Quem “matou” a mudança? Suspeito nº 3 (artigo de João Oliveira)

Espaço Universidade 06-08-2018 23:46
Por João Oliveira

“Já era treinador há alguns anos e enfrentava uma situação difícil” referia o famoso Treinador Brad Wooden ao Detetive da brigada de crimes empresarias, Peter Colombo.

 

Brad Wooden levava mais de 30 anos como treinador, era senhor de uma estatura média, na sua juventude tinha sido um jogador mediano, prematuramente deixou de jogar, cedo começou a treinar e o seu trajeto revelava uma resiliência notável. Presentemente, o treinador Brad Stevens figurava na história do desporto profissional como um dos melhores, senão mesmo o melhor treinador de todos os tempos. Contudo, não tinha sido sempre assim e era sobre um grave e transformador momento que estava a falar.

 

“Mas o que é que aconteceu de relevante” – perguntou ansiosamente o Detetive Colombo.  

 

“Ainda como jogador” – dizia o Treinador Wooden – “tinha tido um treinador que não clarificava as regras. No início da época, os jogadores estavam muito satisfeitos, iam testando o pulso ao treinador, com o tempo os treinos não tinham ritmo, começávamos a ficar algo insatisfeitos e, a meio da época, acabava por resultar em anarquia e maus resultados. Os mesmos atletas que inicialmente gostavam da liberdade, acabavam a queixarem-se ou a tentarem “apanhar o fogo” sozinhos. A sua intenção era a melhor: dar liberdade para os jogadores expressarem todo o seu potencial, mas paradoxalmente os resultados da dedução das regras foram péssimos. Aquela experiência tornou clara que a ausência de normas que regulassem o comportamento das equipas não funcionava. Detetive Colombo conheceu algum professor ou treinador que não clarificasse as regras?”

 

“Sim” – respondeu o Detetive Colombo e continuou – “na escola tive um Professor que acreditava que a Educação vinha de casa e esperava que os alunos importassem para a aula as boas práticas de relação e de trabalho, que tinham aprendido em casa. Porém, os alunos eram muito diferentes e provinham de diferentes famílias e contextos. Assim, repetíamos nas aulas o que de bom e o que de menos bom tínhamos “aprendido” em casa. Infelizmente, a diferença entre os contextos familiares e sociais acabava por condicionar o bom funcionamento desta perspetiva, aliás provocava os mesmos maus resultados que a dedução do seu treinador.”

 

“Exato Detetive Colombo, por isso” – continuava o Treinador Wooden – “quando comecei a treinar a ausência de regras não era uma opção, pois não conduzia aos resultados desejados. Pelo que, antes das épocas iniciarem, começava a lembrar-me das situações que tinham provocado problemas nas equipas em que tinha jogado e estabelecia regras para punir os atletas que causassem esses problemas. Lembro-me de dizer aos meus atletas que tinha sido um jogador “traquinas” e que o que quer que pensassem fazer, que prejudicasse a equipa, eu já tinha feito e isso não iria ser permitido. Assim, impunha as regras aos Jogadores e às Equipas, com a intenção de obter os melhores resultados. Comecei a observar que impor as normas funcionava no imediato, no curto-prazo, com organização e concentração. Contudo e com o tempo, criava problemas de relação, justiça, conflitos e, no final, alguns jogadores queriam abandonar a equipa. O que parecia ser uma solução no imediato, acabava por comprometer os resultados no médio e longo-prazo. Impor as regras oferece aos jogadores uma estrutura, contudo eles também sentem pouca margem para errarem e com isso: uns reagem não tentando, de forma a evitarem repreensões e consequentemente ficam eles e as equipas aquém do que são capazes; enquanto outros confrontam os Treinadores, desviam toda a sua energia para o confronto interno, em vez da disputa com os adversários externos, que é o que nos interessa, e as equipas e os jogadores acabam por jogar abaixo das suas capacidades.”

 

O Detetive Colombo de imediato averiguou - “por que razão é que muitos Treinadores fazem isso?”.

 

“Julgo que como eu, acreditam que a organização é necessária para o sucesso das equipas” – retribui o Treinador Wooden e continuou – “por isso é que eu estava numa situação difícil: sabia que a ausência de regras ou esperar que todos fossem educados gerava resultados catastróficos e compreendia que impor as regras provocava igualmente desenlaces trágicos. Umas e outras produziam múltiplos problemas nas equipas: ou haviam queixas de que os treinadores não tinham pulso; ou as disputas dentro das equipas eram frequentes e, com isso, os dirigentes recorriam com frequência às “chicotadas psicológicas”, que não só não resolviam os problemas, como provocavam a repetição destas situações desastrosas. Não tinha uma alternativa com o melhor dos dois mundos: a liberdade e a estrutura reguladora. Este era o meu problema como treinador: ter um sistema de regulação dos comportamentos que oferecesse simultaneamente liberdade e estrutura.”

