“Carta aberta a todos os vitorianos” (artigo de José Neto, 66)

Espaço Universidade 31-07-2018 15:03
Por José Neto

ESTIMADOS VITORIANOS… BONS AMIGOS: Em finais do meu 1º Curso de Educação Física da U.Porto (1981/82) … já lá vão 37 anos!... “É o cavalo do tempo a galopar” como conta Miguel Torga na sua Câmara Ardente!... o Sr Pedroto convidou-me a visitar a sua “sala de aulas” – o estádio do Vitória S.C., imaginar-se-á a ansiedade que me acompanhou na deslocação. Após os cumprimentos da ordem e já no gabinete, o Sr Pedroto perguntou: “olhe, professor, diga-me lá como funcionam as mitocôndrias ?... e …que pensa dos treinos bidiários com um trabalho de força explosiva da parte de tarde?”... e … eu ainda a preparar as respostas, fixei-me no seu olhar  soberano e ao mesmo tempo paternal e respondi: - “desculpe Sr Pedroto., mas eu vim aqui a procurar respostas para tantas das minhas perguntas. Aqui é o senhor que sabe!”...  Ele esboçou um largo sorriso, acendeu um cigarro e agora numa voz mais pousada e terna disse-me: - “ora pergunta lá o que pretende” … e a noite entrou connosco numa conversa sobre Futebol, como jamais houvera tido!...

 

Carregado de dúvidas, algumas achegas, expectativas a reter e após esta primeira lição, imaginar-se-á a alegria que senti, quando me convidou a tomar um café no Velasquez, próximo da sua residência, no Porto.

 

Ali, junto a uma coluna central, deu-me o privilégio de me sentar a seu lado. Depois de saborear um café e assistido a uma pequena tertúlia entre amigos (e eram tantos), convidou-me a acompanhá-lo (no seu Jaguar de cor cinza e estofos de couro, ouvindo quase em silêncio uma melodiosa música clássica), até Guimarães, ao longo de cujo percurso a conversa se revelou crescentemente entusiasmante.

E os tempos iam passando, até que um dia quis surpreendê-lo. O Vitória jogava em Penafiel (interessante facto histórico – o meu primeiro jogo com o Sr Pedroto e também o último que ele orientou quando estávamos no F.C.Porto, antes de se deslocar para Londres para tratar do fatídico problema de saúde que originou a sua tão prematura partida…) e eu “armado” de 2 cronómetros e com base numa ficha de avaliação criada para o efeito, fui registando: passes certos e errados (e seus autores), ataques efetuados e sua consequência, remates realizados (jogador, zona, tipo e consequência), percentagens de eficácia, relativas e absolutas, tempos de posse de bola, etc …

Vim para casa e, no dia imediato historiei, de forma objetiva os dados do jogo, elaborando um histograma de barras (com lápis de cor), e procurei em 4 ou 5 páginas descrever uma análise do jogo com base nos factos detetados.

 

Na 3ª Feira seguinte, muito ansioso e expectante entreguei-lhe o material e ao mesmo tempo fiquei de olho na sua reação. E eis-me que me saiu com esta: - “é pá …hoje o nosso treino vai valer por esta abordagem!... Morais, chama-me esses “meninos” ao balneário!”

 

Damas, Abreu, Romeu, Gregório Freixo, Festas, Tó Pedroto, Tó Zé, Flávio, Barrinha, Nivaldo, Tito, Laureta, Narciso, Carraça…etc … todos convocados para uma reflexão imprevista, surpreendente e, à sua maneira anunciadora de novos processos. Nascia em Portugal a história do estudo e avaliação do jogo num processo verdadeiramente pedagógico para o treino. Aliás, o Sr Pedroto dizia de forma repetida: - “Olha para o jogo que ele te dirá como deves treinar!”...

 

Aproximava-se o final de época e num final de dia, abeirou-se de mim e lançou-me uma frase que me varreu a alma e que jamais haverei de esquecer: - “Prof. – pró ano vai comigo pró Porto!”... e depois, foi com  outras histórias, convertidas em êxitos que durante quase uma década na Observação do Jogo e na metodologia do treino, transferiram a paixão, rigor, competência e ambição (na dedicatória do meu livro “Futebol de Corpo Inteiro”, gravada em gratidão pelo presidente Jorge Nuno Pinto da Costa), que ganhei uma das melhores  fórmulas  de aprender a vida.

 

ESTIMADOS VITORIANOS … BONS AMIGOS: sempre que usei as minhas funções no apoio a equipas para as quais o resultado foi obtido em sucesso (recordo o Tondela nos 45 dias da época anterior em que se conseguiu a obtenção de 16 pontos, tantos como havia feito de Agosto ao final de Março, o caso do Moreirense, também no último mês da competição, há 3 épocas que se sagrou campeão e especialmente no F.C.P.Ferreira na época 2012/13 com Paulo Fonseca e que vimos consagrado o 3º lugar e o acesso à Liga dos campeões e mesmo este ano no apoio periódico ao Santa Clara, com subida à 1ª Liga), procurei logo na entrada em funções, CONHECER a equipa.

