Olimpismo Tóxico (artigo de Gustavo Pires, 92)

Espaço Universidade 09-08-2018 23:29
Por Gustavo Pires

Numa espécie de olimpismo tóxico, que nada tem a ver com o ideário de Pierre de Coubertin ou com a filosofia de vida que deve presidir ao Movimento Olímpico, as oligarquias pública e privada da superestrutura do desporto nacional, incapazes de responder às verdadeiras necessidades do País e dos portugueses em matéria de promoção da prática e da cultura desportivas, foram tomadas por um esquizofrénico desejo de conquistarem medalhas olímpicas, como se as medalhas olímpicas pudessem esconder o estado calamitoso em que se encontra o vértice estratégico ideológico da estrutura orgânica do desporto nacional.

 

Ao estilo marialva do “magister dixit”, a institucionalização do processo de desenvolvimento sustentado na conquista de medalhas olímpicas arrancou em 2004-2005 à margem de toda e qualquer consulta às federações desportivas e demais agentes desportivos. Então, numa eufórica infantilidade, para os Jogos Olímpicos de Pequim (2008), chegaram a ser anunciadas seis medalhas olímpicas a conquistar pela Missão Olímpica portuguesa. Ora, como seria de esperar, devido à delirante previsão, à incompetente chefia da Missão e a uma presidência absolutamente incapaz, o que acabou por acontecer em Pequim foi uma vergonha não só nacional como internacional. O então presidente do COP, perante o espanto do País, apresentou a sua demissão à comunicação social durante o decorrer dos próprios Jogos Olímpicos.

 

Terminados os Jogos, quando o País esperava a assunção de responsabilidades por parte das olímpicas lideranças, à boa maneira portuguesa, a nomenclatura política então em funções proferiu uma das máximas mais tóxicas das que alguma vez foram proferidas no Movimento Olímpico nacional: - Como não são os dirigentes que correm, que lançam ou que saltam não se lhes podem pedir responsabilidades. E tudo continuou na mesma durante mais oito penosos anos.

 

O problema é que a referida metáfora fez escola no desporto nacional. E, hoje, os dirigentes desportivos agarrados ao poder, perante os maus resultados desportivos conseguidos, não se preocuparam sequer em perguntar se eles foram devidos: (1º) À inadequação do modelo de desenvolvimento instituído; (2º) À deficiente estrutura organizacional; (4º) À estratégia errada para a organização do futuro; (5º) À carência de meios de planeamento; (6º) À ausência de sistemas de controlo; (7º) Ao desperdício de recursos humanos materiais, financeiros e informacionais; (8º) À incompetência da liderança; (9ª) À incapacidade dos dirigentes; (10º) À inaptidão da tutela política. Pelo contrário, começaram, imediatamente, a saltar para as conclusões e a afirmar solenemente que, como não foram eles que correram, que lançaram ou que saltaram, não se sentiam responsáveis pelos fracos resultados desportivos da sua própria gestão. Em resultado, nas últimas edições dos Jogos Olímpicos, os grandes responsáveis pelos fracos resultados acabaram por ser os atletas!

 

Por isso, não nos podemos admirar que após os JO de Londres (2012) e, sobretudo, do Rio (2016), perante os piores resultados desde 1992, depois das habituais ameaças de demissão para impressionar o basbaque, com o acalmar dos ânimos e a mobilização dos correligionários do costume, lá tivemos de assistir à habitual cantilena: - desculpem lá…, mas como não foram os dirigentes que lançaram, correram ou saltaram não se lhes podem pedir responsabilidades. Em consequência, suas excelências dispuseram-se ao alto sacrifício de continuarem mais quatro anos a usufruir de um poder que não são sequer capazes de compreender. E o País anda nisto há quase trinta anos.

 

O problema do desporto nacional não está na falta de qualidade dos praticantes, nem na qualidade dos técnicos. Não está na carência de recursos financeiros. Não está na necessidade de mais instalações desportivas nem de mais clubes, associações ou federações que, à parte de algumas exceções, até funcionam com razoável eficiência e eficácia. O grande problema do desporto nacional está nos dirigentes políticos e desportivos do vértice estratégico que anunciam “novas agendas para o desporto” e, ridiculamente, elegem o desporto como “desígnio nacional” para, depois, se limitarem a garantir e mal a logística aos atletas que competem nos eventos internacionais. Quer dizer, têm revelado a mais confrangedora incapacidade para equacionarem um coerente processo de desenvolvimento do desporto para o País que somos e não aquele que eles, nas suas catarses de usufruto do poder imaginam. Em consequência, a par de atletas que, por iniciativa própria, o apoio dos clubes e o esforço das suas famílias, conseguem resultados extraordinários, a estrutura ideológica e organizacional do desporto nacional está, desde 2004, olimpicamente descerebrada, em “roda livre” e a caminho do caos.

 

Na realidade, não são os dirigentes desportivos que correm, que lançam ou que saltam. Mas são os dirigentes desportivos que são responsáveis: (1º) Pela defesa dos princípios, dos valores, do credo e da missão das instituições que lideram; (2º) Pela estrutura orgânica e os fluxos que fazem as organizações funcionar com eficiência e eficácia; (3º) Pela definição de objetivos que, de acordo com a missão da organização, vão organizar o presente a partir de um futuro que desejam construir; (4º) Pela estratégia de desenvolvimento que há-de conduzir ao consumar dos objetivos determinados; (5º) Pelo planeamento e programação que, no espaço e no tempo, coordenam os esforços, os recursos e os meios envolvidos; (6º) Pela captação de recursos financeiros; (7º) Pela parcimoniosa afetação dos recursos, humanos, materiais e financeiros; (8º) Pela organização dos mecanismos de controlo; (9º) Pelo envolvimento social; (10º) Pela liderança partilhada uma vez que, ao contrário daquilo que alguns parecem pensar, eles não são donos das organizações que lideram. Por isso, quando falham, se tiverem uma réstia de dignidade, resta-lhes darem o lugar a outros.

 

Depois dos fracassos que foram as últimas três Missões Olímpicas, continuar a defender que os dirigentes desportivos não podem ser responsabilizados pelos resultados desportivos porque não são eles que correm, que lançam ou que saltam é defender uma olímpica mediocridade dourada que, salvo uma ou outra exceção, tomou conta do dirigismo desportivo nacional. É defender uma das metáforas olímpicas de maior toxidade já produzida no País na medida em que, para além de desresponsabilizar os dirigentes desportivos pela ausência de resultados desportivos, quer na base, quer no topo da pirâmide de desenvolvimento, acaba, também, por proteger os dirigentes políticos pela completa ausência de políticas públicas que deviam garantir para o desporto nacional um processo de desenvolvimento com um mínimo de dignidade.

 

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

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