reunião dum grupo de gente amiga que constituiu o que apelidamos Frente Democrática, foi  colocado na lapela por Dr Fernando de Vasconcelos, que pelo seu carisma, integridade, autenticidade e resiliência muito me ensinou a enfrentar com dignidade a crítica como arte do contrário e agir perante o debate das ideias os sagrados deveres da democracia e o enriquecimento reflexivo pelos valores da diferença. É claro que hoje pelo abuso dum oportunismo bacoco, as cruzetas do poder inclinam-se e o caráter das pessoas de bem tantas vezes entra tantas vezes em descrédito e em agonia!... Mas, apesar de tudo ainda encontramos exemplos vivos que a memória sempre haverá exaltar!...

 

Mas continuemos:

 

Ainda ao serviço da Escola Preparatória Teixeira de Vasconcelos – Paredes, inserimos as turmas em provas do Desporto Escolar, etc … mas uma atividade ficou bem marcada na história da minha vida docente. Recordo que o F.C.P.Ferreira através da sua Secção Juvenil levou a efeito o I Torneio Primavera/76 em Futebol de 11 em que eu, pretendendo a maior participação possível, inscrevi 3 equipas ( está referido num artigo “Crescer para Render” nesta rúbrica na data de 13/fevereiro/18 e também publicado em “Á Flor da Relva…” na pág. 191.

 

Uma das vezes fizemos jogos no Campo do Cete e o revisor da viagem de comboio Paredes – Cete, nem tempo teve de verificar todos os bilhetes. Como prémio da equipa melhor classificada, após abordar o Sr Artur Baeta, conseguimos realizar um jogo com os infantis do F.C.Porto em pleno estádio das Antas, antes dum jogo oficial do F.C.Porto (seniores) para a Taça de Portugal. Ainda o meu g. redes Maciel me recordava um dia destes a conversa que o Cubillas teve com ele por detrás da baliza … e outro aluno o Zé Albano que tinha uma pequena dificuldade motora, impeditiva para a competição, me referia a alegria que tinha em participar, carregando o saco de bolas e as caixas com sandes de fiambre, peças de fruta e sumos que  nós junto das empresas locais conseguíamos obter, para no final dos jogos saciar a fome e sede!...

 

Marcas que ficam e que a recordação faz saudade, dessa gente, outrora meninos, hoje pais de família, em que os olhos ganham brilho e o coração aquece com um longo e apetecido abraço, quando as nossas vidas se cruzam!...

 

Em 1977/78, agora no 3º ano do ISEF/Porto, sou colocado na Escola Secundária de Paços de Ferreira – a minha terra tão querida!...

 

Continua … até breve!...

 

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F./ U.E.F.A.; Docente Universitário

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