 

Quando José Peseiro, (um dos melhores treinadores desta geração … sei do que estou a falar, que tem passeado a lógica duma pedagogia de sucesso, na arte de bem treinar para bem jogar… e isto, creio mesmo, brevemente será objeto de segura constatação num caso de estudo e seu atual clube – Sporting C.P.), me convidou a acompanhá-lo no Vitória eu revisitei-me no tempo, deslocando-me ao café Velasquez para me inspirar no passado e fui a ferver de contentamento, fazendo tal e qual a viagem que percorreu o meu primeiro sonho. O momento de época um pouco atribulado pelo facto da obtenção duma série de resultados negativos (então aquela derrota por 0-5 com o rival S.C.Braga), da preparação final dum ato eleitoral, associado ao pouco tempo para instrumentalização de argumentos sólidos para atuar, deixou-me “amarrado” a aplicação de conceitos mais genéricos ao nível da motivação, stress e ansiedade, resiliência, coesão e espírito de grupo e um ou outro guião personalizado de competências que, sem querer referir nomes, foram os que mais acusaram situações potencialmente eficazes.

 

Não obstante se verificar uma potencial melhoria de rendimento da equipa (reparar que obtivemos uma média de 1.62 por jogo e de todos os treinadores na linha direta para a conquista dum lugar da Europa, o Vitória nesse tempo de presença de Peseiro obteve melhor média de pontos), no que corresponde às minhas funções, poder-se-ia ir mais longe, muito mais longe, sem dúvida. Temas que deveriam ser objeto de tratamento, como: uma mais séria e aturada avaliação e desenvolvimento de imagens de rendimento personalizado para o sucesso, construindo rankings de desempenho no sentido de verificar a progressão de competências; estabelecer um conjunto mais alargado de estratégias para lidar com fatores adversos, nomeadamente nas situações de crise de rendimento e ainda inserir no terreno mais competências apelativas para uma melhor e mais apurada consciencialização na aplicação dos processos de treino. Como se sabe, as minhas funções são distintas quer ao nível de coach, quer ao nível estritamente psicológico, embora numa ou noutra aplicação de trabalho possam estar devidamente justificadas e requeridas. Procuro e sempre procurarei desenvolver as temáticas a serem trabalhadas numa dinâmica processual de treino e jogo, daí referir que não obstante os estudos avançados em psicologia desportiva e sociologia comportamental no 1º Mestrado na U.Minho (1994/97) e Doutoramento na U.B.I. (2004/11), considero que as minhas funções são de ordem da metodologia de treino desportivo, usando a psicologia e sociologia com método para o seu integral desempenho.

 

ESTIMADOS VITORIANOS … BONS AMIGOS: Entendo que todos temos a responsabilidade de justificar o presente para ganhar o futuro. Não obstante o espaço de tempo e as circunstâncias referidas não ter sido suficiente para qualificar um integral desempenho na conquista dum lugar de acesso às competições da U.E.F.A., não deixo de referir que foi uma enorme honra ter servido as causas do VITÓRIA.

 

Agora que não foi possível a continuidade de José Peseiro, tendo a função de liderança de Luís Castro, também um bom amigo e com um perfil ideal para relançar as sementes do futuro, já que na sua identidade pessoal habita de forma bem clara a força dum humanismo cativante e uma competência que muito irá honrar as cores do clube CONQUISTADOR, liderando toda uma equipa de valores entretanto exponencialmente acrescentada.

 

A inserção na estrutura técnica de Moreno foi também um ato de gratidão e amor por quem tão nobremente abraçou as causas vitorianas, já que o porta -   estandarte Flávio Meireles como símbolo superiormente qualificado, também faz do clube, sua verdadeira família.

 

A presença continuada da estrutura médica liderada de forma sábia pelo Dr Rui Vaz que usa sempre encostada à pele o símbolo do Vitória é sinal de grandeza por quem tanto ama o clube e de quem está atento aos compromissos do futuro.

Ainda a colaboração do meu colega Doutor Jorge Silvério (colega pelo qual tive a honra em partilhar o 1º Mestrado de Psicologia Desportiva em Portugal) no apoio que se vem registando ao longo do tempo ao Treinador Luís Castro, estou certo que muito irá também enriquecer o património cultural e social do Clube e da equipa, na área que muito bem sabe exercer.

 

ESTIMADOS VITORIANOS … BONS AMIGOS: O tempo foi curto … voou sem dúvida. Ainda vou ouvindo a voz enternecida dum associado, já maduro, que no primeiro dia que estacionei o carro no complexo, me viu e largou em voz bem audível “ o bom filho a casa torna”. Afinal uma das mais fortes razões porque aceitei o convite: a presença dum treinador de excelência; a liderança duma estrutura diretiva em que a inteligência e empatia do presidente Engº Júlio Mendes, superiormente assessorado pela sagacidade e robustez funcional do Vice Armando Marques; um corpo de adeptos que sempre fazem do seu hino  “grito e voz de tanta gente … na função de tanto querer a sede de vencer, sendo  Vitória até morrer”, por isso fazendo dum clube uma razão da sua existência e também porque foi no VITÓRIA que conheci em prática aplicada o meu melhor Mestre de Futebol, Sr Pedroto que aí, pela “estrela da manhã” me convidou um dia a fazer com ele uma viagem de sonho e “bater nas portas do céu!”... Nesse mesmo dia compreendi melhor uma frase que tinha lido no Diário XI de Miguel Torga  (p. 202): “mesmo absurda, toda a esperança é sagrada”

 

ESTIMADOS VITORIANOS … BONS AMIGOS: De facto, este clube marca a letras de ouro a história de Portugal… e brevemente rejubilará com festa do seu centenário. Saibam que no lugar ou funções que o futuro me comprometa, jamais deixarei de vos reservar um lugar, pertinho do meu coração.

BEM HAJAM!...

 

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto/Futebol; Formador de Treinadores F.P.F./U.E.F.A.; Docente Universitário.

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