Eu, professor me confesso!... – Parte 1 (artigo de José Neto, 68)

Espaço Universidade 28-09-2018 11:04
Por José Neto

Nota Prévia – Tendo em atenção o início deste ano letivo e a sua importância para incorporar através do conhecimento as razões que nos fazem sonhar com um futuro, onde possam habitar sinais de esperança, irei refletir neste espaço que muito me honra, componentes de ordem pessoal, seccionadas por algumas partes. Dedico-as a todos os alunos, colegas, pais, dirigentes desportivos, treinadores e demais responsáveis educativos, que igualmente procuram através da formação, da educação, do rendimento e da competição, preparar para a conquista do futuro e com a imagem duma radiosa esperança, viver para vencer!... 

 

Após ter efetuado 6 anos na Força Aérea na qualidade de especialista voluntário, com um objetivo bem definido que se colocava na hipótese de continuar a estudar, pois a “partida” de meus avozinhos que me deram o pão, a educação e a razão, levou-me a um estado de verdadeira agonia, desespero e saudade, não conseguindo responder às exigências aprendidas primeiramente na Escola Primária com a D.Dorinda e Professor Bernardo Neto, depois no Externato Sílvia Cardoso e no Colégio de Vizela e no final avaliadas nos Liceus de Guimarães e Alexandre Herculano.

 

Por isso, depois de trabalhar 9 meses numa fábrica de móveis como controlador de mão – de - obra, vi-me chamado para a recruta na Ota em Maio de 1968, tendo feito a especialidade de Operador de Radar em Montejunto, sendo colocado em Janeiro de 1969 até Maio de 1974, no G.D.A.C.I. (Esquadra 12) de Paços de Ferreira. Tudo isto para referir que entrei para a tropa com a frequência do antigo 5º Ano e quando passei à disponibilidade me encontrava na universidade de Coimbra a cursar Direito, depois de ter passado pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sem nunca me ter submetido a qualquer exame oral.

 

Mas como estava um pouco desiludido com as matérias da justiça, após ter concorrido para um lugar livre de Professor de Educação Física na Escola Teixeira de Vasconcelos de Paredes, aí fiquei colocado, dada a pouca aderência e até formação neste mercado de trabalho.

 

Estávamos a 7 de Janeiro de 1975. Pedi um fato de treino emprestado e percorri 10 km com muita expectativa, mas pouco para dar, dado pouco conhecer nesta área… eu que tinha apenas jogado Futebol, mas sendo suplente dos suplentes!...

 

Lembro a primeira conversa com os meu primeiros alunos de cujo nome sempre me ficaram na memória: Flávio (irmão do Carlos Daniel), Virgílio, Ruão, Zé Eduardo, Maciel, Mário João… e lhes recomendei: “meninos: tragam uma toalha e sabonete e como reparam nós temos aqui água bem quentinha para tomar banho no final das aulas e quando chegarem a casa a vossa mãezinha vai-vos dizer: ai que o meu menino cheira tão bem!”...

 

Começou uma imediata relação de afeto inscrita na vontade de no outro dia avançar. Comprei um livro de Basquetebol e em casa treinei … 2 passos com a bola na mão … lançamentos na passada … pois das corridas aos pares e as técnicas clássicas do Futebol …disso eu me desenrascava. Lembro que mal o meu Austin 1000 aparecia na curva da Escola, logo via os meus alunos aos saltos de contentamento!...

 

Um dia tive de faltar para ir fazer um exame a Coimbra e quando ao outro dia apareci, logo recebi dos meus alunos as queixas e azedume:  “nós ontem aqui à espera e o Professor nem sequer apareceu?!”... Então dei comigo a pensar: “quando eu chego, entro em alegria e apoteose, quando falto há uma global tristeza. Isto não acontece com outras disciplinas, bem pelo contrário!.”.. Tomei uma das melhores decisões da minha vida – “vou mudar de curso”!.... O I.S.E.F. do Porto estava para iniciar as suas atividades formativas, inserindo os seus estudos na Universidade do Porto e foi apenas uma questão de realizar exames médicos e fazer a mudança de Faculdade, efetuando o 1º Curso 1976/81. Depois era uma luta diária de aulas para aprender o que melhor ensinar e fazer as viagens de Paços – Paredes; Paredes – Porto; Porto – Paredes e Paredes – Paços.