 

“Estou em crer que hoje não tem esse problema?” – indagou o Detetive Colombo baseando-se nos excelentes resultados do Treinador Wooden e do que os jogadores que nos últimos anos treinou diziam dele e continuou – “o que é que faz de diferente, agora?”.

 

“Comecei a observar outros treinadores de qualquer modalidade, passei a estudar a forma como os líderes podiam influenciar as regras das equipas e fiz várias formações abordando estas temáticas. Percebi que conhecia perfeitamente três formas de estabelecer as regras das equipas: deduzidas – quando as regras não são explicitadas e os jogadores vão testando até onde podem ir; importadas – quando as regras não são estabelecidas e espera-se que os jogadores importem para o treino as regras aprendidas em casa; e impostas – quando os treinadores impõem regras, muitas vezes punindo o que não deve acontecer. Porém, também descobri uma quarta alternativa que funcionava e funciona” referia o Treinador Wooden, quando o telemóvel toca e o Treinador atende a chamada, depois de perguntar se o Detetive não se importava.

A chamada devia ser importante, pois o Treinador Wooden afastou-se do Detetive Colombo. Enquanto isso, o Detetive Colombo estava curioso e pensava – “qual é a alternativa que o famoso Treinador Wooden descobriu e que funciona?”.

O Treinador Wooden desliga o telemóvel e regressa. “Estava a dizer” – começou o Treinador Wooden – “que às normas impostas, deduzidas ou importadas, temos a opção de induzir normas funcionais, que permitem disponibilizar uma estrutura que potencia simultaneamente a regulação e a liberdade, os resultados e a boa relação, entre as pessoas que Treinam e as pessoas que Jogam. Mudei, passei a induzir normas funcionais e os resultados não podiam ter isso melhores. Os jogadores tinham uma estrutura reguladora que permitia a liberdade com responsabilidade. Os resultados quer imediatos, quer a médio e longo-prazo foram excecionais. Os jogadores passaram a gostar e a querer ficar no Clube, só começaram a sair por motivos plenamente justificáveis. Quando o faziam, passaram a recordar-nos como a sua casa Mãe, a terem saudades e regressarem ao nosso convívio, no final das épocas. Hoje, sou frequentemente apontado como um dos melhores treinadores, mas se não tivesse mudado a forma de influenciar as regras e normas das equipas, passando a induzi-las, nunca ou muito dificilmente teria conseguido os resultados que consegui, nomeadamente a repetição de bons resultados, época após época.”

 

“História fantástica de mudança” - pensava o Detetive Colombo, ao mesmo tempo que se interrogava, questionou o Treinador Brad Wooden – “mas como é que isso poderá estar a “matar” a mudança no Clube?”.

 

“Detetive observe os treinos das várias modalidades e dos diferentes escalões etários e, infelizmente, encontrará a resposta” – respondeu o Treinador Brad Wooden.

 

A conversa tinha sido muito enriquecedora e nos dias seguintes o Detetive seguiu a sugestão do Treinador Wooden e no final tinha descoberto mais um suspeito e estava na hora de falar com o Presidente do F.C. Galáticos, o Sr. Mark Angie, o que aconteceu depois de ligar e marcar uma reunião com a sua competente secretária, a Sra. Judy Burlington.

 

“Presidente Angie, depois de falar com o Treinador Brad Wooden, seguir a sua sugestão e observar treinos de várias equipas, mas também de verificar a forma como vários departamentos do Clube estão a funcionar, suspeito que a forma como as normas ou regras estão a ser estabelecidas poderá a estar a “matar” a mudança” – disse o Detetive Colombo.

 

O Detetive Colombo explicou tudo o que conversou e observou e no final o Presidente Angie rematou - “e se o Clube conseguisse melhorar a forma como os diferentes setores estabelecem as regras de funcionamento? Imagine-se como poderá ser o Clube se todos os departamentos passassem a induzir normas funcionais, em vez de as deduzir, importar ou impor” – ao que o Detetive Colombo rematou – “como poderão ser as experiências e resultados das pessoas que estão nas Escolas, nas Empresas, nas Fábricas, (…), se as regras de funcionamento resultassem de normas funcionais induzidas?”

 

João Oliveira é Doutor em Psicologia, Mestre em Ciências do Desporto, Licenciado em Ensino da Educação Física, Treinador de Basquetebol, Treinador de Equipas, formador em Desenvolver Equipas Eficazes e Motivação na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto e professor de Psicossociologia das Organizações e do Desporto no Instituto Universitário da Maia - ISMAI.

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