 

Nada fácil para quem pouco sabia. As aulas de Atletismo no C.D.U.P. com o Professor Pompílio Ferreira nas corridas com barreiras (uma vez espalhei-me na vala de água e andei 15 dias a coxear) … nos lançamentos (outra vez até parece que levantava voo junto com o lançamento do martelo!...). Como nesses dias da modalidade não podia levar carro, tomava a camioneta dos trabalhadores das 6.15 (era um cheirinho a bacalhau frito que vinha das marmitas…) e com o conjunto Maria Albertina ou António Mafra a debitar na rádio o seu reportório, fazíamos uma animada viagem até ao Porto. Tomava o elétrico até à ponte da Arrábida e subia o elevador para cedinho aguardar na pista os meus colegas. O Professor até dizia: “Ó Neto vem de tão longe e é sempre o primeiro a chegar!”... Talvez por essa nota de assiduidade no cumprimento de horário, associada à avaliação da parte teórica, me levasse sempre a dispensar das orais!...

 

Na Ginástica … aquilo era um verdadeiro terror, quer na barra fixa (com as mãos a sangrar dos “bifes“ que se soltavam); do cavalo com arções (com os joelhos, adutores e outras partes do corpo a latejar de dor); nas argolas (ainda hoje mantenho uma dor com a mudança de tempo nas articulações do ombro e uma micro rotura no tendão do supra espinhoso, originada quando me preparava para dar meia volta com base na passagem da força estática para a dinâmica); nas paralelas, etc, aquilo era mesmo um terror com gemidos a toda a hora!...

 

Como no 1º ano não havia Natação …tudo bem. Agora no 2º ano, bem julguei que ia morrer. Vou contar apenas mais esta: no dia das provas de diagnóstico, o Professor Bravo Queirós exigiu que cada aluno trouxesse umas calças com cinto apertado, sapatos com atilhos e camisa abotoada com 6 botões, para fazer a prova na parte funda da piscina e avaliar o tempo de cada um para a sua realização, retirando a roupa. Ora havia um grave problema é que eu nem sequer sabia nadar!...

 

No dia da prova, bem cedinho, sem “pregar olho”, encomendei a minha vida à família … beijei os meus filhos ainda pequeninos e lá pedi á minha mulher que colocasse umas velinhas e rezasse na hora da dita cuja. Também nesse dia não levei o carro e recordo bem que na passagem da “Pacense” na Feira do Cô (Penamaior), junto à casa do Seabra (que vendia urnas e fazia funerais), até olhei para o lado!... Quando cheguei à piscina da Boa Hora, lá fui referir ao Professor que não sabia nadar, se me deixava fazer a prova na parte baixa da piscina, etc ao que ele me retorquiu: “nem penses, entras na parte funda e desenrasca-te … o mais que te posso fazer é deixar agarrar-te a esta vara quando estiveres aflito”.

 

Nem imaginam a agonia … parecia que ia entrar num poço sem fundo, muito embora tivesse pedido a alguns colegas meus que voavam sobre a água, para me deitar a mão em caso de urgência. Olhem amigos, os sapatos foi coisa fácil, sacudi-os para o fundo, quanto à camisa, rebentei com os botões duma só vez, agora as calças … Deus me livre, estive um bom tempo em luta, bebendo o que nunca bebi e resignando-me à minha pouca sorte. Sei que demorei 3m e 45 s a fazer a prova, quando o meu colega mais ágil apenas demorou 35 s. Mas o melhor vem a seguir. Estive durante o ano letivo nas horas do almoço a aprender a nadar (com boias, coletes, etc) e no final do ano, perante o exame final em que a parte teórica era de dificuldade máxima, com referências a biomecânica e neurofisiologia de movimento, obtive 16 valores, consegui nadar 3 x 25 metros estilos e dispensei da oral. Uma enorme percentagem da turma, (que até nadava de forma exemplar), mas que no exame escrito tinham notas inferiores a 5, reprovaram.

O Professor tinha esta máxima: “executar os movimentos com correção é importante, mas mais importante é saber ensinar como, quando e porquê se pode fazer melhor. Não estou aqui para avaliar campeões, mas para avaliar aqueles que são capazes de fazerem campeões”.

 

Ainda hoje recordo esta explicação na minha qualidade de formador de treinadores. Quando há necessidade de executar com eficácia um determinado movimento técnico, o André Villas Boas, ou o Zé Mourinho, ou o Carlos Queirós, etc … utilizam os melhores exemplos para a experimentação e vão sugerindo competências pedagógicas para a sua eficácia de melhoria. Caso contrário, teríamos o Pelé, o Maradona, o Eusébio …etc, como os melhores treinadores do mundo e porventura quem obtém atualmente esse estatuto, nem sequer constava no ranking de excelência.

 

Continuei com a dupla função de ensinar e aprender, ouvindo Professores que marcaram este meu temp(l)o sagrado da minha existência, no que considero o melhor curso do mundo e que ao longo desta reflexão os meus queridos leitores irão perceber bem porquê!...

 

Continua!… Por isso … até breve!...

 

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F./ U.E.F.A.; Docente Universitário

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